A caminhada do Palmeiras rumo ao título brasileiro começou quase que por acaso, quase que de repente. Roger Machado havia deixado o time longe da liderança, e o foco de Luiz Felipe Scolari estava nas copas. A escalação que ele colocava em campo no Brasileirão era forte, por causa do vasto elenco alviverde, mas claramente secundária. E foi ela quem deu início à arrancada que colocou o Palmeiras bem posicionado para, uma vez eliminado dos mata-matas, terminar o trabalho, com a vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, em São Januário, no último domingo. Uma caminhada da qual separamos dez momentos marcantes a seguir.

O gol sem comemoração

Quem assiste à reta final de campeonato que fez Dudu pode duvidar que o começo foi conturbado. O Palmeiras chegou à segunda rodada, contra o Internacional, no Pacaembu, pressionado por três partidas sem vencer na temporada – incluindo a final do Paulista, em casa, contra o Corinthians. E Dudu era um dos que recebia boa parte das críticas nas redes sociais. Ficou tão chateado que não comemorou, contra o Internacional, o gol da primeira vitória alviverde no Brasileirão. Pediu desculpas aos torcedores. Nos meses seguintes, enfrentou outro teste. Duas propostas milionárias da China foram recusadas pelo clube, e Dudu desabafou com uma publicação na rede social, dizendo que “feliz ou não” teria que seguir em frente. Deixou a frustração para trás e foi o melhor jogador da campanha do campeão brasileiro.

Bigode decide

Willian é muitas vezes subestimado. Entre atacantes caros como Borja e Deyverson, ele é o mais constante, seja atuando pelos lados ou como centroavante. É o artilheiro do Palmeiras no Campeonato Brasileiro, com dez gols. Dois muito importantes saíram no Rio Grande do Sul. A equipe ainda oscilava sob o comando de Roger Machado, mas derrotou o atual campeão sul-americano, fora de casa. Mesmo com os titulares, o Grêmio não conseguiu barrar o Bigode. E o Palmeiras ficou com três pontos que poucos conseguiram na Arena: somente o campeão e o Sport – até agora.

O raro gol de falta

O Palmeiras passou mais de três anos sem fazer um gol de falta. Quebrou o jejum em um amistoso contra a Liga Alajuelense, na Costa Rica, durante a pausa da Copa do Mundo. O autor foi Bruno Henrique, que estava apenas calibrando o pé. Contra o Atlético Mineiro, algumas semanas depois, mandou direto no ângulo de Victor, fazendo 2 a 1 para o Palmeiras, aos 31 minutos do segundo tempo. Yimmi Chará empatou, em seguida. E nos acréscimos, a segundos do apito final, Bruno Henrique voltou a marcar na vitória palmeirense por 3 a 2. O volante, que chegou a ser contestado e criticado ano passado, evoluiu para ser um dos mais importantes do Palmeiras. E artilheiro: já fez oito gols.

A volta para casa
Felipão comemora o título em São Januário (Foto: Getty Images)

Roger Machado não resistiu à derrota por 1 a 0 para o Fluminense. O Palmeiras oscilava sob o seu comando, especialmente em partidas teoricamente mais tranquilas para um dos candidatos ao título, como contra Ceará e Sport, quando os paulistas levaram gols nos minutos finais e perderam pontos preciosos. A reposição foi surpreendente: seis anos depois de ser demitido, deixando o clube embicado para o rebaixamento, Luiz Felipe Scolari estava de volta. Ele precisou de uma semana para colocar a vida em ordem e se mudar para o Brasil. Nesse período, Wesley Carvalho tocou a vitória por 3 a 0 sobre o Paraná, e Paulo Turra, seu assistente, conduziu uma partida de Copa do Brasil contra o Bahia. Felipão reestreou pelo Palmeiras contra o América Mineiro, fora de casa. O empate por 0 a 0 não foi o início ideal. Mas seria a primeira de uma série de 21 partidas de invencibilidade com Felipão no banco de reservas, que culminaria no título brasileiro.

O novo xerife
Gómez estreia contra o Vasco (Foto: Getty Images)

O Palmeiras não contratou tanto nesta temporada quanto nas anteriores. Tentou resolver os problemas das laterais, trouxe mais um goleiro e aproveitou oportunidades no meio-campo, com Lucas Lima e Gustavo Scarpa. Deixou, porém, um vácuo na zaga, com a saída de Yerri Mina para o Barcelona. Isso foi resolvido apenas no meio do ano. No começo de agosto, o zagueiro paraguaio Gustavo Gómez foi apresentado na Academia de Futebol. Inspirado em Gamarra, Gómez havia se destacado pelo Lanús e não encontrava minutos no Milan. Tem 25 anos e é regular na seleção paraguaia. Estreou contra o Vasco e rapidamente se destacou pela segurança que passava. Fez gol importante contra o São Paulo e acabou promovido aos titulares, merecidamente.

A desforra

Fazia um ano e meio que o Palmeiras só apanhava do Corinthians. Perdeu o jogo do Paulista e os dois do Brasileiro de 2017. Perdeu na primeira fase do estadual deste ano e também na decisão, deixando o título escapar em casa. E voltou a perder no primeiro turno do torneio nacional. A série de seis frustrações seguidas contra o maior rival chegou ao fim no Allianz Parque, no começo de setembro. Um gol de Deyverson, completando cruzamento rasteiro de Marcos Rocha, garantiu uma vitória essencial, principalmente para o moral da equipe alviverde.



Fim de tabu

A vitória sobre o Cruzeiro fez o Palmeiras assumir a liderança do Campeonato Brasileiro, empatado em pontos e vitórias com o Internacional. Os gaúchos perderam do Sport, por 2 a 1, dando aos paulistas a chance de abrir vantagem na liderança, no dia seguinte. Mas seria difícil. Um duelo que o Palmeiras não vencia há 16 anos: o São Paulo no Morumbi. O tabu foi quebrado, com gols de Gustavo Gómez e Deyverson, completando a dobradinha palmeirense no Choque-Rei. O jogo do turno, ainda com Roger Machado, foi uma das melhores atuações do Palmeiras no ano.

O confronto direto

O empate com o Flamengo, em casa, na 12ª rodada, a última antes da Copa do Mundo, foi ruim para o Palmeiras, que ficou a oito pontos da liderança. Mas o empate com o Flamengo, fora de casa, na 31ª rodada, foi ótimo para o Palmeiras. Manteve a vantagem de quatro pontos para o segundo colocado, a sete partidas do fim, no último confronto direto que o time de Felipão tinha pela frente. Dudu chegou a colocar os paulistas em vantagem, mas Marlos Moreno empatou.

Victor Luis

Victor Luis foi formado na base do Palmeiras e se estabeleceu como um bom lateral esquerdo do Campeonato Brasileiro em passagens emprestado a Ceará e Botafogo. Ficou no elenco nesta temporada para dar suporte à lateral esquerda e marcou um dos gols mais importantes da campanha. Logo depois de empatar com o Flamengo, o Palmeiras abriu 2 a 0 contra o Santos, no Allianz Parque, ainda no primeiro tempo. No entanto, a solidez defensiva que apresentava com Felipão até aquele momento foi incapaz de impedir o empate do Peixe. Mas, antes de dar tempo de lamentar a perda de pontos importantes, Victor Luis bateu falta e contou com a colaboração de Vanderlei para fechar o placar em 3 a 2 a favor da sua equipe.

O gol do título

Deyverson foi muito criticado pela torcida palmeirense. Quando entrava em campo sob o comando de Roger Machado, as vaias eram imediatas. Mesmo depois de melhorar com Felipão, seu comportamento errático dava calafrios: a qualquer momento, ele poderia dar um tilt e prejudicar o time. Mas, pouco a pouco, foi caindo nas graças da torcida, especialmente pelos gols importantes que começou a marcar. Ele garantiu pontos contra o Corinthians e o Grêmio e deixou seu nome no placar contra o São Paulo. Na partida que poderia dar o título ao Palmeiras, contra o América Mineiro, modificou o panorama da partida ao entrar no intervalo. E fez o mesmo contra o Vasco. Com o Flamengo derrotando o Cruzeiro, os paulistas precisavam da vitória para não arrastar a definição do campeonato à última rodada. Entrou no lugar de Borja, aos 16 minutos do segundo tempo, e completou o passe de Willian para marcar o gol do título brasileiro.