A Série A que me desculpe, mas a Série B possui um charme especial. Os holofotes podem ser bem menores à Segundona. Ainda assim, nada tira o brilho próprio das histórias de redenção rumo à elite nacional. A cada campanha, são quatro “campeões”. E, sem ter qualquer um dos chamados “12 grandes” pelo caminho em 2019, as chances de trajetórias marcantes são enormes. Há clubes espalhados pelo interior, há clubes que se reconstroem, há clubes que esperam não se destruir. Só isso já seria um prato cheio para acompanhar as 38 rodadas, mas o equilíbrio e a indefinição que imperam na segunda divisão a tornam mais atrativa. Abaixo, uma lista de destaques a ficar de olho ao longo do torneio:

Os três bastiões do Nordeste

Historicamente, a Série B possui uma representatividade grande aos clubes do Nordeste. Nada menos que oito clubes da região possuem 18 ou mais aparições na segunda divisão nacional. Todavia, desta vez os nordestinos não contarão com muitos candidatos ao acesso. Apenas três equipes estão no certame, o número mais baixo desde que a competição adotou o sistema de pontos corridos. Se por um lado há sinais positivos, com os acessos recentes de Fortaleza e CSA à primeira divisão, a queda frequente para os níveis inferiores diminui o peso do Nordeste – e basta olhar para a Série C, com o Grupo A composto apenas por nordestinos. CRB, um dos participantes desta vez, é o segundo time que mais vezes esteve na Série B, figurando em 29 edições. Tentará emular os rivais azulinos, embora a última campanha não tenha sido nada animadora. Ganha a companhia de Sport e Vitória, duas camisas pesadas que sofreram o descenso na Série A. Do trio, os pernambucanos se postulam como principais candidatos ao acesso. O potencial financeiro acaba sendo um sustentáculo ao Leão da Ilha, se comparado aos demais clubes da divisão. Vale mencionar ainda que, com a queda do Paysandu, o Norte não terá nenhuma equipe desta vez.

Como Coritiba e Vitória lidarão com a crise?

Pelo peso histórico e mesmo pelas possibilidades financeiras, Coritiba e Vitória normalmente se colocariam entre os candidatos automáticos ao acesso. Não é bem assim. Ambos os clubes lidam com seus entraves internos e o reflexo disso apareceu nos estaduais. O Coxa ficou de fora da decisão do Paranaense e vem de uma campanha fraca na Série B, ocupando apenas o décimo lugar. Precisa de mais para fazer sua torcida sonhar, com um elenco modesto. O Vitória, rebaixado na Série A durante o último ano, também não correspondeu no Baiano e sequer alcançou a finalíssima. As dificuldades financeiras impactam no plantel. Em comum, as duas agremiações ainda atravessaram turbulências políticas nos últimos meses, o que explica a instabilidade. Resta saber o quanto isso afetará a Série B, sem tantas expectativas.

A novidade em Bragança Paulista

Um dos clubes que mais provocará curiosidade nesta Série B é o Bragantino. A venda do clube à Red Bull traz perspectivas totalmente diferentes à equipe. Os Touros Vermelhos tentam pegar um atalho rumo à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, depois de penarem na Série D. Em compensação, levam a Bragança um time que vem de ótima campanha no Paulistão e, claro, um aporte que nenhuma outra agremiação da segundona vê em sua conta bancária. O trabalho de Antônio Carlos Zago é interessante e o elenco possui jogadores tarimbados. Resta ver como será a relação com este “novo clube” que, apesar da história do Braga, cai de paraquedas a uma disputa de peso. De qualquer forma, se não acontecer neste ano, os investidores continuarão buscando o acesso em breve.

O Dérbi Campineiro e os demais clássicos

O futebol de Campinas se revigora. A ascensão do Guarani, no Campeonato Paulista e no Brasileirão, reavivou o clássico adormecido desde 2013. A Série B de 2018 já havia interrompido o hiato de cinco anos, com duas partidas que representaram a tensão da rivalidade, mas também a infeliz violência que o circunda. Serão mais confrontos nos próximos meses, além da natural corrida para saber quem terminará à frente da tabela. Até pela estabilidade recente, a Macaca se mostra mais preparada ao acesso, vice-campeã do interior no Paulistão. Enquanto isso, derrotado em dois dos últimos três clássicos, o Bugre tenta interromper o incômodo jejum diante dos rivais que dura desde 2012. Além disso, serão outros dois duelos citadinos na Segundona, embora não representem a principal rivalidade local: Coritiba x Paraná e Atlético Goianiense x Vila Nova.

O peso do interior

A Série B, naturalmente, costuma ser bem mais diversa que a primeira divisão. Enquanto os grandes clubes se concentram nas capitais, a Segundona desbrava outros cantos do território nacional, com a representatividade do interior. Serão dez equipes de fora das capitais – incluindo também o Oeste de Itápolis, que manda suas partidas na Arena Barueri, na Grande São Paulo. Este reflexo indica principalmente um trabalho paulatino dos clubes do interior, controlando suas finanças e colhendo os frutos nas outras divisões de acesso. Equipes como Brasil de Pelotas, Londrina, Guarani e São Bento vieram da Série C não faz muito tempo, firmando uma sequência na divisão de cima. Também é um sinal da força econômica do Sul e do Sudeste, até pelo formato da Terceirona, em que os grupos regionalizados acabam sendo determinantes à promoção. São seis paulistas, maior número do estado desde 2011.

O embalo de quem vem da Série C

A Série C oferece um desafio imenso aos seus participantes. Além de exigir a classificação aos mata-matas, providencia os confrontos mais exigentes do futebol brasileiro, nas quartas de final que já valem o acesso. Não à toa, escalar divisões se tornou comum, em planejamento contínuo que beneficiou Fortaleza e CSA no último ano. Os novatos desta vez desbravam novas fronteiras. O “Red Bull Bragantino”, citado acima, representa um caso à parte. O estreante Cuiabá cresce de maneira sólida há duas décadas e, após dominar sua região, ganha mais relevância no cenário nacional. Não parece um ponto fora da curva. Já no interior, Operário Ferroviário e Botafogo de Ribeirão Preto redescobrem a grandeza, em processo desde a Série D e que também abarca o fortalecimento nas competições estaduais. Será interessante observar como será este reencontro com a própria história. Enquanto o Fantasma não disputava a Série B desde 1993, a Pantera retorna pela primeira vez desde 2002.

O fenômeno de Santa Catarina continuará?

Ao longo desta década, nenhum outro estado conseguiu ser tão competitivo na Série B quanto Santa Catarina. Foram oito acessos de times catarinenses desde 2010, incluindo três do Avaí e dois do Figueirense. Com dois representantes do estado na primeira divisão, a missão segue no colo de Figueira e Criciúma. Na última campanha, os dois deixaram a desejar, terminando na parte inferior da tabela e contentes em não pagarem consequências piores pela campanha ruim. Já no Catarinense de 2019, ambos sucumbiram nas semifinais, exatamente para Avaí e Chapecoense. Se não é um começo de ano tão promissor, o histórico recente pesa a favor.

O momento de Goiás

Na última edição da Série B, o estado de Goiás contou com três equipes na Série B. Foi um dos destaques da competição. Enquanto o Goiás conquistou o acesso à primeira divisão, protagonizando uma campanha de recuperação, Atlético Goianiense e Vila Nova também sonharam até as últimas rodadas com o retorno à elite. Vale prestar atenção na dupla novamente. Os atleticanos conquistaram o título estadual com sobras, dando um banho nos esmeraldinos durante a decisão, e conseguem montar com frequência equipes competitivas – que, não à toa, têm pintado na Série A. Enquanto isso, os colorados possuem um acerto de contas a fazer com a história, pelos anos em que permanecem afastados do Brasileirão. O começo do ano não foi tão animador, mas há nomes tarimbados que fazem acreditar na melhora, com menção principal a Danilo.

Entre o fôlego e o sprint

Inegavelmente, a Série B possui uma disputa bem mais equilibrada do que a Série A. A diferença entre os clubes é menor, as partidas costumam ser ainda mais pegadas, é difícil manter uma regularidade tão longa. E aí é que estará a chave para os candidatos ao acesso. Nas últimas temporadas, há exemplos claros de times que dão um sprint inicial e não conseguem se manter. O Fortaleza do último ano serve de exemplo positivo, pela maneira como soube se reinventar ao longo da competição, nos momentos em que seu rendimento dava sinais de queda. E existem também aqueles que sabem quando crescer. É algo que contribui a times que encontram a melhor maneira de jogar durante a campanha ou que possuem a possibilidade de trazer reforços.

Quem resistirá no cargo

Se a fogueira de técnicos é enorme na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, ela arde de maneira mais intensa na Segundona. Na última edição, foram 28 demissões ao longo do torneio – incluindo a dança das cadeiras em dois clubes que conquistaram o acesso, Avaí e Goiás. As duas frente de disputas acirradas costumam influenciar bastante o humor dos dirigentes. A diferença entre saber o que é realmente um trabalho ruim e o que é mera má fase se torna fundamental ao longo da competição. Mas as chances de trocas constantes é considerável, considerando clubes de peso que carregam crises nestes primeiros meses de 2019.