Quais os maiores jogos da história das Eliminatórias? Uma lista sobre o assunto será bastante extensa, não apenas por compreender quase 100 anos de competição, mas também por realmente possuir algumas partidas memoráveis e grandes clássicos regionais. Mas, independentemente da quantidade de confrontos titânicos, uma certeza é a presença do duelo que nesta semana completou 10 anos: o Argélia x Egito de 2009, num jogo-desempate realizado no Sudão para definir quem iria ao Mundial da África do Sul.

A mistura de ingredientes na ocasião era explosiva: jogo único, campo neutro, torcidas inflamadas, gerações históricas, ranços do passado. Tudo isso por uma vaga na Copa. Gerou até mesmo episódios de violência e incidentes diplomáticos. O triunfo dos argelinos por 1 a 0 encerrou um hiato de 24 anos longe do Mundial e iniciou uma década vitoriosa às Raposas do Deserto. Melhor ainda para eles, serviu de revanche por outra partida marcante nas Eliminatórias da Copa de 1990 e impediu que um dos melhores times da história dos Faraós, tricampeão da Copa Africana de Nações, tivesse sua chance no Mundial.

Antes de mais nada, é preciso relembrar o que aconteceu em 1989 entre essas duas mesmas seleções, rivais históricas no Norte de África. Em tempos nos quais apenas dois países representavam o continente na Copa do Mundo, o chaveamento guardou o confronto direto entre Argélia e Egito para a fase final. Os argelinos contavam com sua equipe mais brilhante desde a independência, presente nos dois Mundiais anteriores. Os egípcios, porém, também possuíam sua força após o título da CAN em 1986 e queriam terminar a seca longe da Copa – que durava desde 1934, quando só disputaram uma partida, derrotados pela Hungria.

A primeira partida de 1989 levou 55 mil pessoas a Constantine, na Argélia – um empate sem gols cheio de lances truncados, que deixava tudo aberto para a volta. Mais de 120 mil torcedores abarrotaram o Estádio Internacional do Cairo. Viram o Egito se impor com o triunfo por 1 a 0, em duelo não só lembrado pela classificação ao Mundial da Itália. Aquele seria o chamado ‘Jogo do Ódio’. O único gol aconteceu aos quatro minutos do primeiro tempo. Em um lance brigado, o artilheiro Hossam Hassan mandou a cabeçada que encerrou uma espera de 56 anos aos Faraós. E a jogada geraria a ira dos argelinos contra o árbitro após o apito final. Partiram para cima do homem de preto, alegando uma falta ignorada sobre seu goleiro no tento decisivo.

Em 1984, no Pré-Olímpico, já havia rolado uma batalha campal entre Argélia e Egito. Algo que se repetiu naquele 17 de novembro de 1989. De tão revoltados, os jogadores argelinos começaram a atirar vasos de plantas que estavam ao redor do campo contra as arquibancadas egípcias. Enquanto isso, um torcedor agrediu um atleta das Raposas do Deserto, após pular o alambrado. A briga tomou diversos cantos do estádio e se estendeu ao túnel, envolvendo os dois times.

Como se não bastasse, as duas seleções participariam de uma recepção depois do quente duelo. Os ânimos voltaram a se exaltar e outra vez saiu briga, a ponto de ocorrer uma fatalidade: o médico do Egito acabou cego de um olho, atingido por uma garrafa estilhaçada. Craque da Argélia, o meia Lakhdar Belloumi foi condenado pela justiça egípcia a cinco anos de prisão e, já fora do país, entrou para a lista da Interpol. A carreira internacional de um dos maiores jogadores da seleção argelina acabaria naquele momento. E ele era inocente – segundo relatos, o goleiro reserva das Raposas do Deserto foi quem quebrou a garrafa. Já na Copa Africana de 1990, realizado na própria Argélia, os Faraós só mandaram o seu time B por temerem represálias e ameaçaram até um boicote. Os argelinos magrebinos com a taça.

Até aconteceu um reencontro nas Eliminatórias da Copa de 2002, mas nem de longe o clássico teve o mesmo peso. Afinal, Egito e Argélia compunham uma das chaves mais duras da história do qualificatório, em que Senegal, Marrocos e Namíbia também brigavam pela única vaga. A vitória por 5 a 2 no Cairo pouco serviu aos egípcios. O reencontro em Annaba, com o empate por 1 a 1, foi apenas como jogo de fundo ao confronto direto entre senegaleses e marroquinos na rodada final. Os Leões de Teranga venceram e se classificaram ao seu primeiro Mundial. 

Assim, vinte anos depois do ‘Jogo do Ódio’, o reencontro pelas Eliminatórias da Copa de 2010 parecia mesmo a oportunidade perfeita à revanche entre Egito e Argélia. O embate de 1989 permanecia fresco na memória de muita gente. Além do mais, a rivalidade além do futebol também estendia o ranço entre dois países de grande influência regional e que possuem histórias bastante distintas, com interferências egípcias no contexto interno argelino alimentando a rixa. O campo de jogo reacendeu esses sentimentos. Zâmbia e Ruanda, as outras duas equipes do Grupo C, seriam coadjuvantes naquela disputa. Apenas um iria ao Mundial.

O Egito não tinha voltado à Copa do Mundo desde a classificação em 1990. E merecia reaparecer no cenário internacional, por tudo o que protagonizava no continente. A equipe treinada por Hassan Shehata tinha conquistado os dois títulos anteriores da Copa Africana de Nações, em 2006 e 2008. Contava com um coletivo forte, potencializado por uma coleção de jogadores históricos. O maestro Mohamed Aboutrika era o grande diferencial dos Faraós, orquestrando o setor ofensivo com seu enorme talento. De qualquer maneira, a qualidade se espalhava por todos os setores, com o goleiro Essam El-Hadary, o zagueiro Wael Gomaa, os meio-campistas Ahmed Fathy e Ahmed Hassan. Já na frente, Amr Zaki e Mohamed Zidan formavam uma dupla com rodagem na Europa.

A Argélia também aguardava o seu momento desde o Mundial de 1986. O país atravessou mais de uma década em guerra civil a partir de 1991, o que afetou diretamente o seu futebol. Depois de tantos entraves, aquele parecia o momento perfeito para o ressurgimento das Raposas do Deserto no cenário internacional. Afinal, a federação iniciava uma política massiva de recrutar também os descendentes de argelinos nascidos na França, inclusive aqueles que passaram pelos Bleus na base. Era a cartada para uma equipe realmente de qualidade, em que atletas como Madjid Bougherra, Rafik Halliche, Abdelkader Ghezzal, Rafik Djebbour e Karim Ziani engrossavam uma lista com tarimba nas principais ligas europeias. O técnico Rabah Saâdane dirigia o renascimento, formando um time com mentalidade defensiva.

O primeiro embate aconteceu em 7 de junho de 2009, na cidade argelina de Bilda. Os ânimos ainda não haviam chegado ao ápice da tensão. As duas equipes vinham de empates na primeira rodada e começavam a definir seus caminhos no Grupo C. E houve até mesmo um esforço diplomático para evitar que o ranço atrapalhasse o duelo. Presidente argelino na época, Abdelaziz Bouteflika interveio para que Belloumi fosse absolvido da condenação de 20 anos antes, finalmente saindo da lista da Interpol. As seleções pareciam dispostas a escrever um capítulo diferente. Quem não fazia isso era a imprensa, insuflando beligerância no noticiário.

Para fugir do ruído, a preparação dos times sequer aconteceu em seus respectivos países. Os egípcios foram recebidos com flores no desembarque à Argélia. Além disso, o Estádio Mustapha Tchaker contou com um fortíssimo esquema de segurança, que incluiu 5 mil agentes. Entre os 26,5 mil presentes nas arquibancadas, não havia sequer um menor de idade, barrados pela própria organização. Sem tumultos, os argelinos cumpriram o mando de campo e venceram por 3 a 1. Todos os gols saíram no segundo tempo. Em uma blitz, as Raposas do Deserto anotaram seus três tentos entre os 15 e os 27 minutos. Karim Matmour abriu a contagem num chute da entrada da área, Ghezzal ampliou de cabeça e Djebbour definiu num contra-ataque. Aboutrika só descontaria no final.

A sequência das Eliminatórias ajudou a alimentar as expectativas para o reencontro. Argélia e Egito se firmavam como os dois concorrentes à vaga na Copa do Mundo. Ambos conquistaram os nove pontos em disputa nas três rodadas seguintes, emendando três vitórias contra Ruanda e Zâmbia. Desta maneira, o reencontro no Cairo, válido pela última rodada, ganhou as dimensões mastodônticas de uma final.

Os argelinos se classificariam ao Mundial com um empate ou mesmo com a derrota por um gol de diferença, contando com uma vantagem de dois tentos no saldo antes do confronto direto. Os egípcios, por outro lado, precisavam de um triunfo por três gols de diferença se quisessem encerrar a campanha naquele momento e carimbar o passaporte. Dois tentos de saldo favoráveis aos Faraós deixariam os rivais absolutamente empatados em todos os números no Grupo C e forçaram um jogo-extra – ou um sorteio, se a Fifa assim achasse mais prudente. Pois é claro que tudo acabou conspirando para que o cenário mais dramático acontecesse no clássico.

Semanas antes da partida, as tensões cresceram no Egito e na Argélia. Os clamores nacionalistas soavam o alarme, enquanto os dois países passaram por uma onda de ataques virtuais. Hackers egípcios derrubaram um site da imprensa da Argélia e, em represália, um hacker argelino também invadiu o site do principal jornal do Egito. Os governos tentavam botar panos quentes, mas o clima bélico se instaurou.

Na antevéspera do jogo, ao sair do aeroporto, o ônibus das Raposas do Deserto foi atingido por pedras. Um dos vidros se estilhaçou e machucou três jogadores, bem como o médico. Pior, a imprensa egípcia acusava o caso de “fake news”, como se os próprios jogadores argelinos tivessem quebrado os vidros para simular a violência e forçar a realização do confronto em outro lugar. Os relatos dos jornais incluíam várias suposições, dizendo até que os atletas agrediram o motorista do veículo – que reforçava a versão. Porém, a gravação de um documentário pelo Canal+ trazia imagens que indicavam o incidente e o próprio observador da Fifa confirmou as lesões dos jogadores. Os magrebinos diziam que a polícia recuou e facilitou a ação.

Obviamente, a troca de acusações só atrapalhava uma partida que já tinha motivos suficientes para preocupar. Ainda assim, a Fifa bancava o duelo, pedindo para as autoridades providenciarem o máximo de segurança. Em 14 de novembro de 2009, a bola rolou no Estádio Nacional do Cairo, diante de 75 mil torcedores – apenas 2 mil argelinos, descontentes com a baixa carga de ingressos. O Egito também cumpriria sua missão ao arrancar a necessária vitória por 2 a 0, em uma batalha que só terminou resolvida os 50 minutos do segundo tempo.

Dentro de campo, os sinais do alegado ataque ao ônibus eram visíveis em dois jogadores da Argélia. Khaled Lemmouchia e Halliche usaram bandagens na cabeça por causa dos cortes. Além disso, uma sonora vaia das arquibancadas abafou o hino dos visitantes. A falta de concentração pareceu pesar contra as Raposas do Deserto, que sofreram o primeiro gol logo aos três minutos. Aproveitando um rebote do goleiro Lounes Gaouaoui, Zaki abriu o placar ao Egito.

De qualquer maneira, os Faraós ainda precisavam de mais um tento para evitar a eliminação no torneio. O sofrimento não tinha fim e se estendeu até os acréscimos do segundo tempo, quando Emad Moteab despontaria como herói. No quinto minuto adicional, em meio ao abafa egípcio, o atacante aproveitou o cruzamento da esquerda para emendar a cabeçada firme. A bola quicou no gramado e venceu o arqueiro. Poucas comemorações de gol foram tão vibrantes quanto aquela, estremecendo todo o estádio. Até invasão de campo rolou. Aliviado, o Egito ganhava sobrevida, por mais que, pela celebração, parecesse já ter carimbado o passaporte.

Não houve tempo para mais nada. Os 2 a 0 no placar sacramentavam campanhas exatamente idênticas entre Argélia e Egito – nos pontos, nas vitórias, no número de gols marcados, no número de gols sofridos. O único potencial diferencial era o tento egípcio fora de casa no confronto direto, mas isso não entrava como critério de desempate. Ciente da possibilidade, a Fifa já alinhara o jogo extra para 18 de novembro, quatro dias depois. Cada federação sugeriu um campo neutro para a terceira partida e, após um sorteio, venceu o Sudão, indicação dos egípcios – os argelinos preferiam a Tunísia. A guerra mental entre os dois países ganharia uma extensão ainda mais explosiva.

As horas posteriores ao jogo no Cairo colocavam mais dinamite na bomba. A imprensa argelina publicou que sete torcedores do país morreram em embates no Cairo. O próprio embaixador da Argélia na capital negou o episódio, embora realmente ao menos 32 pessoas tenham ficado feridas de ambos os lados, sendo 20 magrebinos. Não que a situação estivesse tranquila também no território da Argélia. A população local atacou comércios egípcios no país, o que levou o Egito a chamar seu embaixador em Argel de volta. Mesmo na França, descendentes argelinos protagonizaram episódios de vandalismo e a polícia em Marselha prendeu oito pessoas.

O desempate aconteceu no Estádio Al-Merrikh, da cidade de Omdurman, a mais populosa do Sudão – próxima à capital Cartum, localizada na margem oposta do Rio Nilo. Ironicamente, o ônibus do Egito também seria atingido por pedras ao sair de um treinamento, mas desta vez sem feridos. Diante de todos os riscos, o governo sudanês destacou um contingente de 15 mil policiais para garantir a segurança da partida. Também ordenou um esvaziamento das ruas no dia, fechando escolas e repartições públicas.

Um número massivo de torcedores compareceu a Omdurman. Cada seleção ganhou 9 mil ingressos, mas muitos egípcios e argelinos compraram entradas que deveriam ser destinadas a sudaneses. Além disso, houve uma superlotação do estádio, acima do total de bilhetes disponibilizados. As estimativas apontavam para 50 mil presentes, longe dos 36 mil destacados inicialmente. E os rumores não cessaram. A imprensa egípcia acusou argelinos de atacarem seus torcedores no Sudão. O próprio Ministério da Saúde relatou 20 pessoas machucadas. Já os diplomatas do Sudão apontaram para apenas “alguns feridos em poucas confusões”, sem especificar os números, algo referendado pela imprensa estrangeira presente. Ao menos desta vez, o futebol prevaleceu.

Em todo o contorno do campo, militares sudaneses faziam a segurança. E, mesmo com as tensões, o jogo conseguiu fluir. Foi uma partida com um bom número de oportunidades de gol, em que ambos os goleiros prevaleciam. Todavia, a Argélia pôde sorrir ao conquistar a vitória por 1 a 0. O gol decisivo aconteceu aos 40 do primeiro tempo. Antar Yahia recebeu no lado direito do ataque e acertou um potente chute de primeira, rente à trave, que venceu El-Hadary. Do outro lado, Fawzi Chaouchi se tornou o herói. O arqueiro das Raposas do Deserto conteve a pressão dos Faraós na etapa complementar e confirmou o triunfo.

O apito final foi seguido por uma comemoração calorosa da Argélia, mesmo com todas as limitações. Houve uma pequena invasão de campo e os jogadores celebraram bastante com o seu setor nas arquibancadas. Já na volta ao país, foram recebidos como se tivessem conquistado a própria Copa do Mundo. Carregaram uma réplica do troféu, fizeram um desfile em carro aberto para milhares de pessoas e foram recebidos também pelo presidente. Nas cidades francesas, milhares de imigrantes e descendentes saíram às ruas para festejar. Mais de 10 mil argelinos ocuparam a Champs-Élysées.

Por conta dos incidentes no Cairo, a Fifa puniu o Egito com duas partidas fora da capital na edição seguinte das Eliminatórias. A federação egípcia até entrou com uma denúncia de agressão aos seus torcedores no Sudão, mas a confederação fechou o processo, sem os indícios necessários. Já no Cairo, torcedores egípcios provocaram tumultos diante da embaixada argelina, resultando em 35 feridos e 20 presos.

A troca de acusações permaneceu nas semanas seguintes. As relações diplomáticas entre os países esfriaram. A situação se apaziguou apenas em dezembro, com a mediação dos governos de Sudão e Líbia. Responsabilizada por incendiar o debate ao redor da partida, a imprensa recebeu ordens para cessar as notícias sensacionalistas sobre o assunto. Também houve um acordo para reparação de danos financeiros, especialmente pelos comércios egípcios atacados por argelinos. Então, a reaproximação aconteceria.

De qualquer maneira, surgiram acusações de que os governos também estariam por trás dos clamores nacionalistas naquele momento, orquestrando a mídia – sobretudo o Egito. Hosni Mubarak tentava legitimar o poder de seu filho, na tentativa de alçá-lo à sucessão no comando do governo. Intelectuais do país chegaram a publicar um manifesto em que denunciavam a cortina de fumaça realizada pelo presidente, que se mantinha no poder desde 1981. Pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 2011, Mubarak seria deposto durante a Primavera Árabe.

Assim como acontecera em 1990, o Egito teve a chance de dar o troco na Argélia durante a Copa Africana de Nações. Se 20 anos antes os argelinos não tiveram problemas para eliminar o time B dos egípcios na fase de grupos, em 2010 os Faraós conquistaram um enorme resultado. O time de Hassan Shehata goleou os rivais por 4 a 0 nas semifinais, abrindo o caminho ao tri continental, faturado em cima de Gana. Ainda assim, as Raposas do Deserto tiveram o gosto de disputar a Copa do Mundo em 2010. Eliminada na fase de grupos, a equipe chegou a segurar o empate por 0 a 0 contra a Inglaterra, em seu único ponto conquistado na chave, que também incluía Estados Unidos e Eslovênia. Foi o início de uma ascensão que culminou na inesquecível campanha no Mundial de 2014 e na reconquista da Copa Africana em 2019.