Quem viu o Corinthians buscar a vitória sobre o Cruzeiro na Arena Pantanal não esperava a campanha imponente que se desenrolaria nas rodadas restantes do Campeonato Brasileiro. Afinal, para alguns, o time que venceu nos minutos finais com gol de Romero em passe de Edílson era candidato até mesmo ao rebaixamento. Os corintianos mais realistas, naquele momento, esperavam uma campanha de meio de tabela, perante a perda iminente de Guerrero e a debandada que começava a se desenhar. E mesmo os otimistas já se contentavam com um lugarzinho no G-4. A taça não era impossível, mas parecia improvável.

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Passadas 34 rodadas desde aquele jogo, o Corinthians vislumbra fechar o Brasileirão com o melhor aproveitamento dos pontos corridos. O time de Tite é dono da melhor defesa e do melhor ataque, vitorioso em 23 partidas até o momento. E, ainda assim, atravessou alguns percalços pelo caminho. Mesmo quando os alvinegros começaram a embalar, o sucesso foi questionado. Provações respondidas em campo, diante da maneira como os corintianos arrasaram adversários e dispararam na liderança. Resultados que permitiram Tite “tomar sua adorada caipira e ficar mamado” durante o último fim de noite.

Uma vitória para ganhar força

Durante o começo de junho, o Corinthians seguia seu caminho errante na tabela. Foram apenas duas vitórias nas primeiras cinco rodadas, intercaladas ainda com a eliminação para o Guaraní na Libertadores. Naquele momento, nada parecia garantir o futuro do time. A recuperação depois de três jogos em jejum veio graças a uma vitória um tanto quanto feia contra o Joinville. Entretanto, a confiança foi mesmo recobrada dentro da Arena, contra o Internacional. Os colorados ainda estavam voltados ainda ao torneio continental naquele momento, mas permaneciam como um desafio e tanto, até pela maneira como o time de Diego Aguirre vinha embalado. E os visitantes até saíram em vantagem em Itaquera. Mas Jadson e Vágner Love buscaram a virada corintiana por 2 a 1, fundamental para dar créditos ao time, cheio de reservas e ameaçado pelo desmanche.

Quando o bom futebol reapareceu


No final de junho, a partir do triunfo contra o Figueirense, o Corinthians iniciou sua sequência de 17 partidas de invencibilidade, que muito se refletiu na tabela. Todavia, era difícil perceber o gás naquele início de arrancada. A equipe de Tite seguia oscilante e, quando vencia, o fazia de maneira apertada. Até o show no Maracanã. Em 12 de julho, os alvinegros encararam o Flamengo, destino de Guerrero e Emerson Sheik. Pareceram fazer questão de mostrar que não precisavam mais de seus antigos ídolos. Os corintianos colocaram os flamenguistas na roda de maneira impressionante, e os 3 a 0 no placar até ficaram baratos. Em um jogo de peso, o Corinthians sobrou e apresentou o futebol ofensivo que marcaria o restante da campanha. Mais importante, ainda provou a si mesmo como Guerrero, por mais que fosse protagonista, não era maior que o coletivo.

Candidato sério à taça


Na rodada seguinte, no entanto, o Corinthians teve a grande chance de mostrar o quão interessado estava no título. Receberia o Atlético Mineiro, então dono da liderança, com a chance de se igualar no topo da tabela. A vitória por 1 a 0 acabou sendo uma das mais duras que os corintianos tiveram em toda a campanha. Sem o lesionado Cássio, o protagonista em Itaquera acabou sendo o goleiro Walter, autor de defesas fundamentais para segurar a pressão atleticana. Já Malcom incorporou o papel de talismã. Poucas semanas após voltar o Mundial Sub-20, o garoto conquistava de vez sua posição no time titular, ao anotar o gol decisivo aos 42 do primeiro tempo.

Luciano, o herói na hora certa


A grave lesão que sofreu na Copa do Brasil tirou Luciano do restante da temporada. Ainda assim, a passagem do atacante pelo Corinthians no Brasileirão foi tão meteórica quanto fundamental. Por conta dos jogos Pan-Americanos, ele só pôde disputar seis partidas na campanha. Mas anotou cinco gols em suas últimas três aparições, justamente quando o Corinthians assumiu a liderança e não largou mais. Depois de fazer o tento no empate contra o São Paulo, Luciano marcou dois em jogo cheio de reviravoltas contra o Sport em Itaquera, no qual a defesa não esteve bem e os paulistas sofreram para vencer por 4 a 3. Naquele jogo, o gol de Jadson já aos 42 do segundo tempo valeu a primeira posição. Depois, Luciano ainda manteria o Corinthians no topo, balançando as redes duas vezes contra o Avaí na Ressacada. Sete pontos que valeram muito naquele momento.

A recuperação de Vágner Love


Sem Luciano, a responsabilidade recaía sobre os ombros de Vágner Love. O centroavante vinha sendo bastante criticado, especialmente por atravessar todo o primeiro turno com apenas três gols. De qualquer maneira, era ele quem tinha que assumir a responsabilidade de comandar o ataque a partir de então. E o veterano deu conta do recado, transformando sua reputação com a torcida. Ao invés das chances perdidas, Love passou a chamar atenção pela inteligência na movimentação e no apoio aos companheiros. Além disso, voltou a marcar seus gols. No duelo contra o Cruzeiro, logo na rodada seguinte à lesão de Luciano, o veterano balançou as redes duas vezes na vitória por 3 a 0 e encerrou a sequência de 53 dias em branco. Afastou as desconfianças e anotaria mais oito gols até o fim da campanha, incluindo o do título.

O desmanche que nunca aconteceu
Foto: Jorge Rodrigues/Trivela.
Foto: Jorge Rodrigues/Trivela.

O Corinthians não entrou em campo em 31 de julho, mas certamente o fim daquele dia mereceu a comemoração por parte dos torcedores. Durante boa parte do primeiro turno, os noticiários davam conta de um desmanche do elenco de Tite. Guerrero, Sheik, Petros e Fábio Santos já tinham saído nas primeiras rodadas, embora as especulações apontassem para perdas bem mais profundas. As dificuldades financeiras tornavam o futuro incerto, e os salários atrasados pesariam contra alguns protagonistas. Além disso, a janela aberta do futebol europeu também aumentava as chances de uma debandada. Assim, diversos nomes tiveram sua saída discutida – em longa lista que inclui Elias, Renato Augusto, Jadson, Gil, Felipe, Malcom, Luciano, Danilo e Ralf. No fim das contas, todos eles ficaram. E ajudaram a manter o elenco corintiano forte o suficiente para buscar o hexacampeonato.

Empates que fizeram o time parecer indestrutível


O Corinthians iniciou o mês de setembro com 13 partidas de invencibilidade no campeonato. Abria cada vez mais vantagem na liderança, mas veria sua tabela se complicar nas rodadas seguintes, em jogos nos quais encontrou dificuldades no primeiro turno. E correspondeu com empates de gosto especial contra Palmeiras e Grêmio. Depois dos revezes nos clássicos anteriores no ano, os corintianos se empolgaram com um empate eletrizante no Allianz Parque. Por três vezes os alviverdes estiveram em vantagem. Por três vezes os alvinegros buscaram a igualdade, com o gol derradeiro de Vágner Love aos 34 do segundo tempo. Já diante do Grêmio, em Itaquera, até podia se pedir uma vitória corintiana. Mas o empate acabou bastante bem-vindo, com Renato Augusto arrancando o 1 a 1 em duelo acirradíssimo, tratado como uma das finais do campeonato.

Tirando a espinha do Peixe da garganta


A invencibilidade do Corinthians caiu pouco depois, na visita ao Internacional no Beira-Rio. E o compromisso seguinte seria bastante duro, contra o embalado Santos, que havia passado por cima dos rivais na Copa do Brasil. Havia certo temor de que a equipe de Tite ainda pudesse perder fôlego na campanha, com boa parte do segundo turno ainda pela frente. Mas o time acreditou na vitória até o último instante, sob o forte calor na Arena. Conquistou o triunfo por 2 a 0 com dois gols depois dos 41 do segundo tempo, graças a Jadson – em partida ainda marcada também pela lambança da arbitragem ao expulsar David Braz no lugar de Zeca. Nada que, entretanto, anulasse os méritos corintianos na conquista do resultado.

O ápice de Renato Augusto


Ao lado de Jadson, Renato Augusto se colocou como uma das peças mais importantes na conquista do Corinthians. A influência do camisa 8, entretanto, vinha mais pela forma como ajudava a organizar o time do que por contribuições decisivas no placar, seja com gols ou assistências. Todavia, o carioca ressaltou sua importância na visita ao Atlético Paranaense na Arena da Baixada, fazendo seu jogo mais arrasador em toda a campanha. O meio-campista conduziu a goleada dos visitantes por 4 a 1, com um verdadeiro espetáculo no primeiro tempo. Balançou as redes duas vezes e deu a assistência para Vágner Love ampliar a diferença, deixando ainda mais evidente a excelente fase que atravessa.

A grande final


O clima não poderia ser outro na visita do Corinthians ao Estádio Independência. Afinal, por mais que o time estivesse solitário na liderança do campeonato, o Atlético Mineiro seguia agarrado às suas chances, e teria a oportunidade de iniciar uma reviravolta em seu caldeirão. Acabou sendo mesmo a partida que definiu a história do Brasileirão, a favor dos paulistas. Os 45 minutos finais em Belo Horizonte foram os melhores do time de Tite em toda a campanha. Os corintianos atropelaram o Galo de maneira impressionante, com um futebol vistoso, ofensivo e de muito toque de bola. As jogadas trabalhadas dos gols, sobretudo a pintura do terceiro, resumem bem o ápice alvinegro na campanha. A partir de então, só um desastre tiraria a taça do Parque São Jorge. E o empate contra o Vasco nesta quinta, consagrador, acabou sendo mera consequência de tudo aquilo que já se tinha construído.