“Quando eu caminhava para fora daquele túnel, vestindo o uniforme, era como se eu estivesse rumando para outro planeta. Cada jogo era uma nova aventura. Tudo que eu sempre quis fazer em Belfast era chutar uma bola, e estava fazendo isso de verdade, por um dos maiores clubes na Inglaterra. Uma vez em campo, eu nunca queria que o apito final soasse”. Palavras que ressaltam o espírito simples de George Best, um dos maiores craques que o futebol já teve a honra de contar.

Quando um olheiro do Manchester United viu o garoto de 15 anos arrebentando em Belfast, logo enviou um telegrama ao clube: “Acho que eu descobri um gênio”. Já nas categorias de base, onde o novato encontrava companheiros maiores e mais confiantes, Sir Matt Busby pediu para seus treinadores cuidarem do talento: “Não moldem o estilo do menino. Deixem ele se desenvolver da própria maneira, naturalmente. Ele tem algo de especial”. Dois anos depois, o norte-irlandês já fazia uma estreia cheia de personalidade pelos Red Devils. Ganhou uma chance justo no duelo com o West Brom, líder contra vice-líder do Campeonato Inglês. Não se intimidou com os marcadores, mostrou sua qualidade técnica e participou da jogada que definiu a vitória dos vermelhos por 1 a 0. Logo ali passou a chamar a atenção de todos na Inglaterra.

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Já em 1966, titular absoluto da equipe, Best eclodiu como um dos melhores jogadores da Europa, em sua primeira participação Copa dos Campeões. O chaveamento das quartas de final não tinha sido nada favorável ao Manchester United, após eliminar HJK e Vorwärts Berlim nas fases anteriores. Pegaria o Benfica, um dos maiores esquadrões do continente na época, então vice-campeão do torneio e dono da Bola de Ouro, conquistada por Eusébio. Em Old Trafford, porém, os Red Devils deram sua primeira mostra de força, vencendo um jogo duríssimo por 3 a 2. Só que ainda precisavam encarar o reencontro no Estádio da Luz, a fortaleza dos encarnados.

Antes da partida, Matt Busby pediu para os seus pontas permanecerem recuados durante os 20 primeiros minutos de jogo, para conter a pressão do esquadrão benfiquista e dos 80 mil nas arquibancadas. Precaução ignorada pelo garoto de 19 anos, que partiu para cima e mostrou todo o seu talento. Em seis minutos de bola rolando, ele já abria o placar. Sete minutos depois, ampliava fazendo fila na defesa adversária. Encantou a massa presente em Lisboa, liderando a goleada por 5 a 1 do United, classificado às semifinais da Champions. Mais do que pelos gols, Best impressionou os lusos com suas arrancadas, seus dribles, suas canetas. A sua mágica característica.

“Quando saí do túnel e ouvi o barulho, eu me arrepiei. Mas não senti qualquer medo. Eu sabia que estava pronto. Independente do que acontecesse na partida, este era o tipo de palco para eu jogar. Era o teatro perfeito. Após o primeiro gol, era uma sensação fantástica saber que eu tinha marcado em frente a uma torcida como aquela. Em noites como esta, bons jogadores se tornam grandes. E grandes jogadores se tornam deuses. Era surreal. Vi outros grandes times jogarem assim, mas, dentro de tal experiência, parecia irreal. Estranhamente, por mais que eu reproduza cada um dos 90 minutos na minha cabeça, não me lembro de nada após o apito final”, declarou o craque, em sua autobiografia ‘George Best – Blessed’.

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Após a partida, Best ganhou um apelido sugestivo do jornal A Bola. O ‘Quinto Beatle’ ganhava as manchetes por sua atuação magistral, em tempos nos quais o grupo inglês dominava as paradas de sucesso. O mesmo com o ponta dentro de campo. Centenas de torcedores ensandecidos foram recepcioná-lo junto ao time no aeroporto de Manchester, atônitos por aquilo que tinham visto na TV. A partir de então, a ascensão de Best chegaria a seu ápice em 1968, aos 22 anos: apesar da eliminação para o Partizan nas semifinais de dois anos antes, o norte-irlandês finalmente conquistou a Champions e o Inglês, além da Bola de Ouro.

Ao mesmo tempo, Best descobria outros gostos em sua vida: as bebidas, as mulheres, as noitadas. O melhor momento também marcou o início do declínio. No começo dos anos 1970, o jovem craque já tinha perdido o ímpeto pelo futebol, e pedia para deixar o Manchester United, o que se concretizou em 1974. Depois disso, o gênio viveu de lapsos dentro de campo, e de goleadas fora dele. Encerrou a carreira no ostracismo, em 1984. Em decorrência do alcoolismo, precisou passar por um transplante de fígado, e faleceu após uma série de problemas relacionados, em 25 de novembro de 2005, aos 59 anos. Deixou eternizado o seu talento, o seu estilo de vida e uma frase que bem definiu suas escolhas, embora tivesse se arrependido delas nos últimos momentos de vida: “Gastei muito dinheiro em bebida, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei”.