Deyverson permaneceu no futebol brasileiro por pouco mais de dois anos e conseguiu a proeza de ser execrado por boa parte dos torcedores – inclusive do próprio Palmeiras. A personalidade inconsequente e o histórico de confusões pesam a esta antipatia, enquanto os bons momentos com a camisa alviverde minguaram. Com a presença de Luiz Adriano no ataque, o clube preferiu se desfazer de Deyverson e outras torcidas brasileiras rezavam para que as especulações ao redor de seu nome não se concretizassem. A ele, muito mais negócio foi voltar à Espanha e desfrutar do moral que ainda resiste no país. Nesta terça, o Getafe anunciou o empréstimo do brasileiro pelos próximos seis meses.

O retorno de Deyverson à Espanha se dá muito mais por sua história em La Liga do que pelo que vinha fazendo no Brasil. Embora tenha rendido razoavelmente em seus primeiros meses no Allianz Parque e também possua sua parte no título do Brasileirão de 2018, a irritação ao longo de 2019 foi visível. O centroavante pouco entregou e manteve números bem ruins a um jogador de sua posição. Tirando a tal “casquinha”, a falta de recursos técnicos pesou contra. Seis meses em Getafe serão importantes ao jogador de 28 anos.

Em duas temporadas por La Liga, afinal, Deyverson fez um bom trabalho. Também não teve números exorbitantes e não escapou dos problemas, colecionando entreveros e cartões. Em compensação, cumpriu os anseios de clubes pequenos, com bem menos expectativas e exigências. Trazido do Colônia, o atacante se salvou individualmente no Levante de 2015/16. Apesar do rebaixamento inapelável, anotou nove gols e até marcou contra o Real Madrid. Isso abriu as portas para que permanecesse na primeira divisão e assinasse com o Alavés.

Já a temporada no País Basco serviu para construir certa reputação a Deyverson, nem sempre positiva, mas que deixasse seu nome em evidência. Num clube que acabava de retornar à elite, foi importante a distância em relação ao Z-3, sobretudo pelo bom rendimento durante o primeiro turno do Campeonato Espanhol. O centroavante marcou contra Barcelona (abrindo o histórico triunfo por 2 a 1 dentro do Camp Nou) e Real Madrid em seus primeiros meses com o Alavés, totalizando sete tentos na competição. Além disso, foi uma das referências na campanha até a decisão da Copa do Rei em 2017.

Deyverson, também na Espanha, nutriu sentimentos conflitantes quanto à sua personalidade. Sua disposição para brigar pela bola e tentar recuperá-la era apreciado pela torcida do Alavés, um time que se contentava com a sobrevivência. Da mesma forma, ganhou as manchetes com um nobre gesto após a semifinal da Copa do Rei, quando saiu para consolar e abraçar os torcedores do Celta após a eliminação. O jeito provocador, de qualquer forma, ainda fazia parte de seu repertório. O ápice aconteceu na célebre troca de cusparadas com Diego Godín durante um jogo contra o Atlético de Madrid.

Acima dos problemas dentro de campo, o que pesou ao Palmeiras para levá-lo em 2017 foi o impacto no Alavés. Considerando a escassez de centroavantes no futebol brasileiro, Cuca avaliou que era um bom negócio confiar em Deyverson e assim o convenceu a jogar pela primeira vez na elite do Brasileirão. De novo, é isso que parece preponderar ao Getafe. Os Azulones pensam mais na contribuição que o centroavante pode fazer do que exatamente nos cartões amarelos aos montes, nas confusões infantis e nas simulações.

E, olhando para a situação do time, certamente Deyverson se dá bem. O Getafe se estabeleceu como um clube competitivo desde a última temporada. Ocupa a quinta colocação em La Liga, a dois pontos da zona de classificação à Champions, além de ter avançado aos 16-avos de final da Liga Europa. O desafio contra o Ajax se promete bastante duro e o favoritismo pesa aos oponentes. Ainda assim, sonhar com a vaga na Liga dos Campeões parece possível, diante da boa sequência recente dos Azulones. São seis vitórias e duas derrotas nas últimas dez rodadas.

Treinador do Getafe, Pepe Bordalás sempre escala o seu time no 4-4-2. Deyverson vem como mais uma opção ao ataque, com o ídolo Jaime Mata e o capitão Jorge Molina dominando a titularidade no setor, além de Ángel Rodríguez muitas vezes saindo do banco para marcar gols. O estilo de jogo dos Azulones, com muitas bolas longas e cruzamentos, beneficia o brasileiro. Mas ele precisa ter consciência de que chega para somar, dificilmente para ser titular.

Seis meses não oferecem muito tempo para Deyverson causar impacto. Terá que se provar mais nos treinos, quem sabe para descolar uma transferência definitiva ao Getafe – que, apesar das alternativas atuais à linha de frente, vê o trio principal com todos já acima dos 32 anos. A cláusula de compra está estipulada em €5,5 milhões, que pode até se reduzir com o cumprimento de metas. Por mais que outros clubes brasileiros tenham negociado com o centroavante, retornar ao futebol espanhol parece o melhor à sua carreira neste momento. Precisará, agora, agarrar a chance e preponderar mais pela energia que dará à linha de frente do que por banalidades e polêmicas.