Trifon Ivanov era um sujeito único no futebol. O xerife da Bulgária na campanha histórica em 1994; um defensor exemplar pelo empenho dentro de campo, apesar das limitações técnicas; a figurinha mais lembrada dos álbuns da Copa na década de 1990. E também um grande personagem. O Lobo colecionou boas histórias ao longo de sua carreira, direta ou indiretamente relacionadas ao futebol. Agora, parte apenas da memória, desde o falecimento do veterano, vítima de um ataque cardíaco aos 50 anos.

Ivanov não era exatamente um homem afeito a entrevistas. Tinha receio do sensacionalismo dos jornalistas, assim como sofria com seus próprios problemas pessoais. No entanto, deixou como legado uma excelente conversa à revista So Foot, concedida em outubro de 2013. Nesta semana, a publicação francesa resgatou a entrevista com a lenda búlgara. E, abaixo, reproduzimos parte das respostas do ex-jogador. Os melhores causos da conversa que ainda tratou de seus sucessos dentro de campo.

“Quando eu ainda era jogador, comprei um tanque de guerra do exército. Eu tive durante um tempo, mas depois me livrei dele. Eu conduzi o tanque uma ou duas vezes, no campo, apenas para testá-lo e nada mais. Mas um jornal sensacionalista chegou a publicar que eu andava por aí com tanques. Por isso não tenho o hábito de conceder entrevistas”.

“Quando me aposentei, fiz uma viagem para os Estados Unidos. Fui pela primeira vez à embaixada americana na Bulgária, já que não precisei fazer isso para a Copa. Eu tinha que preencher um formulário, declarando os meus bens. Comecei a escrever os modelos de carro que eu tinha. No entanto, o funcionário da embaixada afirmou que havia um erro, pois eu tinha listado apenas cinco ou seis carros, e não todos os meus veículos. Respondi que não havia mais linhas para continuar preenchendo e ele deixou passar”.

“Peguei seis jogos de suspensão na Áustria por dar uma cotovelada em um adversário. Que eu me lembre, tomei só dois cartões vermelhos em toda a carreira e considero ambos merecidos. Eu acertei esse cara porque ele me chamou de ‘búlgaro sujo’. A outra vez foi em um amistoso contra a Itália, em Sofia. O Vialli cuspiu na minha cara e, depois, deixei ele no chão. Eu estava errado em ambas. Mas um ser humano não consegue controlar sempre as suas emoções. Aconteceu o mesmo com Zidane aquela vez”.

“Eu podia ter assinado com o Barcelona, quando Koeman se lesionou. Gente do clube veio me oferecer um contrato, mas o presidente do Betis não autorizou a transferência. Ele disse que a equipe não funcionaria sem mim. E não posso culpá-lo, era uma boa decisão a partir do ponto de vista dele. Mas, se eu tivesse ido para o Barcelona, minha carreira poderia ter tomado um rumo diferente. Você nunca sabe. Foi uma oportunidade única”.

“Troquei minha camisa com Cantona em um jogo contra o Manchester United, pela Champions, em 1996. É um souvenir valioso para mim. Quando jogamos em Old Trafford, eu deveria marcá-lo. Pouco antes do fim do jogo, perguntei se poderíamos trocar nossas camisas, e ele apenas disse ‘ok’. Então, quando o juiz apitou, o time inteiro correu para Cantona, pedindo a camisa. E ele respondeu: ‘Não, esta camisa é para Ivanov’. Foi um momento verdadeiramente precioso para mim, porque um grande jogador demonstrou o seu respeito. Ele não fez gol, de modo que aquilo dizia alguma coisa. Eu tinha feito meu trabalho e ele notou”.

“Cheguei ao Neuchâtel Xamax porque o presidente quis, sem consultar o técnico Gilbert Gress. Então, ele começou a criar problemas comigo, porque eu era o favorito do presidente. Foi antes da Copa do Mundo. Ele proibiu os jogadores de chegarem aos treinos em conversíveis. E é claro que eu fazia questão de chegar em um conversível. Tudo o que ele proibiu, eu fiz. Mas não tinha problema durante os jogos ou com os outros atletas. Certa vez, fui barrado em um jogo e segui para as arquibancadas. Sentei, tomei um café, fumei um cigarro. E o presidente, quando me viu, disse que eu teria que jogar. Entrei aos 15 minutos, ganhamos por 2 a 1 e eu marquei o segundo gol. A torcida me aplaudiu muito”.

“Todo mundo jogou por si próprio na decisão do terceiro lugar da Copa. Eu pedi para o técnico para ser substituído no intervalo, mas ele não quis. Eu nunca vou me esquecer do quarto gol, de Larsson. Eu não consegui pará-lo. Então, disse que ou ele me substituía ou eu saía de campo. E finalmente ele me tirou”.

https://youtu.be/uDw6wkiER2c?t=1m27s

“Não éramos os jogadores mais disciplinados do mundo, isso é verdade. Dimitar Penev [o técnico da seleção entre 1991 e 1996] era muito bom em nos fazer jogar, e não tínhamos qualquer problema com ele. Certos jogadores fumavam quando estávamos na Copa de 1994 e isso surpreendeu os alemães. Mas nunca nos causou qualquer problema. O cigarro não era um problema para mim. Também bebíamos cerveja, uma ou duas, para relaxar. Era um bom momento para se sentir como um homem normal. Se algo é proibido, é ainda pior, porque você vai querer mais”.

“Quando eu jogava na Áustria, aprendi a beber cerveja. Mas, caso contrário, não tomo nada além de uísque. Nada mais. Nunca aguardente ou vodca. Gosto dos escoceses, sobretudo os Black Label, de 12 anos”.

“O respeito aos jogadores não depende de sua aparência, se ele tem chifres ou é cabeludo, mas da qualidade que apresenta nos jogos. É evidente que, quando eu não fazia a barba, nós ganhávamos. Todo mundo tem uma superstição. Meu apelido, o Lobo Búlgaro, foi inventado por outro jogador e não me incomoda. Eu não posso mudá-lo. E posso viver com isso sem me sentir ofendido. Temos um ditado búlgaro que diz: ‘O pescoço do lobo é duro porque ele trabalha sozinho, sem a ajuda de ninguém’”.