Durante os anos 1990, o Farense se firmou como um tradicional participante do Campeonato Português. O clube do Algarve realizou suas primeiras aparições na elite nas décadas de 1970 e 1980, mas foi só depois que manteve a estabilidade como um figurante da liga. Foram 12 temporadas consecutivas na primeira divisão, entre 1990 e 2002, quando alcançou a final da Taça de Portugal e disputou até mesmo a Copa da Uefa. Desde então, os Leões de Faro enfrentaram uma grave crise institucional e precisaram se reconstruir a partir da sexta divisão. E a redenção se tornou completa nesta semana: após 18 anos, o Farense retornará à elite do Campeonato Português.

A comemoração não veio da melhor maneira, diante das limitações geradas pela pandemia do coronavírus. Com apoio do governo, a federação portuguesa decidiu encerrar a temporada em todas as divisões abaixo da elite e, assim, o Farense garantiu o acesso na segundona. O feito dos Leões de Faro tem seus méritos dentro de campo, é claro. A equipe vinha em grande campanha na segunda liga e se manteve na zona de acesso durante a maior parte das rodadas, quase sempre na primeira colocação. Ainda restavam mais dez jogos para o término do campeonato. De qualquer forma, os alvinegros sustentavam uma boa vantagem de seis pontos no G-2. Subiram ao lado do Nacional da Ilha da Madeira, líder com dois pontos a mais.

E, mesmo que alguns possam questionar a canetada dada pelas autoridades, o Farense merece reexibir sua grandeza. É o clube mais antigo do Algarve e também o representante da região com maior número de aparições na elite. A partir de 2020/21, os Leões de Faro talvez possam realizar o clássico local contra o Portimonense na primeira divisão – se os rivais evitarem o descenso. Mais do que isso, coroarão sua longa caminhada até a reconstrução total.

Para celebrar o feito, recontamos um pouco da história do Farense. Relembramos personagens, grandes momentos e curiosidades que compõem a tradição da agremiação. Que mostram como, independente da forma ou do momento, a ascensão dos alvinegros é um grande capítulo do futebol lusitano a se exaltar.

A inspiração do Sporting

Uma das histórias mais pitorescas envolvendo o Farense ocorreu em sua própria formação. O clube surgiu em 1910 e a fama do Sporting de Lisboa desde aquela época influenciou os fundadores. Em homenagem, o nome oficial da nova agremiação no Algarve seria “Sporting Clube Farense”. O que não deu muito certo foi a inspiração nos uniformes: em vez do alviverde sportinguista, os Leões de Faro escolheram o alvinegro. Em tempos nos quais as únicas informações visuais sobre o Sporting vinham através de fotografias em preto e branco, o Farense acabou enganado pela falta de cores nos retratos dos lisboetas.

Os técnicos renomados que calçaram chuteiras em Faro

A primeira estadia do Farense na primeira divisão do Campeonato Português aconteceu entre 1970 e 1976. O clube teve desempenhos razoáveis, sem passar da sétima colocação. E o nome mais célebre dos alvinegros durante aquele período faria mais sucesso posteriormente: o então meio-campista Manuel José. Com uma carreira modesta dentro de campo, depois se tornaria um importante técnico. Treinou Benfica e Boavista, embora seus maiores sucessos tenham ocorrido à frente do Al-Ahly. O lusitano levaria os egípcios a quatro títulos africanos entre 2001 e 2008, formando um dos maiores esquadrões da história do continente.

Já na década de 1980, o Farense teria passagens intermitentes pela elite do Portuguesão entre 1983 e 1989, com um descenso neste intervalo. Em sua primeira temporada de retorno, o meio-campo contou com os serviços de um tal Jorge Jesus. O futuro treinador já tinha certa experiência dentro dos gramados, incluindo uma rápida passagem pelo Sporting. Ficaria um ano em Faro, somando 24 partidas, em suas últimas aparições na primeira divisão antes de iniciar a carreira na casamata.

Paco Fortes, uma instituição em Faro

Um nome essencial para recontar a história do Farense é Paco Fortes, meio-campista formado pelo Barcelona. Quando ainda estava no Camp Nou, o jovem chegou a atuar uma vez pela seleção espanhola, mas não vingou no clube – companheiro de Johan Cruyff, Johan Neeskens, Carles Rexach e Juan Manuel Asensi naqueles anos. Passaria depois por Málaga, Espanyol e Valladolid, até desembarcar no Algarve em 1984. Seria considerado um dos maiores jogadores da história dos Leões, sobretudo pela garra que exibia dentro de campo. Foram cinco anos no elenco, até pendurar as chuteiras após o rebaixamento em 1989.

Fortes, no entanto, seguiria no Farense. Convidado pela diretoria para assumir o comando dos alvinegros, também viraria o maior treinador do clube. Foi ele o principal condutor dos Leões na elite do Campeonato Português, ao conquistar o acesso em 1989/90, quando também disputou a final da Taça de Portugal. Emendou nove edições consecutivas na primeira divisão sem ser rebaixado e foi o responsável pela melhor campanha da história, com a quinta colocação que rendeu um lugar na Copa da Uefa. Encarar o Estádio de São Luis em seus tempos era missão duríssima, inclusive para os grandes. Foram anos dourados ao Farense, entre uma equipe aguerrida e a torcida inflamada que transformava o local em caldeirão.

Os meses de Malcolm Allison

Antes de Paco Fortes virar técnico, o Farense fez uma aposta ousada para o seu comando em 1988/89. Os Leões de Faro contrataram Malcolm Allison, treinador histórico do Manchester City e que também realizou um bom trabalho no Sporting durante o início dos anos 1980. Entretanto, a aventura do veterano inglês pelo Algarve duraria pouco. Ele chegou no meio da campanha, para tentar evitar o descenso à segunda divisão. Apesar da empolgação pelo renomado comandante, Big Mal não faria milagre e os alvinegros terminariam rebaixados. Na época, os lusitanos chegaram a contar em seu elenco com Peter Barnes, outro ídolo do City.

A final da Taça de Portugal em 1990

Na mesma temporada em que selou o seu retorno à primeira divisão, em 1989/90, o Farense também protagonizou sua melhor campanha na história da Taça de Portugal. Aquela seria uma edição muito lembrada do torneio, em especial por suas zebras. O Sporting caiu nos 32-avos de final e o Benfica parou nos 16-avos de final. Dos três grandes, o melhor desempenho ficou guardado ao Porto, que ainda assim não passou das oitavas. Desta forma, o caminho acabaria aberto às surpresas. Os Leões de Faro eliminaram o Belenenses nas semifinais, antes da peculiar decisão contra o Estrela da Amadora.

Seriam duas partidas no Estádio Nacional do Jamor para definir o campeão. No primeiro encontro, o empate por 1 a 1 prevaleceu até o fim da prorrogação, com um gol de Fernando Cruz dando vida extra aos alvinegros nos instantes derradeiros. Já no duelo de desempate, o Estrela da Amadora fez valer seu “favoritismo” e derrotou os oponentes por 2 a 0 – com direito a um tento do então novato Paulo Bento. Ficou marcada a festa nas arquibancadas, com os farenses também ajudando a encher o Jamor, sobretudo no primeiro jogo.

A participação na Copa da Uefa

Em suas 12 temporadas consecutivas na primeira divisão, o Farense registrou campanhas dignas. A equipe terminou na metade superior da tabela em quatro delas, todas entre 1991/92 e 1994/95. Foram duas campanhas em sexto e uma em oitavo, até o marcante quinto lugar no último desses anos. Os Leões de Faro encerraram a jornada atrás apenas do trio de ferro e do Vitória de Guimarães, com direito a um excelente desempenho como mandantes, onde faturaram 13 de suas 16 vitórias na temporada. Como prêmio, puderam disputar pela primeira (e única) vez uma competição continental.

O sorteio na Copa da Uefa não foi muito benevolente com o Farense. A equipe encarou logo de cara o Lyon – que, se não era exatamente uma potência naquele momento, havia terminado com o vice na Ligue 1 em 1994/95 e ampliava seus investimentos. Os Gones tinham nomes como o novato Ludovic Giuly, o goleiro Pascal Olmeta, o badalado Florian Maurice e o zagueiro Marcelo Dijan em seu elenco. Venceram as duas partidas por 1 a 0, ainda que não tenham apagado a marca na história dos lusitanos.

Nader, mundialista e artilheiro da liga

O principal nome do Farense nos anos 1990 era um atacante marroquino. Hassan Nader começou no Wydad Casablanca e passou pelo Mallorca, antes de ser contratado pelos alvinegros em 1992/93. Seu momento era tão bom que acabaria convocado à Copa do Mundo de 1994, tornando-se o único atleta a participar de um Mundial como membro do clube lusitano. Vestindo a camisa 16, Nader só ganhou uma chance na última partida da fase de grupos, quando Marrocos tentava salvar sua campanha. Anotou o gol de honra na derrota por 2 a 1 para a Holanda, mas não evitou a eliminação.

Logo depois, Nader faria sua melhor temporada com o Farense. O atacante anotou 21 gols em 31 aparições pelo Campeonato Português de 1994/95. Seria um dos grandes responsáveis pela quinta colocação da equipe e, de quebra, terminaria como artilheiro da competição. O marroquino foi contratado pelo Benfica logo na sequência, mas não emplacou no Estádio da Luz e voltou a Algarve dois anos depois. Completaria mais sete temporadas com o Farense e se aposentou por lá. Foram 97 gols em 242 partidas pela agremiação. Também marroquino, o meia Hajry seria outro jogador notável dos Leões de Faro nos anos 1990.

Além dos marroquinos, o Farense teve uma respeitável colônia de jogadores nascidos na antiga Iugoslávia. O atacante Milonja Djukic, revelado pelo Partizan Belgrado, foi o principal deles e completou sete temporadas no Algarve. O goleiro Zoran Lemajic, o meia Dragan Punisic e atacante Miroslav Curcic também garantiram seu respeito entre os torcedores.

Rufai, um príncipe no gol do Farense

O Farense contou com outros jogadores que disputaram Copas do Mundo em seu elenco, embora não tenham sido convocados durante suas passagens pelo clube. Destes, o mais reconhecido é o goleiro Peter Rufai. O nigeriano permaneceu no Algarve de 1994 a 1997, contratado logo após disputar o Mundial dos Estados Unidos. Depois disso, seria vendido ao Hércules e passaria pelo Deportivo de La Coruña, antes de figurar na Copa de 1998. Referência das Super Águias, o arqueiro também seria campeão da Copa Africana de Nações em 1994.

Rufai desembarcou em Portugal com certa rodagem na Europa, após jogar na Bélgica e na Holanda. Em suas três temporadas com o Farense, compôs o histórico time que terminou na quinta colocação do Campeonato Português em 1994/95 e também esteve presente nos confrontos com o Lyon pela Copa da Uefa. E o mais curioso sobre o nigeriano é que, para se tornar jogador profissional, ele renunciou ao trono de sua tribo. O ‘ex-príncipe’ seria lembrado como um dos goleiros mais importantes da história do continente africano.

Os ídolos brasileiros

Como outros tantos clubes de Portugal, o Farense apostou sistematicamente em atletas brasileiros para reforçar seus elencos na primeira divisão. Alguns jogadores badalados não deram tão certo no Algarve. Enquanto isso, nomes menos reconhecidos acabaram construindo sua idolatria com os Leões.

Durante a primeira estadia na elite do Portuguesão, nos anos 1970, o Farense contou com os gols de Mirobaldo. O sergipano tinha sido ídolo do Santa Cruz no fim da década anterior e construiu sua fama com os Leões. Foram 43 tentos em 128 partidas pelo clube, número insuperável entre os artilheiros brasileiros que passaram pelo Algarve. Adílson (que teve bons momentos pelo São Paulo) e José Farias (trazido do Central de Caruaru) completavam uma trinca brasileira de ataque que causou impacto naqueles tempos, conhecida como “MFA”. Vale mencionar ainda o meia Valdir, que chegou mais rodado a Faro, após defender o Porto.

Quando o Farense retornou à primeira divisão nos anos 1980, novamente investiu em brasileiros. A leva incluiu vários jogadores do futebol carioca, entre eles Búfalo Gil. Presente na Copa de 1978, o atacante estava em fim de carreira, após defender diversos grandes clubes – em especial o Fluminense. Ainda assim, marcou nove gols no Campeonato Português de 1983/84. Meia do Santos e do America-RJ, Nélson Borges foi outro a atuar com frequência pelos Leões de Faro na elite, assim como Pires, ex-volante do Palmeiras e do Vasco. Já figurões como Júlio César Uri Geller, Jayme de Almeida Filho, Cocada e Carlos Alberto Pintinho não vingaram.

Nessa mesma época, era comum ao Farense pinçar jogadores brasileiros sem muito nome, por indicação de empresários. Também encontraram boas peças assim, que fariam sua reputação no Algarve. Um bom exemplo é o atacante Jorge Andrade, descoberto na Cabofriense e que depois teria destaque no Boavista de Portugal. O mesmo se aplica ao zagueiro Luizão, cria do Fluminense e com uma rápida estadia pelo Atlético Mineiro, que defenderia os alvinegros por oito temporadas – num total de 194 partidas. O zagueiro Orlando, o atacante Ricardo Diabo Loiro e o goleiro Celso Cajuru são outros exemplos.

Já duas grandes figuras do Farense que chegaria à decisão da Taça de Portugal eram Sérgio Duarte e Pitico, outros que superaram a marca de 150 aparições com a camisa alvinegra. Meio-campista, Duarte começou no Nacional-AM e vestiu as cores do Flamengo, antes de se firmar como uma das referências no Algarve. Pitico, por sua vez, era reserva do Sport campeão em 1987 e atuava no São José-SP quando os lusitanos o levaram. O ponta direita completaria sete temporadas com os Leões. O ponta esquerda Mané (outro ex-São José) não ficou tanto tempo quanto ambos, mas seria dele o gol que valeu a vaga na final da Taça de Portugal. Já na defesa, o principal nome era o zagueiro Tefo, contratado junto ao Avaí.

Um dos maiores goleiros da história do Flamengo, Zé Carlos passou pela meta do Farense no início dos anos 1990. Terceira opção da Seleção na Copa de 1990, ficou por duas temporadas, vendido depois ao Vitória de Guimarães. O atacante Christian, futuro ídolo do Internacional, também teria uma passagem significativa pelos Leões em 1995/96. O centroavante veio do Estrela da Amadora e anotou dez gols na temporada, antes de ser recontratado pelos colorados. Já os brasileiros mais idolatrados do Farense no final de sua estadia na primeira divisão, até 2002, eram bem menos cotados. Os zagueiros King e Paulo Sérgio, o goleiro Marco Aurélio e o meio-campista Helcinho estavam entre essas figuras.

No elenco atual, nove brasileiros contribuíram ao acesso na segunda divisão. A estratégia de farejar talentos em clubes menores se repetiu no Algarve. Cássio Scheid, Matheus Silva e Fabrício Isidoro foram frequentes na equipe titular. Já a referência do time é Fabrício Simões, atacante de 35 anos que passou boa parte de sua carreira em Angola. O camisa 9 somou oito gols em 28 partidas na temporada.

A reconstrução

O início do século parecia promissor ao Farense. Afinal, ainda na primeira divisão do Campeonato Português, o clube seria um dos contemplados pela Euro 2004: os alvinegros herdariam o Estádio Algarve, uma das sedes do torneio, com capacidade para 30 mil espectadores. Porém, a nova arena logo se tornaria um elefante branco, diante da derrocada dos Leões. A queda na primeira divisão aconteceu ainda em 2002. Com problemas financeiros, o time sofreria dois novos descensos consecutivos e iniciaria a temporada 2003/04 na quarta divisão. Já o fundo do poço veio em 2005/06, quando as dívidas provocaram a bancarrota e o Farense precisou recomeçar na segunda divisão distrital – equivalente ao sexto nível nacional.

Com dois acessos consecutivos a partir de 2007, o Farense levaria um pouco mais de tempo para se restabelecer entre a quarta e a terceira divisão. O retorno à segundona aconteceria em 2013/14 e, apesar de um rebaixamento no meio do caminho, o clube dava sinais de crescimento. Já na atual campanha, a elite voltou a realmente aparecer no horizonte dos Leões, após a décima colocação na temporada anterior. Agarraram a chance para não soltar mais. Em tempos nos quais o coronavírus representa a falta de perspectivas a muitos clubes, o Farense vê seu recomeço, e abraçado por sua torcida.