Dos milhões de jogos de futebol que já aconteceram, apenas um punhado ganha a honra de ser batizado. São histórias tão espetaculares que merecem um nome, um combinado de duas ou três palavras que são suficientes para que o interlocutor saiba imediatamente do que se está falando. Frequentemente, milagre é uma dessas palavras porque, se tem uma coisa que gostamos no futebol, é das trajetórias improváveis, das grandes viradas, do heroísmo de superar uma condição adversa.

O Milagre de Istambul são três palavras que dizem muita coisa. Dizem que o Liverpool, um dos maiores clubes do mundo e um dos maiores campeões europeus, estava de volta à final da Champions League depois de 30 anos muito difíceis, em que passou por duas tragédias – uma de responsabilidade dos seus torcedores, outra não –  perdeu o seu rumo, se viu superado por rivais e sem um caminho claro para ser novamente o que foi durante duas décadas de domínio absoluto na Inglaterra.

Dizem que um lado tinha Cafu e Maldini e o outro tinha Steve Finnan e Djimi Traoré. Um tinha Dida, outro tinha Dudek. Um tinha Shevchenko, outro tinha Milan Baros. Dizem que, nos primeiros 45 minutos, toda essa superioridade do Milan se traduziu em um placar parcial de 3 a 0 que modificou as ambições do Liverpool. O quinto título europeu parecia impossível. O essencial era tentar minimizar a vergonha e tentar terminar o jogo de cabeça erguida.

Dizem que o Liverpool marcou três vezes em sete minutos. Que Steven Gerrard mostrou por que usava a braçadeira de capitão ao inspirar seus companheiros e seus súditos a acreditarem no impossível. Dizem que Dudek conseguiu ajuda dos céus para levar a final aos pênaltis e depois dos livros de história para se transformar em uma lenda.

A história da partida é conhecida. Fizemos um relato minucioso com os eventos e as análises na seção Assistimos na Quarentena, quando o isolamento social começou no Brasil. Aqui, vamos aprofundar um pouco mais as histórias que compõem o mito daquela noite de 25 de maio, 15 anos atrás, inclusive com um pouco da  campanha que levou o Liverpool a Istambul, palco de um jogo eterno que provou que milagre não é apenas uma palavra jogada aqui ou ali pelo mundo do futebol. Milagres existem. 

Quem é Neil Mellor?

Neil Mellor comemora um dos seus poucos gols pelo Liverpool

Centroavante físico, forte, nascido em Sheffield, em 1982, Neil Mellor foi criado nas categorias de base do Liverpool e teve uma carreira prejudicada por muitas lesões. O momento de mais estabilidade foi entre 2007 e 2011, com mais de 30 partidas por temporada na Championship, pelo Preston North End, e na League One, com o Sheffield Wednesday. Pendurou as chuteiras precocemente, aos 30 anos. Atualmente, é repórter da Sky Sports e da LFCTV porque, apesar de não ter sido um jogador de futebol de grande sucesso, não há torcedor do Liverpool que não se lembre dos dez dias que ele teve em 2004.

Começou no final de novembro, contra o Arsenal, pela Premier League. O Liverpool apenas empatava em Anfield, aos 47 minutos do segundo tempo. A bola longa, afastada pela defesa, pingou em sua direção. Como se fosse Steven Gerrard (e eles até se parecem, fisicamente), em diagonal, ele pensou apenas em chutar. Firme míssil que morreu no canto direito de Jens Lehmann e valeu os três pontos, no que já era a grande noite da sua carreira. O primeiro dos dois gols que faria pela Premier League com a camisa do Liverpool.

Dez dias depois, o time de Rafa Benítez estava em apuros. Ele havia chegado do Valencia, no qual ganhara duas vezes o Campeonato Espanhol e uma Copa da Uefa. Auge da sua reputação. Não havia, porém, muito material humano com o qual trabalhar. Steven Gerrard era de primeiro nível. Xabi Alonso ainda estava muito verde. Cissé havia chegado como uma boa promessa, mas havia se machucado. Havia um bom contingente de experiência em nomes como Luis García e Dietmar Hamman. A dupla de zaga com Carragher e Hyypia fazia um bom serviço.

Isso se manifestou na campanha irregular da fase de grupos da Champions League. Começou vencendo o Monaco, finalista da edição anterior, por 2 a 0, e perdeu fora de casa para o Olympiacos.  Contra o Deportivo La Coruña, semifinalista em 2003/04, ficou no 0 a 0 em Anfield e ganhou na Espanha, por 1 a 0. A derrota para o Monaco na quinta rodada, porém, embolou o grupo. Como havia perdido na Grécia, o Liverpool precisava vencer o Olympiacos por dois gols de diferença para passar em segundo lugar, no confronto direto, e Rivaldo abriu o placar, aos 26 minutos do segundo tempo.

Sinama-Pongolle deu esperança ao empatar no começo da etapa final, mas a igualdade permaneceu até os 36 minutos. O Liverpool precisava de dois gols para não ser eliminado, e Mellor fez o primeiro. Como centroavante oportunista que não perdoa bola pingando dentro da pequena área, pegou o rebote do goleiro e colocou os Reds à frente no placar. Em seguida, Steven Gerrard deu mais um passo rumo à imortalidade com um perfeito chute de fora da área. Liverpool 3 x 1 e nas oitavas de final.

“O pesadelo se realizou” 

Luis Garcia marca contra o Chelsea.

Luis García teve uma boa carreira. Defendeu Barcelona e Atlético de Madrid, além do Liverpool, e fez seus jogos pela seleção espanhola. Quando é parado na rua, no entanto, a pergunta que recebe é sempre a mesma: foi ou não foi gol contra o Chelsea? 

O Liverpool cresceu no mata-mata e não teve vida tão fácil. Passou por um bom time do Bayer Leverkusen, com nomes como Juan, Roque Júnior e Berbatov, vencendo duas vezes por 3 a 1. Uma boa apresentação em Anfield foi o suficiente para despachar a Juventus. Hyypia e Luis García fizeram 2 a 0 antes de Cannavaro descontar, com um valioso gol fora de casa. Em Turim, porém, o 0 a 0 prevaleceu e marcou um confronto inglês para as semifinais.

Não foi surpreendente que o confronto entre Liverpool e Chelsea tenha sido travado, pelas características dos dois times. Em Stamford Bridge, 0 a 0. No jogo de volta, logo aos quatro minutos, Gerrard deu um belo passe para Baros. Petr Cech saiu do gol e dividiu com o centroavante. A bola sobrou na entrada da pequena área. Luis García não conseguiu pegar em cheio, e ela foi se arrastando em direção ao gol. Em cima da linha, William Gallas conseguiu o corte. Não parece ter sido gol, mas duas pessoas discordam. A primeira delas, a mais relevante, foi o árbitro Lubos Michel. A segunda, o próprio García que saiu comemorando.

“Eu estava em Omã para um jogo entre ex-jogadores do Barcelona e do Real Madrid. Quando estava em Muscat, a capital, fomos para um shopping e vi um homem com a camisa vermelha do Liverpool. Ele disse: ‘Posso tirar uma foto?’. Eu disse: ‘Claro’. E ele, então, perguntou: ‘e aí, foi gol ou não?’”, contou García, em entrevista ao Guardian, em 2014. “Essa é a pergunta, não é? Eu deveria ganhar um centavo todas as vezes que me perguntam isso. Para mim, foi gol, e o árbitro deu. Sendo honesto, eu lembro de ter chutado a bola e quando eu a vi pulando, eu me virei e comemorei. Comecei a duvidar por um momento porque por dois segundos nenhum dos meus companheiros estava perto. Mas me virei e vi o árbitro e o bandeirinha correndo para o centro”.

“Podemos dizer ‘se acontecesse isso’ ou ‘se acontecesse aquilo’, mas o gol foi dado. Se não tivesse sido dado, teria sido pênalti e cartão vermelho (para Cech), então não sabemos foi melhor para nós ou não”, completou.

A torcida do Chelsea não perdoou. O Liverpool Echo encontrou um fórum – em 2005, pré-Twitter, os fóruns estavam na moda – em que alguns torcedores comentaram o jogo em tempo real. Torciam por Hernán Crespo, jogador dos Blues, emprestado ao Milan. “Pagar metade do salário dele por uma temporada valeu a pena por este momento!”, comemorou um dos fãs quando o argentino fez 2 a 0 na decisão. “3 a 0 no intervalo. Eles podem acrescentar isso àquela incrível história”, brincou outro. “Prova cabal de que o time errado foi para a final”, arrematou um terceiro.

O clima no fórum, porém, foi mudando pouco a pouco.  “Gerrard de cabeça, 3 a 1”. “Meu Deus,  Smicer, 3 a 2”. “Pênalti para o Liverpool. O que está acontecendo?”. “Não acredito nisso…” .  “Se o Liverpool vencer, vou evitar jornais e TVs por três meses”.

Apesar do empate do Liverpool, eles mantiveram confiança no Milan e torceram por uma tripleta de Crespo, substituído por Tomasson, a cinco minutos do fim do tempo regulamentar. “O Milan está começando a atacar a jugular novamente”, comentou um torcedor, já na prorrogação, pouco antes da defesa de dupla de Dudek contra Shevchenko. “Meu Deus,  em cima da linha de novo”. “Dupla defesa de Dudek. Agora eu consigo ver o Liverpool ganhando isto nos pênaltis”.

Depois do erro de Shevchenko, houve irritação, renovadas promessas de evitar a imprensa esportiva, elogios ao segundo tempo do Liverpool, reclamações contra a arbitragem e o comentário definitivo: “O pesadelo se realizou”.

O Milan era um grande time, mas…

Carlo Ancelotti, agora técnico do Everton (Foto: Getty Images)

O Milan era favorito ao título da Champions League antes mesmo de Maldini marcar o gol mais rápido da história das finais desde Enrique Mateos, em 1959, pelo Real Madrid contra o Stade Reims. Tinha estrelas em todas as posições. De Dida a Nesta e Stam, de Cafu a Maldini, de Pirlo e Gattuso a Seedorf e Kaká, de Crespo a Shevchenko. Um dos grandes times da sua geração que, porém, tinha propensão aos famosos apagões.

Na temporada anterior havia sido eliminado dessa maneira, embora em um intervalo maior de tempo. Fez 4 a 1 no Deportivo La Coruña em San Siro, pelo jogo de ida das quartas de final, e levou 4 a 0 na volta, e você nunca vai adivinhar qual foi o placar da última partida pela Serie A antes da final de Istambul.

Na penúltima rodada, o Milan estava a cinco pontos da Juventus. Não podia mais tropeçar. Mais de 60 mil pessoas foram a San Siro tentar garantir que isso não acontecesse contra o Palermo de Luca Toni e Andrea Barzagli. E falharam. Serginho abriu o placar com um gol chorado, mas Costacurta, ao tentar recuar de cabeça para Abbiati, empatou. Um lindo passe de calcanhar de Crespo permitiu que Serginho fizesse o seu segundo na partida, e, aos 32 minutos do primeiro tempo, Tomasson fez 3 a 1 para o Milan.

Aos 32 do segundo, Toni descontou de pênalti e, dois minutos depois, Simone Barone recolheu uma bola que a defesa do Milan se recusava a afastar de dentro da área, deu o corte e empatou. Placar final: 3 a 3.

E como a Juventus apenas empatou naquela rodada, era a chance de levar a definição do scudetto à última partida.

Benítez é obrigado a mudar de ideia

Benítez

Perdendo por 2 a 0, Rafa Benítez pensava no que diria para seus jogadores durante o intervalo quando Hernán Crespo fez seu segundo gol na partida e ampliou a vantagem do Milan. Não mudou muito o discurso do espanhol, cuja duração teve que ser adequada a um inglês que não aguentaria 15 minutos: acreditem, tenham confiança, ainda dá, essas coisas que talvez nem ele realmente achava que era verdade. Seu negócio também nunca foi a motivação. Era a tática. Junto com as palavras, preparava uma substituição, mas foi obrigado a mudar de ideia.

Benítez queria ganhar controle do meio-campo e colocar o time para frente. Queria trocar o lateral esquerdo Djimi Traoré, autor da falta do primeiro gol do Milan e frequentemente criticado pela torcida, por Dietmar Hamman e armar três zagueiros, com Vladimir Smicer em uma ala, Riise na outra, Hamman ao lado de Xabi Alonso e Gerrard avançado. Traoré estava no chuveiro quando os planos se modificaram. O fisioterapeuta avisou Benítez que Steve Finnan, o lateral direito, não aguentaria 20 minutos no segundo tempo. Como a primeira substituição havia sido queimada precocemente com a lesão de Harry Kewell, Benítez não quis arriscar. Manteve o conceito tático, mas tirou Finnan em vez de Traoré.

“Eu comecei a aquecer”, contou Hamman, ao Liverpool Echo. “E fiquei surpreso de ver Djimi de volta. Rafa havia tomado a decisão de mandar Djimi ao chuveiro. Acho que isso foi muito importante. E também tenho que dizer, a mentalidade e a força de Djimi – porque ele sempre apanhou muito ao longo dos anos – de ser informado, perdendo por 3 a 0, que sua noite havia terminado, ser substituído, ir para o chuveiro e então alguém chega e diz que ele tem que continuar mostram que ele era um cara durão mentalmente”.

“Eu estava fora”, continuou Traoré. “E Rafa descobriu que Steve não poderia continuar. Como ele já havia gastado uma substituição com Kewell, não poderia gastar todas. Ele tomou a decisão rapidamente. Disse: ‘Djimi, você fica. Finnan está fora’. E Hamman entrou para garantir que ficássemos equilibrados no meio-campo. Ele tinha que tomar conta de Kaká, que nos havia machucado muito com muita liberdade”.

A simbiose entre Gerrard e a torcida

Gerrard, do Liverpool (Foto: AP)

Cissé contou uma história. Que durante o intervalo, Gerrard pediu que a comissão técnica saísse para ficar sozinho com os companheiros. Teria dito que o Liverpool era seu clube, que não queria ser motivo de piada, que se os jogadores o respeitassem como capitão dariam a volta por cima e retornariam à partida. Carragher, porém, não se lembra desse discurso. Pelo Twitter, questionou a memória do ex-companheiro. “O mito cresce”, escreveu, e depois respondeu diretamente se a história era verdadeira: “Eu acho que não, talvez eu tenha saído do vestiário junto com a comissão técnica”.

Há, porém, mais um relato de palavras fortes de Gerrard aos jogadores quando o Liverpool voltou ao gramado e ouviu uma das maiores rendições estrangeiras de You’ll Never Walk Alone. A torcida do Liverpool dominou as arquibancadas do estádio Atatürk e, se é verdade que muitos decidiram voltar mais cedo para o ônibus e outros, na era pré-smartphone, perguntavam-se qual havia sido a pior derrota da história das finais europeias, muitos também tentaram apoiar o time com o icônico e simbólico canto que adorna os portões de Anfield.

“Estávamos de volta ao gramado e outro momento mágico começa porque estávamos perdendo por 3 a 0 e os torcedores do Liverpool começaram a cantar You’ll Never Walk Alone”, disse Dudek, ao Echo. “Foi incrível. Stevie reuniu todo mundo no círculo central e disse: ‘Estão ouvindo isso? Lembrem-se disso! Temos que devolver algo a eles. Eles viajaram muitos quilômetros para chegar aqui. Vamos lá!.”

Logo no começo da etapa, Gerrard perseguiu uma bola perdida na ponta esquerda, mais uma maneira de demonstrar por exemplo que seus companheiros não poderiam desistir, e, aos nove minutos, descontou com uma cabeçada precisa após cruzamento de Riise. Comemorou balançando os braços, pedindo que a torcida aumentasse ainda o volume.

“Eu fiz gols mais bonitos e dei chutes mais vistosos, mas sem dúvida aquele foi o momento mais importante da minha carreira”, disse Gerrard. “Ele nos deu um pouco de respeito e confiança, mas eu ainda não imaginei que daria início a uma tremenda volta por cima. Eu chequei meu primeiro movimento porque o primeiro cruzamento de Riise foi bloqueado. Eu apostei que a bola voltaria para a área”.

“Conseguir uma cabeçada entre Jaap Stam e Alessandro Nesta, dois dos melhores zagueiros do mundo naquele momento, foi especial. A cabeçada foi instintiva. Eu tentei buscar mais precisão do que força, porque o cruzamento foi muito bom”, continuou. “Balancei as mãos em direção aos torcedores para mostrar que os jogadores estavam com eles e que também não havíamos desistido a inda. Eles haviam vindo a Istambul em milhares e pelo menos mereciam que continuássemos tentando. Eles responderam o meu gesto criando um barulho ainda maior”.

O sentimento de ter chegado tão longe para perder daquela maneira e o medo de ser humilhado em uma final de Champions League, a primeira do Liverpool em 30 anos, uma mancha em uma história tão rica, estavam disseminados na torcida e, se isso é verdade, começava pela camisa 8.

Quem bate o pênalti?

Pouco depois do gol de Gerrard, Smicer acertou um chute de muito longe, e o Liverpool voltou de vez à partida. O apagão do Milan seguiu com o belo passe de Carragher para Baros que, de primeira, deixou Gerrard cara a cara com Dida. O toque de Gattuso ainda gera debate se foi suficiente ou não para derrubar o capitão vermelho. O árbitro espanhol Manuel González considerou que sim e, de repente, havia uma chance de ouro de empatar um jogo que parecia perdido.

Mas quem tentaria convertê-la? A lógica era dar a bola para Gerrard. Ele era o líder, o capitão, o melhor jogador do time, havia inspirado a reviravolta e sofrido o pênalti, e vinha cobrando ao longo da temporada. No entanto, perdera no empate por 2 a 2 contra o Tottenham, pela Premier League, aproximadamente um mês antes. “Eu queria ter batido”, admitiu. “E durante boa parte da temporada, eu era o cobrador oficial. Mas Rafa tinha uma coisa de nomear um batedor diferente em jogos diferentes. Ele nomeou Xabi antes da final e, embora eu tenha ficado pessoalmente incomodado, sabia que Xabi era letal”.

Xabi Alonso realmente sempre pegou muito bem na bola. Era, porém, um garoto de ainda 23 anos, com um ano de clube, prestes a bater o pênalti mais importante da história do Liverpool desde a final contra a Roma em 1984. E tinha um outro detalhe. “Sério, eu nunca tinha batido um pênalti antes”, contou à revista Four Four Two, em 2017. “Eu vejo as fotos de quando estava prestes a bater e tudo que vejo é meu rosto destruído de tensão e responsabilidade”.

Imagina como ficou o rosto dele quando Dida defendeu? “Ok, Dida defendeu sua primeira tentativa”, continuou Gerrard. “Mas ele encheu o pé do rebote no teto da rede e nossa reviravolta estava completa”. Alonso acredita, com muitos motivos para tanto, que, se não tivesse marcado no rebote, sua história pelo Liverpool seria muito diferente. “Foi muito estressante. Rafa me disse antes da final que eu seria o cobrador se tivesse um pênalti. Gerrard havia perdido contra os Spurs. O que eu disse? Nada. Eu tinha que bater”.

A confiança de Benítez nas jovens habilidades de chutar pênaltis de Alonso sumiu com o erro. O volante espanhol nem foi escolhido entre os cinco batedores do Liverpool na disputa derradeira. Hamman cobrou o primeiro, seguido por Cissé, Riise e Smicer. Gerrard, segundo Hamman, bateria o quinto, se fosse necessário, e Benítez não deixou Luis García cobrar.

O que foi provavelmente uma boa ideia porque o ex-jogador contou que provavelmente daria uma cavadinha. Contra Dida, o que todos sabem, ninguém mais do que Alexandre Pato, que não era uma boa ideia.

As câimbras de Carragher

Carragher finalmente consegui aparecer na foto (Foto: AP)

Provavelmente não há momento pior para um jogador de futebol ter um ataque de câimbras do que nos momentos decisivos de uma final. As dores de Carragher começaram a aparecer na prorrogação, quando Rafa Benítez não tinha mais substituições para fazer. E, mesmo que ainda as tivesse, teria que retirar o zagueiro de campo à força. “Qualquer jogador lhe dirá que a câimbra é a pior coisa que você pode ter em um jogo, mas eu tinha que superar e seguir em frente”, disse, ao Echo. “Eu nunca sairia de um jogo daquele tamanho. Tinha uma Copa Europeia em jogo”.

Mesmo com dores, Carragher conseguiu dois cortes cruciais durante o tempo extra, um deles se atirando no chão assim que havia retornado ao gramado do qual saíra brevemente por causa das dores. Teve uma atuação gigantesca, marcou seu nome na história do Liverpool e depois descobriu que há, sim, um momento pior para um jogador ter um ataque de câimbras do que nos momentos decisivos de uma final.

“Veja a foto mais memorável de Steven Gerrard levantando o troféu – esta aqui. Eu estaria em pé, atrás dos papéis vermelhos do pódio, à direita dele, mas, no momento em que ele levantou o troféu, eu tive um ataque de câimbras e cai de joelhos”, disse. “Quem vê a foto agora vê o lateral direito espanhol Josemi, que nem entrou no jogo. Estou escondido, gritando de agonia”, relatou ao Telegraph.

A mão de Deus

Um dos legados de Diego Maradona ao futebol mundial é que sempre que as mãos fazem algo extraordinário, geralmente mais extraordinário do que um gol irregular, o termo “A mão de Deus” é resgatado. Parece apropriado para o que aconteceu no segundo tempo da prorrogação porque a física ainda não inventou leis que explicam como Dudek conseguiu defender o rebote de Shevchenko, a coisa de quatro ou cinco minutos do fim.

Dudek não era um goleiro brilhante. Havia passado o jogo inteiro inseguro, a ponto de os comentaristas ingleses pontuarem, talvez para tranquilizar a torcida do Liverpool, que a chegada de Pepe Reina do Villarreal estava sendo articulada. Mas, depois de Serginho cruzar quase da intermediária, ele conseguiu espalmar a cabeçada de Shevchenko com as duas mãos. Foi para baixo, porém, e a bola ficou viva na pequena área.

Rápido, em seus melhores dias, Shevchenko viu a bola pingar. Não havia dois metros, talvez sequer nem um, entre ela e a linha. Entre ela e o título europeu. Entre ela e a glória. Era o momento com o qual todo atacante sonha. Bastava encher o pé, estufar as redes e se consagrar o herói do título europeu do Milan. Tudo isso ter passado na cabeça de Shevchenko naquele momento pode explicar por que ele simplesmente chutou para a frente, em vez de tentar acertar todo o espaço vazio à esquerda de Dudek. De qualquer maneira, era uma finalização que entraria em 99,9% das ocasiões.

Mas aí tem aquele 0,01%. “Pela primeira vez na vida, eu estava orgulhoso de mim mesmo”, contou Dudek, ao site do Liverpool. “Foi um momento do qual nunca esquecerei. Algo que faz com que as pessoas se lembrem de mim.  Eles chamam a final de 2005 de Milagre de Istambul. Bom, esse foi o meu milagre. A defesa da minha carreira. Da minha vida”.

“Mas eu não estava pensando no momento. Foi tudo um borrão. Antes que eu percebesse, um dos jogadores do Milan – Serginho – tinha a bola perto da linha lateral no nosso lado direito. Ele tinha muito espaço. Eu tinha certeza ele cruzaria perfeitamente para dentro da área. Há apenas frações de segundos para entender o que está acontecendo nesses momentos, para ficar ciente de quem está ao seu redor”.

“Eu mal consegui ver onde meus defensores estavam. Jamie Carragher estava na direção da segunda trave. Djimi Traoré estava na segunda trave e Sami Hyypia no meio. Então, um jogador do Milan surgiu entre eles. É tudo isso que o goleiro consegue ver nessas situações. A bola estava no ar. Sami era o mais próximo de mim e eu sabia que passaria por ele, então percebi que alguém do Milan teria uma ótima oportunidade de cabecear”.

“Eu estava concentrado e preparado. Eu não sabia que o jogador do. Milan para o qual a bola estava se dirigindo era Shevchenko. Ele era apenas um borrão branco na minha visão, mas, quando a bola passou por Sami, ele teve um cabeceio livre para o gol”.

“Ele cabeceou bem. Foi uma cabeçada bem forte. Ele a direcionou para baixo, um pouco para a minha direita. Eu pulei para bloquear, e a bola pingou a partir de mim, alguns metros à frente do gol. Agora, eu torcia para meu companheiro ajudar porque eu não conseguiria levantar rápido o bastante para mergulhar na bola ou afastá-la. Tudo que eu poderia fazer era tentar me levantar e ficar em frente do gol. Para dar ao jogador do Milan que pegaria o rebote um alvo um pouco menor”.

“Estava de joelhos, acho que uma das minhas pernas estava até atrás da linha. As chances não eram boas. Naquele milésimo de segundo, com o jogador do Milan quase em cima de mim, eu instintivamente levantei as mãos. Foi puro impulso. Eu quase gritei: ‘Estou aqui! Mire em mim!’. Eu vi que era Shevchenko que corria para a bola. Ela caiu perfeitamente para ele. Ele bateu forte, o mais forte que pode, como se estivesse canalizando toda a sua raiva”.

“O chute dele pegou na minha mão. – a mão de Deus, como brinquei depois do jogo. A bola poderia facilmente ter quebrado meus dedos e entrado, mas isso não aconteceu. Ela voou para cima. Levantei rapidamente para me preparar caso a bola voltasse dos céus de Istambul, mas ela caiu atrás da rede”.

“John Arne Riise levantou os braços como se eu tivesse feito um gol. Eu sentia que havia feito. Eu agora via Tomasson à minha frente. Eu pensei que a cabeçada provavelmente havia sido dele porque Shevchenko pegou o rebote. Parecia impossível para mim, naquele momento, que as duas chances tivessem caído com Shevchenko e ele não havia marcado nenhuma. Depois, eu vi na televisão e percebi o quão dinâmico havia sido seu pulo. Ele colocou tanto naquela cabeçada que ele naturalmente de alguns passos à frente quando pousou”.

“Eu olhei o placar e notei o tempo. Minuto 117 – o 27º minuto da prorrogação. Se a bola tivesse batido na rede, nosso sonho estaria acabado. ’É isso que você queria’, pensei comigo, ‘fazer uma contribuição tão grande nos minutos finais’.”

As pernas de espaguete

Há muitas vantagens em jogadores formados nas categorias de base. A financeira é a mais óbvia. O custo é diluído ao longo dos anos, não há taxa de transferência, os primeiros contratos são geralmente menores. Às vezes calha de o atleta também ser torcedor do clube, o que gera aquele extra de vontade e entrega e reforça a identificação com as arquibancadas. Se o rapaz for interessado e esperto o bastante, ele também conhece a história, ouviu do pai ou da mãe ou da avó ou do avô, e nunca se sabe quando essas informações podem ser úteis.

Em 1984, o Liverpool foi ao estádio Olímpico enfrentar a Roma. Uma final europeia fora de casa. O jogo terminou 1 a 1 e foi para os pênaltis. O então goleiro vermelho, o lendário zimbabuano Bruce Grobbelaar, tentou desestabilizar os batedores italianos se sacudindo em cima da linha, particularmente com as pernas. Funcionou contra Francesco Graziani, responsável pelo segundo erro da Roma em quatro pênaltis. Alan Kennedy converteu o quinto do Liverpool e tornou o clube tetracampeão europeu.

Quando a prorrogação acabou em Istambul, Carragher tinha essa história na ponta da língua. “Eu obviamente conhecia a história do Liverpool e apenas lembrei Jerzy do que Grobbelaar havia feito em 1984. Eu disse a ele: ‘Jerzy, você tem que fazer tudo que puder para desconcentrar os batedores’. Eu mencionei Grobbelaar para ele”, contou, ao Liverpool Echo, e Dudek se mostrou um bom aluno.

Balançou os braços e pulou de um lado para o outro antes de assistir a Serginho isolar a primeira cobrança do Milan. Depois, continuou se movimentando freneticamente para acrescentar pressão a um muito vaiado Andrea Pirlou. A batida não foi firme, e Dudek, tão adiantado que estava quase na Grécia, barrou o chute do meia italiano. Hamman e Cissé fizeram 2 a 0 para o Liverpool.

A frieza nórdica de Tomasson foi o antídoto às peripécias de Dudek. Dida defendeu o chute de Riise, e Dudek imitou as pernas de espaguete de Grobbelaar à risca contra Kaká, que não deu a mínima para elas e converteu para o Milan. Smicer fez 3 a 2 para os Reds. O título seria do Liverpool se Shevchenko errasse ou Gerrard acertasse.

A noite de Istambul não foi divertida para Shevchenko.

E a regra teve que mudar

A disparidade entre os times foi um dos elementos que tornou a final de Istambul tão especial, e uma forte evidência de que o Liverpool não estava no nível dos melhores times do mundo naquela temporada é que terminou em quinto lugar na Premier League, a três pontos do quarto colocado, e a 37 do campeão Chelsea. Isso causou um problema para a Uefa porque, fora da zona de classificação à Champions League, ele não teria a chance de defender seu título europeu.

A situação não era inédita. O Real Madrid, campeão em 2000, havia terminado em quinto lugar no Campeonato Espanhol, sem vaga para a edição seguinte. A Uefa, naquela ocasião, decidiu rebaixar o Zaragoza, quarto colocado em La Liga, para a Copa da Uefa. Como o quarto na Inglaterra em 2004/05 foi o Everton, tomar a mesma decisão  eclodiria uma guerra civil em Merseyside. Então, prudente, a entidade decidiu seguir outro caminho e incluir o Liverpool na primeira fase preliminar.

A decisão foi unânime, segundo o executivo-chefe da Uefa na época, Lars Olsson. “Não houve discussão, na verdade, se eles deveriam entrar na competição porque todo mundo achava que eles deveriam ter a oportunidade (de defender o título), mas teriam que começar do começo”, disse, segundo a BBC. Não foi unanimidade no mundo inteiro porque agora o pote de direitos de TV da Inglaterra teria que ser dividido em cinco, se todos chegassem à fase de grupos. O Everton, porém, perdeu para o Villarreal nos playoffs. O Liverpool, por sua vez, começou a temporada 2005/06 em julho e enfrentou o galês New Saints, o lituano Kaunas e o búlgaro CSKA Sofia antes de chegar ao grupo.

A Uefa aproveitou a chance para ajustar de vez o seu regulamento e passar a definitivamente garantir uma das vagas da federação associada ao campeão para a defesa do título, caso o clube em questão não terminasse na zona de classificação. “O Comitê Executivo decidiu alterar as regras da Champions League, o que significa que, no futuro, o campeão sempre terá a chance de defender seu título, independentemente de quantas vagas cada associação tiver”, disse a entidade, em um comunicado.