O assunto principal e inescapável em relação à convocação da seleção brasileira é algo que já se sabia desde a divulgação do calendário pela CBF: as Datas Fifa não são respeitadas e os clubes, que preferem não brigar de verdade por algo de extremo interesse, lidarão com os desfalques na reta final do Brasileirão. Dito isso, é preciso apontar que há novidades importantes na lista de Tite. Uma delas, até com certo atraso: o reconhecimento ao talento de Renan Lodi como uma das opções à lateral esquerda. O bom futebol, visível desde os tempos de Athletico Paranaense, ganhou uma nova vitrine no Atlético de Madrid, e o treinador o levará.

Durante certo tempo, a lateral esquerda era das posições mais bem servidas na seleção brasileira. Durante os últimos anos, era possível contar com dois dos melhores do mundo, Marcelo e Filipe Luís. Entretanto, diante da queda de um e das limitações em relação ao outro, as chances a Alex Sandro se tornaram maiores. O jogador da Juventus vinha pedindo passagem há algum tempo, de fato. Mas não dá para dizer que aproveitou bem seus momentos na Seleção, sobretudo na última Data Fifa, com algumas atuações ruins. A chance a Lodi era um tanto quanto urgente.

Pode-se até justificar que o pouco tempo como titular no Athletico Paranaense servia de barreira a Renan Lodi durante o segundo semestre de 2018. Porém, o lateral era protagonista de uma das melhores equipes do país. Foi essencial ao longo da campanha na Copa Sul-Americana, garantindo que as melhores jogadas do time de Tiago Nunes fluíssem pelo lado esquerdo. Em meio às convocações conservadoras de Tite, com espaço limitado às renovação, o rubro-negro não ganhou vez no ano passado. Precisou seguir comendo a bola na Arena da Baixada.

Na Data Fifa de março, a última para arrematar a convocação à Copa América, Lodi também não teve lugar. Jogou muito bem na fase de grupos da Libertadores e nada de ser chamado. Nos compromissos de setembro, Tite ainda não apostou no lateral, dando prioridade a Jorge. Somente agora é que a justíssima listagem se consuma. Precisou começar bem no Atlético de Madrid, destaque já na pré-temporada, antes de fazer partidas consistentes sob as ordens de Diego Simeone neste início de Campeonato Espanhol.

Aos 21 anos, Lodi possui muito mais qualidade do que sua experiência indica. É um lateral com muita técnica para construir o jogo, o que o tornava um diferencial ao Athletico. Aparece no apoio e contribui com gols ou assistências. Além disso, a tendência no Atlético de Madrid é a de que aprimore sua parte defensiva. Neste sentido, a participação do novato no combate aos adversários é perceptível. E, apesar da expulsão contra o Getafe na estreia do Espanhol, se redimiu com uma grande atuação na emocionante vitória sobre o Eibar, considerado um dos melhores do time nos 0x2 que virou 3×2.

Uma pena que o reconhecimento a Renan Lodi só aconteça quando ele já está fora do país, quando sua capacidade era óbvia a quem acompanhasse os jogos do Athletico Paranaense. Aos rubro-negros, que lamentaram não ter uma despedida digna de seu prodígio por causa da intransigência da CBF após uma convocação olímpica em maio, ao menos resta o orgulho pela “cria”. O jovem é um nome natural para o Pré-Olímpico de 2020, apesar de alguns bons concorrentes, como Guilherme Arana e Felipe Jonatan. Neste momento, mesmo com a pequena amostragem, Lodi é candidato para ir muito além do sub-23 e mirar a Copa de 2022.

Além do lateral, o Athletico rendeu outros assuntos na convocação. Santos merece ao menos a observação como terceiro goleiro. Já no meio-campo, talvez a principal ausência seja a de Bruno Guimarães. Tite preferiu chamar Matheus Henrique, também em grande nível com o Grêmio, e permitiu que o rubro-negro fizesse um “estágio” na seleção olímpica – como ocorrera com o tricolor, presente desde o Torneio de Toulon. De qualquer forma, o meio-campista do Furacão se indica mais do que pronto para o desafio na equipe principal do Brasil, especialmente pelas atuações excepcionais na fase decisiva da Copa do Brasil.

Infelizmente, ver Matheus Henrique convocado na reta decisiva do Brasileirão não é necessariamente motivo de orgulho ao Grêmio, assim como o Athletico Paranaense se virará sem Bruno Guimarães de outras formas. Renan Lodi, já desimpedido do entrave lamentável imposto da CBF, poderá ser apreciado sem tal debate. A convocação não é garantia de emplacar de cara. Porém, o defensor já demonstrou em outras ocasiões que não precisa de tempo para se adaptar. Sua ascensão costuma ser rápida.