Nem sempre o sucesso na Copa do Mundo garante, de imediato, a chance de buscar novos rumos na carreira. Alireza Beiranvand é um exemplo: o goleiro foi uma das grandes figuras da seleção iraniana no Mundial de 2018 e pegou até pênalti de Cristiano Ronaldo. Porém, não seguiria ao futebol europeu. O arqueiro permaneceu no Persepolis, idolatrado por uma das maiores torcidas de seu país. E, depois de ganhar mais um título nacional nesta semana, o camisa 1 anunciou seus novos rumos. Dois anos após a boa impressão na Rússia, Beiranvand se testará na Europa e defenderá o Royal Antuérpia, da Bélgica.

Beiranvand virou um grande personagem na Copa do Mundo, mais até por sua história de vida do que pelo nível apresentado na competição. Nascido em uma família nômade, era o filho mais velho e deveria ajudar a cuidar do rebanho de ovelhas. Seus pais não achavam que o futebol daria futuro. Assim, enfrentando a objeção dentro de casa, o adolescente fugiu em busca de uma oportunidade em Teerã. Com a ajuda de um parente, pegou um ônibus à capital e tentou a sorte. Sem dinheiro, precisou dormir nas ruas e chegou a acordar rodeado de moedas, ao pensarem que ele era um mendigo.

Após conhecer o treinador de um clube local, Beiranvand passou a dormir na porta da agremiação para ganhar um teste. A princípio, ele teria que pagar uma mensalidade, mas a insistência foi tanta que a chance veio. A partir de então, começou a dormir na casa de um colega. Depois, na tecelagem onde arranjou um emprego. Ainda trabalharia em um lava-jato, em uma pizzaria e como gari, varrendo as ruas de Teerã. Com tamanha persistência, virou profissional no Naft Teerã em 2011, aos 19 anos – pouco depois de ser brevemente dispensado pelo clube, ao se lesionar jogando em uma equipe amadora. De lá despontou à seleção em 2015 e se transferiu ao Persepolis em 2016.

Desde então, Beiranvand é reconhecido como um dos melhores goleiros da Ásia. Ficou nove jogos consecutivos sem tomar gols nas Eliminatórias para a Copa de 2018 e teve seus momentos no Mundial. Também passou a erguer títulos com o Persepolis e foi tetracampeão nacional em suas quatro temporadas com o clube, além de vice-campeão da Champions Asiática em 2018. Já em 2019, protagonizou a boa campanha do Irã na Copa da Ásia, eleito o melhor jogador do país no ano e o segundo melhor em atividade no continente – mesmo após falhar na semifinal contra o Japão. Era até de se estranhar que a oportunidade na Europa demorasse tanto.

As portas se abrem, enfim, através do Royal Antuérpia. O tradicional clube belga vem em crescente desde que conquistou o acesso à primeira divisão em 2017 e terminou a última edição da liga nacional na quarta colocação. Estará na próxima Liga Europa, na qual começará a partir das preliminares. O técnico é Ivan Leko, veterano da seleção croata que conquistou o título da liga com o Club Brugge há dois anos. Já o elenco reúne alguns jogadores rodados, como o atacante Dieumerci Mbokani e o meia Lior Refaelov, além do lateral Ritchie de Laet. O também tarimbado Sinan Bolat, que foi o goleiro titular na última temporada, não teve o seu contrato renovado. Kevin Mirallas e Steven Defour foram outros a deixar o elenco.

Prestes a completar 28 anos, Beiranvand chega inicialmente por três temporadas ao Royal Antuérpia. O investimento é baixo, em transferência que custou apenas €600 mil ao clube belga. O negócio deveria ter sido fechado em junho, mas se arrastou por causa da pandemia, com as restrições das viagens entre Bélgica e Irã. Nesta semana, enfim, o goleiro passou pelos exames médicos e assinou seu vínculo. Outro reforço interessante da equipe é o meia Koji Miyoshi, que esteve entre os destaques do Japão na última Copa América e fez dois gols contra o Uruguai.

Beiranvand terá tempo para escrever seu nome no Royal Antuérpia e, quem sabe, descolar uma transferência para uma liga maior. O goleiro possui ótima envergadura e elasticidade, apesar dos momentos de instabilidade e das saídas em falso pelo alto. Além disso, os lançamentos longos com os braços são armas excelentes aos contragolpes. Pelo que já fez no Irã, não há muitas dúvidas de que pode se dar bem na Antuérpia. Não contará com a idolatria de seus compatriotas no Estádio Azadi, mas pode se provar num nível acima do já visto nas competições com sua seleção.