Esse post eu deveria ter publicado na semana passada, ainda no embalo dos Jogos Olímpicos de Londres. Mas ficou grande, e acabou demorando para terminar. Como eu sou brasileiro, não desisto nunca (desde que não esteja ventando) e fui em frente.

Jogos Olímpicos são legais porque servem de oportunidade para ver dezenas de esportes diferentes, fingir que entende de todos eles e cornetar os brasileiros como se fôssemos potência mundial em tudo. De, depois, tentamos imaginar por que certas modalidades estão no evento quando, aparentemente, ninguém deve disputá-las de verdade.

A maior vítima disso é o badminton, que é top of mind de “esportes olímpicos bizarros”. O jogo da peteca sofre por causa de seu nome exótico, mas ele merece estar lá. Tem muita popularidade no Oriente e no Sudeste Asiático, além de um número razoável de praticantes na Europa. É maior que muitas outras modalidades às quais o público se acostumou e, por isso, não contesta muito.

Oficialmente, um esporte de verão precisa ser “largamente praticado” em, no mínimo, 75 países, espalhados por quatro continentes. O conceito é subjetivo: não há clareza sobre o que é considerado “largamente praticado” e, se precisar, algumas modalidades buscam atalhos e entram como disciplinas dentro de um esporte já praticado (como vôlei de praia dentro do vôlei, snowboard como parte do esqui e nado sincronizado e saltos ornamentais dentro de “esportes aquáticos”).

Outra definição oficial é que um esporte só pode entrar se outro sair, uma manobra do COI para evitar o inchaço dos Jogos. Também é relativo. Em 2016, golfe e rúgbi entrarão porque beisebol e softbol saíram. Mas beisebol e softbol são, na prática, um esporte só (um entra como versão feminina do outro). No final das contas, um esporte se torna olímpico se o Comitê Olímpico considerar que ele acrescentará algo a os Jogos.

Ano que vem, a entidade decidirá em seu congresso em Buenos Aires se haverá novas modalidades em 2020. As candidatas são beisebol, softbol, caratê, wakeboard, wushu, esportes em patins, escalada e squash. Não é certeza quantas serão aceitas, nem se alguma será.

Na empolgação, fiz uma lista de dez esportes que poderiam estar nos Jogos Olímpicos. Para vocês entenderem, os critérios que utilizei foram:

1) Considerando que os Jogos Olímpicos são uma grande feira do esporte mundial, precisa ter os esportes mais importantes e populares do planeta;

2) O esporte precisa ser praticado em muitos países, sem se concentrar apenas em uma região do globo (viu, futebol americano?) e ter interesse do público;

3) Permitir competições equilibradas entre concorrentes de países diferentes, de continentes diferentes;

4) Possibilitar um torneio completo mais ou menos dentro do período olímpico (ou seja, MMA está fora, porque um lutador não pode fazer várias lutas seguidas por questão de segurança);

5) No final da lista, na dúvida entre dois esportes, abrir espaço para o que não tiver similares no programa olímpico atual.

As ideias abaixo são isso, ideias. Não pretendo colocar esses dez esportes para eliminar outros dez. Pensando utopicamente, o COI poderia simplesmente incluir essas dez modalidades, sem retirar nenhuma. Não vai caber? Cabe se os Jogos Olímpicos forem ampliados de duas semanas e meia para três semanas. É um evento tão legal, uns dias a mais não seriam ruins.

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Primeiro, vamos para duas modalidades que estão/estarão de forma meia-boca nos Jogos e precisam entrar para valer. Elas não entram na conta, mas precisam remodelar a participação olímpica delas.

Futebol

É uma grande infantilidade da Fifa achar que o futebol olímpico, se for forte, vai ofuscar a Copa do Mundo. Primeiro, porque a Copa do Mundo tem vida própria, e é maior que os Jogos Olímpicos em repercussão global e dinheiro. Segundo, porque o torneio olímpico tem poucas seleções e não abraçaria tantos países quanto a Copa. É um Mundialito, digamos. Terceiro, porque a distribuição de vagas nas Olimpíadas é puramente geográfica, e não por capacidade técnica. A Ásia tem mais vagas que a América do Sul porque tem mais nações que a América do Sul. E, quarto, porque a competição que realmente sofreria com a concorrência olímpica seria a Eurocopa, pois ambas seriam separadas por algumas semanas.

Com a atual distribuição de vagas (3 Europa, 3 Ásia, 3 África, 2 Concacaf, 2 América do Sul, 1 Oceania e 1 país-sede), o torneio não tem o valor de uma Copa do Mundo, mas poderia ser interessante com os melhores jogadores das seleções classificadas. Considerando os torneios continentais mais recentes, os Jogos de Londres teriam Espanha, Itália, Alemanha, Reino Unido, Japão, Austrália, Coreia do Sul, Zâmbia, Costa do Marfim, Máli, Uruguai, Paraguai, México, Estados Unidos e Taiti. Daria um campeonatinho legal, e valorizaria as competições continentais.

Rúgbi

Alguns já pensaram: “esse blogueiro burro não sabe nada! Vai ter rúgbi no Rio de Janeiro!”. Vai nada. Será rúgbi de sete, ou Rugby Sevens, versão com sete jogadores que tem jogos mais curtos, popularidade ainda incipiente e normalmente não é disputada pelas grandes estrelas da modalidade. Isso vai contra o princípio do COI de querer que os esportes sejam representados pela sua elite (ainda que se abra exceção para o futebol). Foi aceito porque o comitê olímpico tinha interesse no mercado representado pelo rúgbi e o formato de sete seria o único que caberia dentro do período em que as Olimpíadas são disputadas. Afinal, o rúgbi tradicional, com 15 jogadores, exige sete dias de descanso dos atletas.

É mesmo? Na Copa do Mundo de 2011, várias seleções entraram em campo com apenas quatro (Canadá, Escócia, Geórgia, Romênia, Estados Unidos duas vezes e Namíbia duas vezes) ou cinco (Japão, Rússia e África do Sul) dias de descanso. Se o rúgbi for em mata-mata de 16 equipes, é possível encaixar no programa olímpico. As oitavas de final seriam um ou dois dias antes da cerimônia de abertura, como já ocorre no futebol. As quartas seriam quatro ou cinco dias depois. A partir daí, dá para adotar descanso de seis dias e fazer a final no domingo do encerramento.

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Agora sim, a lista real de esportes que poderiam entrar nos Jogos Olímpicos:

CRÍQUETE (foto no alto)

Você pode zoar, dizer que parece taco e tal, mas críquete é um dos esportes mais populares do mundo. Claro que sua força se concentra mais em países da Comunidade Britânica, mas não é muito diferente com o rúgbi. As duas modalidades têm popularidade semelhante em Inglaterra e África do Sul. A versão manual do futebol é mais popular em Nova Zelândia, Irlanda, Escócia e Itália e destacadamente mais popular em Gales, França, Argentina e Ilhas do Pacífico. O esporte de taco é mais popular em Austrália, Holanda, Quênia, Zimbábue e Afeganistão e destacadamente mais popular em Índia, Paquistão, Índias Ocidentais (Ilhas do Caribe), Bangladesh e Sri Lanka.

No geral, há um equilíbrio entre os países que realmente gostam de um esporte ou do outro, mas o rúgbi tem a vantagem de ser mais forte na Europa e, por isso, tem mais divulgação global. Mas o críquete merecia consideração, pois atinge em cheio um dos mercados que mais cresce no mundo (a Índia) e proporcionaria uma competição emocionante.

E nem pense no mito de “um jogo de críquete dura cinco dias”. Esse é o formato de jogo mais tradicional, que só é utilizado em ocasiões especiais. As principais competições do mundo são realizadas em partidas de um dia.

FUTSAL

Já está consolidado em dezenas de países e atingiu um nível de competitividade alto. Tem apoio de uma federação importante (a Fifa) e, por isso, consegue parceiros comerciais interessantes. Além disso, poderia ter um atalho dentro do COI, se for considerado como uma disciplina do futebol (e não uma modalidade nova, mesmo atalho usado pelo vôlei de praia). O problema é o Comitê dar uma mão a uma modalidade gerida pela Fifa, considerando o modo como a Fifa sabota o futebol olímpico.

BEISEBOL

Saiba mais sobre o beisebol nos Jogos Olímpicos

Em relação a sua disseminação pelo mundo, o beisebol tem semelhanças com badminton, rúgbi e críquete. É muito conhecido em algumas regiões do planeta, e bastante fraco em todo o resto. Mas o beisebol foi esporte olímpico de 1992 a 2008, o que mostra que se enquadra nas exigências do COI de número mínimo de federações filiadas. A questão do beisebol – que tentou voltar aos Jogos em 2016 e tenta de novo para 2020 – é a falta de apoio da liga norte-americana da modalidade. Como a temporada da MLB ocorre de abril a setembro, os melhores jogadores do mundo não são liberados para os Jogos Olímpicos. O COI não gostou muito da história e tirou o esporte – e, por tabela, o softbol, uma versão light praticada mais por mulheres – do programa de Londres-2012. Mas o esporte quer voltar e, se a MLB contribuir, seria justo o retorno.

SQUASH

O esporte é conhecido, praticado em tudo quanto é lugar, tem organização razoável, dá para passar na TV e não exige grandes instalações. O squash é candidato forte a entrar nos Jogos Olímpicos em 2020, e talvez só não tenha entrado no programa de 2016 porque o lobby britânico, que lhe seria tão favorável, estava concentrado em golfe e rúgbi.

De qualquer modo, se há dúvida sobre a internacionalização do esporte, o top 20 do ranking da PSA (Professional Squash Association) tem jogadores de 9 países (e 4 continentes) diferentes. O esporte está no programa dos Jogos Pan-Americanos, Asiáticos e da Comunidade Britânica.

CARATÊ ou WUSHU (foto abaixo)

Tudo bem, eu acho artes marciais legais – desde que elas não se misturem – e acho que dá para colocar mais uma. Atualmente são cinco esportes de combate no programa olímpico (boxe, luta, esgrima, judô e taekwondo). Cabe mais unzinho, não? Os dois mais fortes são caratê e wushu, que já se candidataram para entrar em 2016 e se tentam novamente para 2020.

O japonês caratê é bastante conhecido e se espalhou bem pelo mundo. Um sinal disso foram os resultados do Mundial de 2010: 11 países (incluindo o Brasil), representando quatro continentes diferentes ganharam medalhas de ouro. O Japão, obviamente potência mais tradicional do esporte, ficou atrás de Sérvia e Itália. A modalidade já está nos Jogos Asiáticos e Pan-Americanos.

O chinês wushu – muitas vezes chamado, erradamente, de kung fu – é dividido em duas modalidades: luta (sanshou) e coreografia (tai chi chuan é um dos estilos). Em Pequim-2008, foi realizada uma competição de wushu, que não teve status olímpico (nem como esporte de exibição). Vantagem: os dois estilos atendem a públicos bem diferentes. Desvantagem: as competições ainda têm domínio da Ásia (sobretudo da China). Ainda assim, o Brasil conseguiu um bronze no evento olímpico de 2008.

SKATE

Não sou muito chegado ao conceito de esportes de nota. A competição deixa de ser direta entre os atletas, torna-se uma competição da estética do movimento de um com a do outro. Mas, já que existem vários esportes de nota (ginástica, nado sincronizado, salto ornamental, adestramento, patinação e modalidades de esqui e snowboard), um a mais não machuca ninguém. E por que o skate? Bem, é um esporte relativamente disseminado, fácil de praticar e a instalação esportiva (tanto para street quanto o half pipe) é barata, se insere bem em grandes cidades e pode ficar para a população após os Jogos.

Mas não é só isso. Outra vantagem do skate é aproximar mais os Jogos Olímpicos dos esportes radicais/de ação e atrair um público novo. Atualmente, o que ocorre de mais próximo a isso nas Olimpíadas são algumas competições de esqui e snowboard e o BMX, mas todos eles têm alcance limitado (ou por ser de inverno, ou por ser menos popular dentro do público radical).

O surfe seria uma alternativa, mas tem a desvantagem de exigir praia com boas ondas (nem sempre isso é possível em região próxima de uma sede olímpica) e ser menos atraente para televisão ao vivo. A escalada e o wakeboard são candidatos a entrar no programa olímpico em 2020. Seriam boas opções para modalidade de ação.

HÓQUEI EM PATINS

O hóquei em patins tem quantidade de praticantes razoável, e público decente. O principal problema é a divisão entre as modalidades de patins inline e tradicional. O primeiro tem força em Estados Unidos, Canadá e República Tcheca, mas é muito fraco nos demais. O segundo é forte na parte latina da Europa (Espanha, Portugal e Itália), América do Sul (Argentina, Brasil e Chile) e em ex-colônias portuguesas na África (Moçambique foi semifinalista do último Mundial), mas já é praticada em nível decente por mais nações (Suíça, França, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Holanda) e foi esporte demonstração em 1992. Faria sentido dar preferência à modalidade em patins tradicionais. E, no que virar esporte olímpico, muitos praticantes de inline migrariam para ela.

Tudo bem, pode soar um pouco forçado. Racionalmente falando, o hóquei em patins deveria se organizar e chegar a um consenso sobre suas versões antes de ganhar espaço nos Jogos Olímpicos. Mas é que eu acho legal. O post é meu e eu forço a barra se eu quiser, hehehe.

BOLICHE

Alguns jogos nos acostumamos a ver como brincadeira, mas são esportes sérios, com competições profissionais e praticantes por todo lado. Sinuca e boliche são dois exemplos, e não seria estranho um deles entrar nas Olimpíadas. E por que escolher o boliche? Simples: é mais internacionalizado. Enquanto as competições de sinuca ainda são dominadas por atletas britânicos, o Mundial de Boliche – somando masculino e feminino – teve campeões de 14 países diferentes nos últimos 20 anos. Além disso, já passou perto do programa olímpico: foi esporte demonstração em 1988 e faz parte do programa dos Jogos Asiáticos, Mediterrâneos e Pan-Americanos. Outro bônus do boliche seria a possibilidade de ter Al Bundy ou Homer Simpson conquistando medalhas.

XADREZ

Outro jogo largamente praticado, mas que muitos encaram mais como recreação do que esporte competitivo. De qualquer modo, torneios de xadrez são disputados há décadas, e muitos enxadristas se tornaram pessoas internacionalmente conhecidas. Sua entrada nos Jogos seria interessante para incluir um tipo de modalidade ainda inexistente no programa olímpico: os esportes mentais (os mais conhecidos são xadrez, damas, go, pôquer e bridge).

AUTOMOBILISMO

Saiba mais sobre a relação Jogos Olímpicos e automobilismo

Aí uma questão polêmica. O COI veta esportes com propulsão mecânica, o que mata as aspirações do automobilismo logo de cara. O princípio é correto, pois uma máquina teria participação direta no desempenho de um competidor, o que vai contra o princípio olímpico de valorização do atleta. No entanto, isso já é perfeitamente discutível.

Em vários esportes, equipamentos e materiais se desenvolveram tanto que se tornaram elementos fundamentais nos resultados. Basta ver o que ocorreu com a natação em Pequim-2008, em que a organização disponibilizou os supermaiôs a todos – mesmo quem tinha contrato com fabricante concorrente – para tornar a competição justa. O mesmo vale para a perseguição do ciclismo de Barcelona-1992, com o ouro indo para o britânico Chris Boardman e sua bicicleta especialmente projetada pela Lotus. Além disso, é discutível até que ponto o desempenho de tiro esportivo e tiro com arco não depende prioritariamente da tecnologia da arma utilizada.

Não há perspectivas que o COI mude sua visão sobre esportes a motor, mas deveria ao menos refletir. Se isso ocorrer, o automobilismo é o maior esporte do mundo fora dos Jogos Olímpicos. E é perfeitamente cabível uma competição justa: com karts (tipo de veículo que todo piloto tem algum nível de conhecimento), montados com chassis e motores monomarcas e sorteados no dia das provas. As corridas poderiam ser realizadas em estádios ou ginásios.