O Espanyol não é um time de muitas glórias. As quatro taças da Copa do Rei são as maiores. Para piorar a situação, divide cidade com um dos maiores clubes do mundo. Tem que aprender a  desfrutar das pequenas coisas. Entre elas, o gostinho de ter tirado um título espanhol dos dedos do rival Barcelona, nos últimos minutos da penúltima rodada do Campeonato Espanhol de 2006/07, no episódio que ficou conhecido como ‘Tamudazo’.

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O nome faz referência a Raúl Tamudo, atualmente executivo do primo pobre da Catalunha, um ícone do Espanyol: conquistou duas Copas do Rei, é o jogador que mais gols marcou (129) e que mais partidas disputou (340) pelo clube. Para selar a idolatria, fez os dois gols daquele empate contra o Barcelona. “Eu deveria cobrar cada vez que usassem essa palavra (Tamudazo), vão desgastá-la”, brincou, em entrevista ao AS, ano passado. “É uma história bonita, que vou sempre contar para os meus filhos. Foi um momento único, como o Maracanazo”.

A situação da tabela era a seguinte: a duas rodadas do final, Real Madrid e Barcelona estavam empatados com 72 pontos. Os merengues levavam vantagem no confronto direto, por terem vencido, no Bernabéu, por 2 a 0, e empatado por 3 a 3 no Camp Nou. O Sevilla, terceiro colocado, tinha 70 pontos e ainda sonhava com uma reviravolta, embora soubesse que seria altamente improvável ultrapassar os dois gigantes.

O Real Madrid era treinado por Fabio Capello. No ataque, contava com o muito produtivo Ruud van Nistelrooy, autor de 25 gols naquela edição de La Liga, Robinho e Raúl González. Um jovem Higuaín fazia parte do elenco, assim como os brasileiros Emerson, Roberto Carlos e Ronaldo, que foi para o Milan na metade daquela temporada. O Barcelona era o atual campeão europeu, mas já dava sinais de decadência, sob o comando de Frank Rijkaard. Messi despontava e marcou 14 gols na campanha. Ronaldinho foi o artilheiro, com 21.

As partidas começaram juntas. Aos 30 minutos no Camp Nou, Tamudo marcou o seu primeiro na partida, dando ao Real Madrid, que enfrentava o Zaragoza, a esperança de selar o título naquela tarde. Mas Diego Milito fez 1 a 0, de pênalti, e Messi empatou para o Barcelona. Gol polêmico, marcado com sua mão esquerda, como se já não bastassem todas as comparações com Diego Maradona.

No intervalo, os catalães assumiam a liderança, com 73 pontos, contra 72 dos merengues. Mas Van Nislterooy tinha algo a dizer sobre isso. Aos 12 minutos da segunda etapa, empatou para o Real Madrid. No entanto, ao mesmo tempo, Messi colocou o Barcelona em vantagem contra o Espanyol. E, pouco depois, Milito marcou novamente para o Zaragoza. O Real perdia por 2 a 1, e o Barça vencia por 2 a 1.

Tudo mudou, quase ao mesmo tempo: Nistelrooy pegou rebote do goleiro para empatar para o Real Madrid, aos 44 minutos do segundo tempo, e Tamudo completou um lindo passe em profundidade para ampliar a sua lenda com a camisa do Espanyol.

Ou seja, ao fim da 37ª rodada, tudo continuou igual na tabela, após os dois empates por 2 a 2. Bastava ao Real Madrid vencer a última partida para ser campeão. Foi o que fez: 3 a 1 sobre o Mallorca, com dois gols de Reyes. O Barcelona também fez a sua parte, goleando o Gimnástic, por 5 a 1, mas a oportunidade de superar os rivais havia sido desperdiçada. Graças a Raúl Tamudo.