A história da seleção brasileira está diretamente atrelada às Copas. Natural. Foi em seus cinco títulos que o Brasil fez fama como “país do futebol”. E, consequentemente, a maioria dos craques exaltados com a camisa amarela (ou branca, que seja) está atrelada ao Mundial. Levantando a taça ou não, os grandes jogadores da Seleção têm como termômetro o torneio. Lendas, como Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo, ou mesmo gigantes que nunca venceram, como Leônidas, Zizinho e Zico, são lembrados quase que exclusivamente por aquilo que fizeram nas Copas.

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Pois a história da seleção brasileira vai muito além. E, por isso mesmo, resolvemos resgatar dez personagens da equipe nacional que recebem menos consideração do que deveriam. Alguns deles até foram campeões do mundo (incluindo um capitão), mas quase sempre são preteridos quando se considera os grandes nomes do Brasil com a bola nos pés – ou nas mãos. Abaixo, relembramos as suas trajetórias. Dez histórias que merecem ser revistas.

Arthur Friedenreich

Atacante
21 jogos, 10 gols (1914-35)
Principais clubes: Ypiranga, Paulistano, São Paulo da Floresta, Flamengo

Friedenreich (em primeiro plano na foto acima) é considerado o maior craque do futebol brasileiro nos tempos de amadorismo. Mesmo assim, sua imagem quase sempre é associada aos gols empilhados no Campeonato Paulista. Por não ter disputado a Copa de 1930, o artilheiro geralmente tem sua história na Seleção relegado a segundo plano. Não deveria. Fried era a referência da equipe que venceu o Exeter City. Seguiu como um dos protagonistas do ataque durante aqueles primeiros anos, ao lado do corintiano Neco. E se tornou lenda de verdade no Sul-Americano de 1919.

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Foi de Friedenreich o gol do título na vitória por 1 a 0, já no segundo tempo da prorrogação. Uma atuação tão marcante que, a partir de então, foi apelidado de El Tigre pelos vizinhos, por causa dos movimentos rápidos e do instinto de matador. Também estava no time que reconquistou o torneio de 1922, mas uma lesão o tirou da maior parte da campanha. Já em 1930, aos 38 anos, ainda estava cotado para ir à primeira Copa do Mundo, mas a briga entre cariocas e paulistas o deixou de fora do time. Uma pena. Semanas depois da eliminação, o Brasil disputou um amistoso contra a França, com Fried em campo. Foi dele um dos gols no triunfo por 3 a 2, mostrando que poderia ter ajudado bastante se fosse ao Uruguai.

Marcos de Mendonça

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Goleiro
14 jogos, 13 gols sofridos (1914-22)
Principais clubes: América-RJ, Fluminense

Dizem que toda grande equipe começa por um grande goleiro. E a seleção brasileira contou com um mito debaixo dos paus logo em sua primeira partida. Marcos de Mendonça era um goleiro de muita fama no Rio de Janeiro durante os anos 1910. E, com a camisa do Brasil, tornou-se conhecido também internacionalmente. O arqueiro foi um dos heróis na conquista da Copa Roca de 1914, o primeiro título da Seleção. Ajudou a segurar o 1 a 0 sobre a Argentina em Buenos Aires, a ponto de ser carregado nos braços pela torcida rival.

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Já em 1919, foi um dos pilares do time na campanha vitoriosa no Campeonato Sul-Americano. No jogo decisivo, contra o Uruguai, fez aquela que classificou como “a defesa de sua vida”, em um chute do craque Héctor Scarone. O lance foi fundamental para que a Seleção levasse aquela final à segunda prorrogação e vencesse por 1 a 0, ficando com a taça. Sua despedida da seleção aconteceu no Sul-Americano de 1922, quando foi campeão. Porém, só esteve em campo na estreia, quando se lesionou. Acabou substituído por Kuntz, “El Colosso”.

Tim

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Atacante
16 jogos, 1 gol (1936-42)
Principais clubes: Portuguesa Santista, Fluminense

Eram tempos de vacas magras para a seleção brasileira. A CBD insistia em rechaçar o profissionalismo e, por isso mesmo, precisava recrutar jogadores em equipes amadoras. Foi assim que Tim (à direita na foto) surgiu na equipe nacional, meia-atacante de ótima visão de jogo e de qualidade na condução que defendia a Portuguesa Santista. O Brasil não foi campeão no Sul-Americano de 1937. Mesmo assim, o jovem talento fez sua fama na partida decisiva contra a Argentina. Ganhou o apelido de “El Peón”, o condutor de rebanhos, pela forma como organizava o time.

Tim também deveria ser um dos destaques do Brasil na Copa de 1938. O problema era o gênio difícil, que o fez ser barrado pelo técnico Ademar Pimenta na maior parte do torneio. Por abusar da boemia, só ganhou uma chance no time durante o jogo de desempate contra a Tchecoslováquia. E foi importante ao apoiar Leônidas no ataque e buscar a virada. Contudo, acabou de fora da semifinal contra a Itália, e a falta de armação atrapalhou o sonho do Brasil. Tim continuou defendendo a seleção nos anos seguintes, em época de pouco sucesso. Chegou até a fazer parte do elenco na Copa Roca de 1945, mas um desentendimento com o técnico Flávio Costa fez com que encerrasse sua passagem pela Seleção ali.

Tesourinha

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Atacante
23 jogos, 10 gols (1944-50)
Principais clubes: Internacional, Vasco

Até a década de 1940, contavam-se nos dedos os jogadores de equipes de fora do eixo Rio-São Paulo que haviam entrado em campo pela seleção. Tesourinha (o primeiro da fila na imagem) foi apenas o sétimo. O primeiro a se estabelecer como titular na seleção brasileira. O ponta fulminante era um dos craques do Rolo Compressor do Internacional na década de 1940. E o sucesso com a camisa colorada lhe abriu a chance para ser convocado. Logo na estreia, um gol no massacre por 6 a 1 sobre o Uruguai. O suficiente para que se tornasse nome recorrente na equipe de Flávio Costa, que foi vice-campeã no Campeonato Sul-Americano de 1945.

A redenção de Tesourinha veio em 1949, quando o Brasil recuperou o título do torneio continental. O ponta direita não só foi titular do time campeão, como também marcou sete gols em seis jogos. No jogo-desempate que decidiu a taça contra o Paraguai, o colorado teve sua atuação mais fantástica, ao balançar as redes duas vezes, dar uma assistência e ainda sofrer um pênalti na goleada por 7 a 1. Logo em seguida, Tesourinha seria negociado com o Expresso da Vitória do Vasco. Mas, nome certo na Copa de 1950, acabou cortado por causa de uma séria lesão no joelho. Seu substituto foi Friaça, autor do gol na final. Depois disso, nunca mais o gaúcho ganharia uma chance na Seleção.

Jair Rosa Pinto

Zizinho, Leônidas e Jair, símbolos do negro e do mestiço no futebol brasileiro

Atacante
41 jogos, 23 gols (1940-56)
Principais clubes: Vasco, Flamengo, Palmeiras, Santos

Zizinho é sempre lembrado como o maestro da Seleção de 1950. Ademir de Menezes, como o artilheiro. Barbosa, como o goleiro, que também se tornou o vilão. Mas há pouca consideração com Jair Rosa Pinto (à direita na foto), o craque que vestia a 10 com todos os méritos naquele Mundial. Revelado pelo Madureira antes de seguir ao Vasco, estreou pela equipe nacional às vésperas de completar 19 anos. E foi um dos pilares da reconstrução do time a partir da década de 1940, ao lado de Zizinho e Ademir. Três que formavam, junto com Heleno de Freitas e Tesourinha, a potente linha de ataque que foi vice-campeã do Sul-Americano de 1945.

Jair seguiu como referência daquele time na preparação para a Copa de 1950. Meia-atacante de muita qualidade técnica e boa chegada ao ataque, foi o artilheiro do Sul-Americano de 1949, com nove gols em sete partidas. E também se destacou muito no Mundial do ano seguinte. Titular em todas as partidas, marcou dois gols e ainda foi eleito para a seleção do torneio. Por muito pouco, não foi o herói no Maracanã, por centímetros não evitou o Maracanazo. Aos 44 minutos do segundo tempo, Friaça cobrou escanteio e a bola raspou na cabeça de Jair, na pequena área, antes do apito final. Poderia ser o gol de empate que daria o título ao Brasil. Não foi. Depois disso, o camisa 10 só foi convocado uma vez para a Seleção, já em 1956, com Osvaldo Brandão. Seguiu escrevendo sua história gloriosa nos clubes, reconhecido como ídolo em quatro grandes do futebol brasileiro.

Julinho Botelho

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Atacante
31 jogos, 10 gols (1952-65)
Principais clubes: Portuguesa, Fiorentina, Palmeiras

Julinho só tem uma Copa do Mundo no currículo, mas por puro acaso. Poderia ter três e ser considerado uma das maiores lendas da história da Seleção. Quem sabe, a ponto de rivalizar com Garrincha. Talento ele tinha. O ponta direita foi um dos eleitos para a reconstrução do Brasil após o Maracanazo e se tornou intocável no time em toda a preparação à Copa de 1954. Era titular absoluto da equipe e, ao lado de Djalma Santos, foi um dos melhores brasileiros na Suíça. Anotou um golaço nos 5 a 0 sobre o México na estreia e foi quem mais deu trabalho à defesa da Hungria nas quartas de final, quando a Seleção acabou eliminada.

A transferência para a Fiorentina no ano seguinte acabou minando o espaço de Julinho na equipe nacional. Destaque do time que foi campeão italiano em 1956 e vice europeu no ano seguinte, o ponta acabou recusando a possibilidade de servir a Seleção, não achando justo pelo fato de estar no exterior. Só voltou a admitir a possibilidade quando se transferiu ao Palmeiras. Em 1959, foi convocado para um amistoso contra a Inglaterra no Maracanã. Todos queriam ver Garrincha, mas Vicente Feola escalou Julinho, que acabou vaiado pelos 130 mil nas arquibancadas. O ponta, no entanto, logo os fez mudarem de ideia. Aos dois minutos, um golaço do craque, que logo arrancou aplausos. E, imparável nos dribles e arrancadas, Julinho ainda deu o passe para o gol que fechou os 2 a 0 no placar. Seguia cotado para disputar a Copa de 1962, mas uma lesão o impediu de ir ao Chile. Mané, sem concorrência, deu o bi ao Brasil.

Zito

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Meio-campista
50 jogos, 3 gols (1955-66)
Principais clubes: Santos

Dos jogadores que foram titulares no bicampeonato mundial do Brasil, Zito provavelmente é o menos lembrado. O eterno meio-campista do Santos é mais reconhecido por sua fama de xerife e pela forma como costumava dar ordens até em Pelé. Entretanto, suas atuações com a camisa da Seleção foram fundamentais para o sucesso da equipe. Zito começou a se firmar nas convocações a partir de 1957. Já na Copa de 1958, era reserva de Dino Sani, meio-campista muito mais técnico. Até que uma contusão do titular contra a Inglaterra abriu espaço para a sua entrada na equipe contra a União Soviética. Não tão brilhante quanto Garrincha e Pelé, outras duas novidades daquele jogo, mas igualmente importante.

Porque a entrada de um volante empenhado como Zito dava espaço para que Didi saísse mais ao ataque. E na semifinal contra a França, quando tomou um drible desconcertante de Piantoni, é que teve sua melhor atuação. Antes de participar da construção de dois gols na final contra a Suécia. Zito se manteve intocável no time até o Mundial de 1962, quando foi novamente um dos esteios. Desta vez, para se consagrar na decisão. Após um lançamento longo para Garrincha, foi ele quem apareceu na pequena área para escorar o cruzamento do ponta, decretando a virada sobre a Tchecoslováquia. Ainda participou da conturbada preparação para a Copa de 1966, mas não foi convocado.

Piazza

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Zagueiro/Meio-campista
65 jogos (1967-76)
Principais clubes: Cruzeiro

Um dos protagonistas do grande time que o Cruzeiro formou entre as décadas de 1960 e 1970, Piazza se estabeleceu na Seleção durante a preparação para a Copa de 1970. Volante muito técnico, era imprescindível na equipe titular independente de quem fosse o técnico. Mas se era absoluto no meio-campo de João Saldanha, o cruzeirense foi reinventado por Zagallo. Para o encaixe de Clodoaldo e Gérson no setor, Piazza foi recuado para a zaga. Deu muito certo, com um jogador de excelente posicionamento e boa saída de bola. A mudança aconteceu no último jogo antes da viagem ao México, e se manteve em cinco das seis partidas do Mundial. O zagueiro improvisado foi um dos melhores da defesa do tri.

O moral com Zagallo manteve Piazza na Seleção no ciclo rumo à Copa de 1974. Com Luís Pereira e Marinho Peres na zaga, entretanto, o veterano foi deslocado novamente para jogar na cabeça de área. Foi capitão no início da campanha no Mundial da Alemanha, mas acabou se lesionando durante a competição e não pôde evitar a frustração brasileira na reta final da participação. Seguiu convocado até Osvaldo Brandão assumir o time, em 1975, mas o declínio da forma física do veterano selou a sua despedida no ano seguinte.

Leão

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Goleiro
104 jogos, 64 gols sofridos (1970-86)
Principais clubes: Palmeiras, Grêmio, Vasco, Corinthians

Gylmar e Taffarel são as grandes referências do gol da seleção brasileira. Leão, no entanto, poderia ser lembrado mais vezes. Titular em duas Copas do Mundo, é o único camisa 1 a ter disputado quatro edições do torneio pelo Brasil. Além disso, são 104 partidas a serviço da Seleção. Novato na campanha do tri em 1970, ganhou a posição na Copa de 1974. Mais do que isso, foi um dos melhores jogadores brasileiros na campanha na Alemanha. A derrota por 2 a 0 para a Holanda só não foi maior pela série de milagres operados por Leão naquela partida.

Seguiu tomando conta do gol da Seleção também na Copa de 1978. Se a equipe de Cláudio Coutinho terminou aquela competição também invicta, deve bastante ao seu goleiro, que sofreu apenas três gols na competição. O camisa 1 não se manteve com Telê Santana no comando da equipe rumo à Copa de 1982, mas voltou a ser convocado por Carlos Alberto Parreira logo após a competição na Espanha. E seguiu como reserva de Carlos no Mundial do México, pouco antes de encerrar a carreira.

Dunga

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Meio-campista
95 jogos, 4 gols (1987-98)
Principais clubes: Internacional, Corinthians, Fiorentina, Stuttgart

Qual o jogador acertou mais passes em uma Copa do Mundo? Não é muito difícil de acertar: Xavi, que passou a bola 599 vezes em 2010. E o segundo? Dunga, com apenas dez passes a menos. No entanto, enquanto o espanhol é exaltado como motor do tiki-taka da Roja, o brasileiro é quase sempre mencionado pelos impropérios que gritou quando recebeu a taça do tetra. Dunga pode ter dado nome a uma “era” na qual a seleção não apresentava o futebol ofensivo de anos antes. Afinal, ele não era mesmo Falcão. Porém, ninguém pode dizer que o gaúcho não era um técnico. Não que ele não seja lembrado, pelo contrário. Mas não da maneira como deveria.

Dunga foi um líder explosivo, capaz de dar broncas gigantescas na frente dos companheiros dentro de campo. Mas tinha muitas qualidades com a bola nos pés. Os passes curtos, sempre precisos, garantiram uma boa saída de bola à Seleção por três Copas. Também tinha visão de jogo para distribuir lançamentos longos. Além disso, combinava força e técnica na marcação. Não à toa, se manteve como titular absoluto da seleção em um dos períodos mais vitoriosos, encerrando seu ciclo com o vice-campeonato de 1998. Por mais que a imagem do capitão seja mais marcante, o que é compreensível, não dá para menosprezar o grande jogador que também foi.


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