A Championship, nome oficial da segunda divisão do futebol inglês, tem muitos atrativos. De repente, trombamos com um jogo maluco, como o empate por 3 a 3 entre Luton Town e Middlesbrough, que abriu a próxima temporada da competição na última sexta-feira. Há sempre muito equilíbrio e arquibancadas cheias, promessas despontando e nomes importantes nos bancos de reserva. Começando a edição de 2019/20, selecionamos dez histórias interessantes para acompanhar.

A rara segunda temporada de Marcelo Bielsa

Bielsa perdeu nos playoffs do acesso para o Derby de Frank Lampard (Foto: Getty Images)

Algo incrível, raríssimo, acontecerá nesta Championship: Marcelo Bielsa terá uma segunda temporada no mesmo clube. Desde que encerrou sua turnê pelas seleções da Argentina e do Chile, aconteceu apenas uma vez, com o Athletic Bilbao. A expectativa é alta para ver o amadurecimento do Leeds que chegou bem perto do acesso, mas acabou perdendo nos playoffs. E também para as tramas extra-campo. Depois do caso de espionagem ao Derby County e o de fair play contra o Aston Villa, o que os roteiristas prepararam para nós? 

O Luton Town está de volta

O Luton Town estreou em um empate eletrizante contra o Middlesbrough (Foto: Getty Images)

 

A bolha no pôquer é o jogador eliminado em 11º lugar em um torneio que entrega premiações aos dez melhores colocados. A sensação deve ser horrível. No futebol inglês, podemos usar esse termo para os times que foram rebaixados da elite justamente na temporada anterior à criação da Premier League e perderam toda a injeção de dinheiro que ela ofereceu. Em 1991/92, os azarados foram o West Ham, que conseguiu se recuperar, o Notts County, atualmente na quinta divisão, fora do profissionalismo da Football League, e o Luton Town, figurinha carimbada da elite da Inglaterra na década de oitenta.

O Luton Town não foi bem na nova segunda divisão e caiu para a terceira, quatro anos depois. Ficou vagando pelos degraus inferiores até conseguir o acesso de volta à Championship, em 2005. O que era para ser o recomeço acabou sendo a perdição. Um empresário picareta, chamado John Gurney, havia assumido o comando do time, dois anos antes, prometendo transformá-lo no “novo Manchester United”. Logo na temporada seguinte, veio a primeira falência. Um consórcio assumiu o clube e conseguiu a vaga na segunda divisão, mas foi apenas aquele último suspiro antes da morte.

Bill Tomlins, chefe daquele consórcio, renunciou em abril de 2007, investigado por irregularidades em transações. Uma nova administração assolou o clube no fim daquele ano, já na terceira divisão, na qual perdeu 10 pontos. Vieram um novo rebaixamento, à League Two, e um novo consórcio. E nova falência: o Luton Town perdeu incríveis 30 pontos na temporada 2008/09 e obviamente caiu para a Conference.

Era o fundo do poço. E o bom do fundo do poço é que só dá para ir para cima. Esse último consórcio colocou o apresentador de TV e notório torcedor Nick Owens na presidência do clube e a recuperação começou. Depois de cinco anos na quinta divisão, o Luton Town conseguiu retornar à League Two, em 2013/14. Passou quatro temporadas por lá antes de voltar à terceira divisão. E imediatamente conquistou o título da League One para garantir seu retorno à Championship, consagrando o ótimo projeto de recuperação.

A campanha na League One foi excelente, com apenas seis derrotas e um longo período de 28 jogos de invencibilidade entre outubro e abril. Perdeu dois laterais direitos times de Premier League, Leicester e Bournemouth, e fez o seu mercado com praticamente apenas jogadores livres da segunda divisão, com exceção do lateral esquerdo Brandon Galloway, que estava no Everton. O único investimento foi por Simon Sluga, goleiro croata que estava no Rijeka.

O Luton Town perdeu seu treinador no último mês de janeiro, quando Nathan Jones decidiu se mudar para o Stoke City. Mick Harford terminou a temporada. O novo comandante é o novato Graeme Jones, auxiliar de Roberto Martínez durante anos, inclusive na Copa do Mundo.

O dérbi de Gales

Swansea e Cardiff voltarão a se enfrentar após cinco anos (Foto: Getty Images)

Vocês sabem como a revista Four Four Two adora listas. Em 2017, ela selecionou os dez clássicos de maior rivalidade no Reino Unido e colocou o de Gales, entre Swansea e Cardiff, na nona posição. Segundo a publicação, não muito tempo atrás, “era o mais apaixonado (leia-se: violento)” do país. Não acontece desde 2014 quando ambos estavam na Premier League. O Cardiff foi rebaixado naquela temporada. Em 2017/18, subiu de volta à elite ao mesmo tempo em que o Swansea caiu à segunda divisão. Com a queda do Cardiff na última Premier League, os rivais reencontram-se na Championship, com uma marca muito interessante: nenhum deles já conseguiu vencer os dois encontros pela liga em que estão na mesma temporada.

Celeiro de técnicos

Woodgate estreia como técnico no comando do Middlesbrough (Foto: Getty Images)

O que une Bryan Robson, Steve McLaren e Gareth Southgate? Todos começaram suas carreiras como treinadores no Middlesbrough. Esse retrospecto incentivou o dono do Boro, Steve Gibson, a fazer uma nova aposta, trocando a experiência de Tony Pulis pela juventude de Jonathan Woodgate. Ex-jogador do clube em duas passagens, além de ter defendido Real Madrid e Tottenham, Woodgate estava desde 2017 na comissão técnica, primeiro nas categorias de base, depois na equipe de Pulis.

Assume ao lado de Robbie Keane, auxiliar da seleção irlandesa e tentará impor uma mudança ao estilo de jogo, em contraste com o famoso futebol muito direto do seu antecessor. “Eu tenho meu jeito de jogar com alta intensidade, pressão, recuperando a bola no campo de ataque. Eu quero jogar com a bola no chão, passando e se movendo. É como eu vejo o futebol sendo jogado”, disse.

O problema é que não houve ações no mercado para apoiar essa inversão de filosofia. O Boro perdeu os veteranos Obi Mikel e Stewart Downing e vendeu o zagueiro Aden Flint, ao Cardiff. Contratou o jovem Marcus Browne, do West Ham e o lateral esquerdo Marc Boja, do Blackpool. Chegou também o goleiro espanhol Tomás Mejías, de 30 anos.

Ryan Sessegnon volta à liga em que brilhou 

Ryan Sessegnon retorna à Championship (Foto: Getty Images)

A ascensão de Ryan Sessegnon foi meteórica. Com apenas 17 anos, foi o grande destaque do Fulham na campanha do acesso à Premier League. No entanto, o salto acabou sendo rápido demais para o garoto. Sempre pela esquerda, como lateral ou ponta, marcou apenas dois gols e deu seis assistências em 35 partidas na elite inglesa, 26 como titular. Agora, retorna à liga na qual conseguiu brilhar para continuar desenvolvendo o seu futebol, a não ser que ele, agora com 19 anos, aceite a transferência que há tanto tempo se fala. O mais especulado nos jornais ingleses é o Tottenham.

Os favoritos

Neil Warnock, um especialista em acessos (Foto: Getty Images)

Dois times da Championship sobem imediatamente à Premier League, enquanto quatro participam de um eletrizante mata-mata pela terceira vaga. Os candidatos aos acessos diretos são, portanto, os mesmos candidatos ao título. Temos três equipes que se destacam nesse quesito. Duas acabaram de cair da elite e a outra não subiu por pouco.

Depois de contratar todos os jogadores que via pela frente, e descobrir por meio do sumário rebaixamento que isso não dá certo, o Fulham foi muito mais comedido no mercado. Contratou apenas dois jogadores, ambos por empréstimo e interessantes: Ivan Cavaleiro, ex-Wolverhampton, e Anthony Knockaert, que estranhamente aceitou trocar a Premier League com o Brighton, no qual atuava com frequência, pela Championship com o Fulham. Ambos serão as forças dos londrinos pelos lados do campo, ajudando a compor um quarteto de ataque muito competente com Tom Cairney e Aleksandr Mitrovic, centroavante com qualidades muito acima da segunda divisão inglesa.

O Leeds United renasceu sob o comando de Marcelo Bielsa. Começou bem demais a última temporada, mas perdeu fôlego no fim. Esse problema pode se acentuar com as movimentações do mercado. Entre jogadores menos ou mais importantes, quatro foram vendidos, inclusive o titular da zaga Pontus Jansson. A reposição foi com o jovem Ben White, da base do Brighton, que passou as últimas duas temporadas no Peterborough, da terceira divisão, e no Newport County, da quarta. O grande reforço foi o português Hélder Costa, do Wolverhampton. Mas o excêntrico treinador argentino ainda é capaz de brigar pelo acesso mais uma vez.

Não podemos duvidar de Neil Warnock, um especialista em acessos. Continuou no Cardiff City e, se subir à Premier League, será a nona vez que ele faz um clube pular de divisão. O lado bom de ter mantido um elenco de segunda na elite é que, com a queda, não foi necessário fazer muitas mudanças. Algumas peças foram embora, como Aron Gunnarsson e Bruno Ecuele Manga, mas outras chegarem. Os galeses desembolsaram € 15 milhões em reforços.

Correndo por fora, temos uma série de times que podem chegar pelo menos aos playoffs. O West Brom, agora treinado por Slaven Bilic, bateu na trave na última temporada, quando perdeu para o Aston Villa nas semifinais. Não podemos descartar o Huddersfield, terceiro rebaixado da Premier League, nem o Derby County, que chegou até as finais do mata-mata do acesso, antes de trocar Frank Lampard por Philip Cocu. Uma surpresa que pode pintar é o Brentford, emendando campanhas decentes desde que subiu da League One, cinco anos atrás. Chegou aos playoffs em 2014/15 e depois ficou sempre no meio da tabela. Será este o seu ano?

Veteranos trocam de casa 

Stewart Downing trocou o Middlesbrough pelo Blackburn (Foto: Getty Images)

Alguns jogadores veteranos da segunda divisão inglesa decidiram respirar novos ares. Após sete anos defendendo o Stoke City, o meia Charlie Adam, ex-Liverpool e Blackpool, foi contratado pelo Reading. O volante americano Geoff Cameron encerrou o mesmo período defendendo o clube e se mudou de vez para o Queens Park Rangers, ao qual esteve emprestado na última temporada. Stewart Downing ficou a um jogo de completar 400 pelo Middlesbrough porque agora defende o Blackburn. David Nugent disputará a Championship pela 12ª vez na sua carreira depois de confirmar o seu retorno ao Preston North End, um dos cinco clubes pelos quais marcou gol na segunda divisão.

Cuidado com as contas 

Torcedores do Bolton protestam contra o dono do clube, Ken Anderson, que contribuiu para a falência (Foto: Getty Images)

O número de clubes entrando em falência diminuiu na Football League, responsável pelos campeonatos da segunda à quarta divisão. Segundo um levantamento da BBC, houve uma queda de 85% – de 12 para dois – em clubes em administração no período entre as temporadas 2012/13 e 2016/17 em comparação aos cinco anos anteriores. A emissora britânica, porém, avaliou que um quarto da Football League – 72 times no geral –  viu credores pedindo para executar as dívidas ou passaram por sérios problemas financeiros.

Acontece que a perspectiva de acessar os profundos bolsos da Premier League às vezes leva donos irresponsáveis a fazerem loucuras em busca do acesso. O Queens Park Rangers, por exemplo, não faliu, mas recentemente precisou pagar uma multa em um acordo com a liga porque teria violado as regras do Fair Play Financeiro quando subiu em 2013/14. O clube de Londres também passou por um embargo de transferências. A EFL (English Football League) chegou a colocar restrições ao mercado do Aston Villa no começo da última temporada, enquanto analisava as suas finanças.

O caso recente mais preocupante foi o do Bolton. Com dívidas galopantes desde que foi rebaixado da Premier League, em 2012, o clube evitou por pouco perder pontos na última Championship, mas nem isso o ajudou a se manter na segunda divisão. Com salários atrasados, incertezas sobre a propriedade e até uma greve de jogadores, o rebaixamento veio fácil. E assim que o torneio acabou, uma dívida fiscal de £ 1,2 milhão foi o passo à frente na beira do precipício. O Bolton tornou-se o primeiro clube da Football League a entrar em administração desde o Aldershot Town, em 2013.

Por isso, é bom ficar de olho nas contas, e parece que os clubes perceberam. O jogador mais caro foi Isaac Mbenza, contratado pelo Huddersfield pelo Montpellier por € 12,5 milhões, segundo o Transfermarkt. Mbenza havia passado a última temporada emprestado ao clube inglês, que exerceu uma cláusula em seu contrato para adquiri-lo em definitivo. Foram apenas oito negócios acima de € 5 milhões, contra 17 na temporada anterior, 15 em 2017/18 e 21 em 2016/17. Menor marca em quatro anos.

Grandes nomes no banco de reservas

Slaven Bilic está de volta ao futebol inglês (Foto: Getty Images)

As estrelas no comando de clubes da Championship não se restringem a Marcelo Bielsa. A aventura de Slaven Bilic pelo Al-Ittihad terminou antes do que o ex-jogador da seleção croata imaginava. Acertou o retorno ao futebol inglês no comando do West Brom, um dos times cotados para subir, depois de ter feito um bom trabalho pelo West Ham. Ao perder Frank Lampard para o Chelsea, o Derby County decidiu que precisava continuar a ter um treinador que atraísse as manchetes e contratou Phillip Cocu, tricampeão holandês como técnico. Se o Derby procura o seu próximo Brian Clough, o Nottingham Forest também procura o seu próximo Brian Clough. Sabri Lamouchi, terceiro não-britânico no comando do Forest desde 2016, foi o escolhido. O francês comandou a Costa do Marfim na Copa do Mundo de 2014 e treinou o Rennes por um ano.

Última temporada do Brentford em seu estádio

Esta temporada será a despedida do Griffin Park (Foto: Getty Images)

Desde que Matthew Benham assumiu o Brentford, em 2012, o clube tenta fazer algumas coisas diferentes. Entre elas, tentar desvendar as estatísticas que mais influenciam um jogo de futebol para montar um time além das suas capacidades financeiras, ter treinadores especializados em fundamentos como cobranças de falta e laterais e um time B no lugar das categorias de base para preparar promessas de outros países e suas principais pratas da casa para a equipe principal. Tem funcionado. Após décadas em divisões inferiores, o Brentford está estabilizado na Championship desde 2014/15 e este pode ser o ano em que realmente disputam o acesso à elite.

Se isso for verdade, será especial porque esta temporada também será a última do Griffin Park, estádio utilizado pelo clube em 116 anos. Em 2020/21, será inaugurado o Brentford Community Stadium, com capacidade para 17 mil pessoas, versus 12 mil do campo antigo. Foi construído a metros de distância. “O foco e a energia são em garantir uma grande experiência para todos os torcedores que vierem nesta última temporada. Há algumas ocasiões incríveis, como os derbies de Londres, nosso último Boxing Day, nosso último jogo no Griffin Park. Queremos fazer com que sejam todas ocasiões especiais”, afirmou o novo executivo-chefe, Jon Varney.