Você provavelmente não viu nenhuma propaganda na TV (só Band e TV Brasil transmitirão) ou uma cobertura muito extensa da mídia em geral. Mas fique sabendo: neste sábado, começa a sétima edição da Copa do Mundo Feminina, disputada no Canadá. Enquanto o escândalo da Fifa ofusca o assunto, os dirigentes foram pouquíssimo espertos ao marcarem a abertura justamente no dia da final da Champions. De qualquer forma, em uma época na qual o futebol começa a rarear na televisão, acompanhar a competição é uma excelente pedida.

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Não apenas pela falta de eventos nessa época do ano, diga-se. Afinal, o nível da Copa do Mundo Feminina é cada vez melhor, com um bom número de candidatas ao título e ao prêmio de craque. A última edição do torneio, em 2011, foi uma excelente mostra disso, com a consagração do jogo de ótimo toque de bola do Japão de Sawa. E o Brasil, ainda que distante do favoritismo, segue com potencial para ir bem, especialmente pelo talento de Marta.

Abaixo, destacamos dez pontos para prestar atenção no Mundial do Canadá. Infelizmente, nem todos esportivos, com a Fifa se enroscando nas próprias pernas e aplicando políticas vistas por muitos como discriminatórias. Ainda assim, vale demais acompanhar a Copa, e já desde este sábado, com os duelos entre Canadá x China e Nova Zelândia x Holanda.

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– Como as jogadoras lidarão com o entrave dos gramados

Foram meses de queda de braço. A Fifa causou a revolta das jogadoras ao utilizar gramados artificiais nos seis estádios da Copa do Mundo. Lideradas por Abby Wambach e com participação de personalidades de fora do futebol, elas protestaram firmemente pela utilização de grama natural, melhor não apenas ao jogo, como também à própria condição física. Mas a abertura dos dirigentes foi mínima, em um debate que se tornou também questão de preconceito de gênero. No fim das contas, apenas o palco da final terá vegetação de verdade. Não será surpreendente se algum protesto acontecer em campo ainda assim.

BRASILIA, BRAZIL - DECEMBER 10: of Brazil struggles for the ball with of Argentina during a match between Brazil and Argentina as part of International Women's Football Tournament of Brasilia at Mane Garrincha Stadium on December 10, 2014 in Brasilia, Brazil. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)

– O Brasil de Marta, mas também de Formiga

A seleção brasileira não vive mais os seus melhores momentos entre as mulheres. A equipe perdeu forças em relação ao final da última década e Marta, por mais que ainda jogue muito, não sobra tanto quanto em outros anos, em relação as suas companheiras e adversárias. O elenco montado pelo técnico Vadão (aquele mesmo, de muitos trabalhos no futebol paulista) conta com 11 jogadoras de 25 anos ou menos. Já a experiência, além da camisa 10, se concentra principalmente em Cristiane, Rosana e Formiga. A interminável volante de 37 anos continua em excelente forma, levando o São José ao tricampeonato da Libertadores com sua combatividade e o passe apurado. Com seis Copas no currículo, torna-se a recordista ao lado de Homare Sawa, do Japão.

– Sawa, uma camisa 10 para se aplaudir

O Japão volta à Copa do Mundo defendendo o título conquistado em 2011. Embora não fossem as principais favoritas, as japonesas fizeram uma campanha magnífica. E seguem com força para tentar repetir o feito. Especialmente, por causa da craque que continua vestindo a camisa 10. Dona de uma técnica muito acima do comum e de excelente visão de jogo, Homare Sawa vem para aquele que deve ser o seu último Mundial, aos 36 anos. Já não é mais a melhor jogadora do país, bem acompanhada por Aya Miyama e Nahomi Kawasumi. Mas a experiência da veterana pode fazer a diferença.

– O domínio das alemãs nos clubes irá se repetir entre as seleções?

Poucos questionam o fato de que, hoje, a Alemanha possui a liga nacional mais forte do mundo no futebol feminino. Dos 14 títulos da versão feminina da Liga dos Campeões, 10 ficaram com os clubes do país, com destaque para o bicampeonato do Wolfsburg em 2014 e pela conquista do FFC Frankfurt no último mês. E a seleção alemã está recheada dessas jogadoras tarimbadas, que ajudaram o Nationalelf a ser bicampeão do mundo entre 2003 e 2007. Se Birgit Prinz se aposentou, a goleiraça Nadine Angerer segue na meta. Já na linha, o destaque fica para Célia Sasic, que assume o papel de referência. Melhor do mundo em 2014, Nadine Kessler é o grande desfalque, lesionada.

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– A chance dos Estados Unidos voltarem ao topo

A seleção americana, inegavelmente, é a maior potência da história do futebol feminino. As quatro medalhas de ouro em cinco edições do torneio olímpico dizem muito. Entretanto, o US Team vive um jejum considerável nas Copas do Mundo. Donas da taça por duas vezes, as americanas não a conquistam desde 1999. Potencial para voltar à glória, no entanto, não falta. O elenco é repleto de ótimas jogadoras, como Alex Morgan, Megan Rapinoe e Sydney Leroux. Mas nenhuma no nível de Abby Wambach, dona da Bola de Ouro em 2012 e autora de 182 gols em 242 partidas pela seleção. Além disso, o time treinado por Jillian Ellis pode esperar grande apoio nas arquibancadas, dada a proximidade do Canadá.

– Teremos alguma surpresa?

Algumas seleções merecem ser observadas com mais cuidado nesta Copa do Mundo. Uma delas é a Nigéria, tradicional potência africana, mas que nunca surpreende tanto nos torneios intercontinentais. O grupo do país é dificílimo, com Estados Unidos, Suécia e Austrália. Mas, se a equipe quiser aprontar, tem o nome certo: a atacante Asisat Oshoala, melhor jogadora do Mundial sub-20 de 2014 e apontada como craque de 2015 no futebol inglês pela BBC. Já a França vem em uma crescente, semifinalista na última Copa e nas últimas Olimpíadas. Os clubes do país têm investido forte em futebol feminino e há uma boa geração, encabeçada Louisa Necib.

– O desempenho das muitas estreantes

Das 24 seleções participantes da Copa do Mundo, oito estrearão na competição. Alguns países com tradição entre os homens, como a Espanha e a Holanda. A Roja possui uma base dividida entre Barcelona e Athletic Bilbao, e chegou às quartas de final no último europeu, eliminando a Inglaterra pelo caminho. O destaque é Verónica Boquete, que ficou entre as dez melhores jogadoras do mundo em 2014 e, após conquistar a Champions com o FFC Frankfurt, acabou negociada com o Bayern de Munique.

psg

– A grande presença dos clubes também fortes no masculino

É interessante notar que, especialmente na Europa, o investimento no futebol feminino tem se espalhado pelos países. E que muitos clubes tradicionais entre os homens também deem espaço cada vez maior às mulheres. O maior exemplo disso é o Paris Saint-Germain, vice-campeão europeu e com 12 convocadas, segundo maior número de atletas. O primeiro, aliás, é de outro gigante francês, o Lyon. Além deles, também cederam jogadoras: Bayern de Munique, Wolfsburg, Ajax, PSV, Basel, Barcelona, Atlético de Madrid, Athletic Bilbao, Manchester City, Arsenal, Chelsea, Liverpool, entre outros.

Enquanto isso, os únicos clubes brasileiros que atuam nas duas frentes são a Ferroviária e o São José, que este ano sequer disputaram a primeira divisão do Campeonato Paulista no masculino – ainda que o clube de Araraquara tenha conquistado o acesso. Uma “seleção permanente” foi criada pela CBF não só para melhorar o entrosamento de parte das jogadoras, mas também para garantir emprego em uma situação extremamente instável do futebol feminino no país.

– A verificação de sexo imposta às jogadoras

Outro tema de polêmica às vésperas da Copa do Mundo é a exigência de exames para determinar que as mulheres “são mesmo” mulheres. Segundo a Fifa, a política serve para apenas para assegurar que as jogadoras “sejam do sexo correto”. Entretanto, para as próprias atletas, a imposição serve apenas para impor um estigma sobre as mulheres, através de procedimentos humilhantes e invasivos. Segundo a federação alemã, suas jogadoras precisaram enviar exames ginecológicos à Fifa. Para muitos especialistas, os métodos da entidade internacional ainda são pouco conclusivos sobre a questão. “Em muitas ocasiões, não é possível determinar o sexo de um indivíduo mediante parâmetros biológicos e, portanto, a opção mais razoável é levar em conta unicamente a identidade sexual de cada um”, declarou Katrina Karkazis, especialista em bioética da Universidade Stanford, em excelente reportagem do jornal El País sobre o tema.

– Qual será o comportamento dos dirigentes da Fifa

Será a primeira competição oficial da Fifa desde o estouro do escândalo no final de maio. Resta saber quão massiva será a presença dos dirigentes no Canadá, ainda mais com o FBI no encalço de muitos deles. Também um prato cheio para a imprensa tentar apertar muitos deles contra a parede e conseguir novas informações sobre os casos. Joseph Blatter, que já anunciou a sua saída da presidência ainda no próximo ano, é esperado em Vancouver para a decisão, mas não para a abertura em Edmonton.

Os grupos da Copa do Mundo Feminina de 2015

Grupo A: Canadá, China, Nova Zelândia e Holanda
Grupo B: Alemanha, Costa do Marfim, Noruega e Tailândia
Grupo C: Japão, Suíça, Camarões e Equador
Grupo D: Estados Unidos, Austrália, Suécia e Nigéria
Grupo E: Brasil, Coreia do Sul, Espanha e Costa Rica
Grupo F: França, Inglaterra, Colômbia e México

Os jogos do Brasil: Coreia do Sul (9 de junho), Espanha (13 de junho), Costa Rica (17 de junho)