Destaque na Ucrânia e amigo do Drácula, Moraes conta como sua carreira decolou na Europa

Ligas de menor expressão na Europa são um caminho comum para atletas brasileiros que não conseguiram encontrar espaço nos principais clubes do Brasil e que, portanto, também não atraíram interesse de equipes tradicionais do Velho Continente. Júnior Moraes, autor do gol do título do Santos no Paulistão de 2007, passou por algumas desilusões no futebol brasileiro e, sem oportunidades, viu no futebol romeno a porta de entrada para o futebol europeu. Mais de cinco anos depois, o percurso escolhido por Moraes parece ter sido o acertado, e no futebol ucraniano, o atacante do Dynamo Kiev encontrou o lugar adequado para ganhar destaque e se desenvolver.

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Revelado pelo Santos em 2007, Moraes teve temporadas repletas de dificuldade no Brasil. Além das lesões e da falta de sequência nas três equipes pelas quais passou (foi emprestado pelo Peixe à Ponte Preta e ao Santo André), o atacante aponta a tristeza com assuntos relacionados à administração do futebol brasileiro como motivadores para a busca por um lugar fora do país. Até mesmo o papel de pressão exercido pela imprensa teve sua influência, embora, em entrevista à Trivela, o próprio jogador relativize isso, afirmando que no Brasil “as pessoas respiram futebol” e que isso leva a uma maior pressão. A maior tranquilidade para trabalhar em centros em que o futebol é menos tradicional também ajudou a jogador a deslanchar sua carreira.

Seu primeiro clube na Europa foi o Gloria Bistrita, da Romênia, para o qual se transferiu em fevereiro 2010, no meio da temporada europeia. Seu futebol surtiu efeito imediatamente no novo time, anotando 10 gols em 17 partidas na segunda parte do Campeonato Romeno e ajudando a equipe a fugir do risco do rebaixamento. Fora de campo, levou uma vida pacata em Bistrita, na região da Transilvânia. O atacante conta à Trivela que, Eleito o melhor jogador da liga romena em 2010, o brasileiro foi contratado pelo Metalurh Donetsk, da Ucrânia, passou uma temporada no novo time, mas não jogou. Acabou acertando sua ida para o CSKA Sofia, da Bulgária, na campanha seguinte.

Apesar da temporada de quase hiato no Metalurh, precisou apenas de sequência no time búlgaro para demonstrar novamente seu faro de artilheiro, anotando 16 gols pela equipe, que acabou na segunda colocação do Campeonato Búlgaro de 2011/12. Retornou ao Metalurh e, com a maior sequência de titularidade de sua carreira, estabeleceu-se como um dos melhores atacantes do futebol ucraniano.

Nas três temporadas que disputou em sua segunda passagem pelo Metalurh, Moraes tornou-se o grande jogador do time, em especial na campanha de 2013/14, em que anotou 19 gols no Campeonato Ucraniano. Paralelamente, teve que lidar com os conflitos separatistas que tomaram conta do país, mudando-se de Donetsk para Kiev, assim como aconteceu com o Shakhtar. A capital ucraniana acabou virando a residência fixa do brasileiro a partir desta temporada, quando acertou com o Dynamo Kiev, que já tinha interesse em seu futebol um ano antes.

Com tantos anos de experiência no país do Leste Europeu, Moraes tem propriedade para falar do futebol ucraniano, e é sobre isso que conversamos com o atacante, que ainda comentou sobre seu início de carreira na Europa, o fanatismo da torcida do CSKA Sofia e a crise pela qual o time passa atualmente, a adaptação ao futebol da Ucrânia e o atual momento do Dynamo, que disputa com o Chelsea e o Porto uma vaga nas oitavas de final da Champions League. Por causa de algumas dores, Moraes foi poupado pelo treinador nos últimos dois jogos do time na competição, contra os Blues, mas o jogador está pronto para voltar à equipe titular contra o Porto, no que considera a “final” do Dynamo na Liga dos Campeões.

Trivela: Como foi sua ida para a Romênia?

Moraes: Tive um ano muito bom no profissional do Santos, um ano promissor, e depois, com a mudança de treinador, tive poucas oportunidades na temporada seguinte (à de estreia). Meu contrato então acabou, passei pela Ponte Preta e pelo Santo André. Foram experiências muito ruins para mim, sem oportunidades para jogar. Os anos de 2008 e 2009 foram complicados, eu estava um pouco desiludido com o futebol do Brasil, com questões como a organização, algumas coisas que me deixavam triste. Tive proposta para ir para Portugal e para a Romênia, e a da Romênia foi mais interessante.

Vi na internet algumas coisas sobre o clube (Gloria Bistrita), que tinha estrutura boa e era organizado, e decidi aceitar o desafio. Eu precisava mudar, precisava de uma reviravolta. Fui nessa aventura, e aí minha carreira decolou, tive uma sequência de jogos. Eu sabia que minha chance era aquela, não podia deixar passar a oportunidade. Dediquei-me ao máximo e comecei a ir muito bem. Em um ano lá, jogando a parte final do Campeonato Búlgaro, acabei sendo vice-artilheiro da competição, jogando de dezembro a julho. Depois, peguei o início da temporada 2010/11, fui nomeado o melhor atacante da liga da Romênia, e foi aí que as coisas começaram a dar certo.

Por mais que a Romênia não seja tão popular, tão conhecida como países como Portugal, Espanha e Itália, guardo boas lembranças de lá. Gostei do futebol de lá, que é de qualidade.

Você conheceu a Transilvânia lá? Era um lugar que te fascinava? Levou amigos e parentes curiosos em conhecer? Tem alguma história legal dos tempos de Romênia?

É engraçado. Eu morava no interior, em uma cidade muito bonita, colonizada por alemães, bem organizada, bastante receptiva, mas bem interiorana, na Transilvânia. Quando eu recebia visitas, o ponto turístico era o Castelo do Drácula, então eu levei para lá maioria das pessoas que foi me visitar. Até fiquei amigo do Drácula.

Há alguns meses, o CSKA Sofia caiu para a terceira divisão e vive uma grave crise financeira. Como estavam as coisas quando você estava por lá? Como era sua relação com o torcedor? Ele é muito apaixonado?

Quando acertei com o CSKA Sofia, o clube já tinha algum problema financeiro. Algumas coisas haviam acontecido, mas até então ainda pagavam salários, prêmios, estavam caminhando. Mas depois houve um problema com o presidente, que acabou sumindo e abandonando o clube, que deixou de pagar as dívidas e foi caindo, sendo punido.

(A torcida do CSKA Sofia) Foi uma das torcidas que mais me impressionaram na Europa, daquelas com que tive contato. São torcedores maravilhosos, fanáticos, que já fizeram campanhas de doação para tentar salvar o clube. No Brasil, você tem as torcidas de Corinthians e Flamengo, que são fanáticas, e acho que eles lembram essas torcidas, que têm muita paixão pelo clube.

Ainda tenho contato com algumas pessoas de lá, e, realmente, os torcedores estão muito chateados, tristes, até porque o novo presidente quer mudar o nome do clube para se livrar da dívida que herdou ao assumir o comando. Querem se livrar disso, mas os torcedores são contra, por causa da história, e isso, de uma forma ou de outra, seria mexer na história.

Futebol ucraniano

Sobre o conflito na Ucrânia: isso mudou alguma coisa em sua rotina lá em Donetsk? E o que mudou agora que você está em Kiev?

Os primeiros dois anos na Ucrânia foram ótimos, porque as condições do clube (Metalurh Donetsk) eram ótimas. Tinha avião privado, o centro de treinamento tinha seis campos oficiais, em perfeitas condições, um hotel, um restaurante, uma sala de cinema. Era uma estrutura de primeira. O clube estava crescendo muito, tinha muita ambição. Quando acertei o contrato, o fiz por causa desses projetos de crescimento que eles tinham.

Ninguém esperava por essa situação em Donetsk. Nenhum jogador ou trabalhador que sai do Brasil espera passar por uma situação de guerra, é muito triste. Nem falo por mim, porque sou estrangeiro, minha família não está inteiramente lá. Fico triste pelas pessoas que trabalharam a vida toda para ter uma casa, um carro, para ter condições de criar sua família e que, de repente, perde tudo, tem sua casa bombardeada, saqueada, e não pode voltar mais. Fico triste pelas pessoas que morreram lá, isso é muito triste.

Mudamos de lá na última temporada em que atuei no time, fomos para Kiev. Foi difícil (a mudança), porque as condições (de estrutura do clube) eram diferentes da que tínhamos em Donetsk, mas as pessoas estavam apreensivas em voltar.

A situação para mim foi mais pelo lado das pessoas, da população. Eu não testemunhei nenhum problema nas ruas, algo que pudesse me deixar diretamente apreensivo. Não tive risco de morte, nem minha família. Eu estava seguro, por mais que soubesse o que estava acontecendo.

Em entrevista a um site ucraniano em maio deste ano, você disse que a situação em Donetsk lhe preocupava e que você não rejeitaria propostas de fora. Você tem recebido algum tipo de sondagem, vislumbra algum lugar em especial para atuar?

Escolhi ficar aqui no Dynamo, escolhi aceitar a proposta. Tive propostas de outros lugares, como Rússia, Bélgica, Itália, Dubai e China, mas acredito que o Dynamo era o que mais atendia o que eu queria para a minha carreira. Vivi muito bem durante esses três anos na Ucrânia, então, poder jogar em um clube grande, que disputa Champions League, que tem condições de me dar estrutura para crescer na carreira, isso é o principal. Deixei a parte financeira de lado, oferecida por Dubai, pela China e pelo México, cujas propostas eram melhores financeiramente, e acertei aqui porque é o clube que me dava condições de crescer ainda mais.

Você teve uma boa passagem pelo Metarlurh e agora está no Dynamo Kiev. Para um atacante brasileiro, como é jogar no futebol ucraniano, que é diferente do futebol do Brasil?

Não foi fácil no começo. O futebol daqui é muito difícil, muito forte fisicamente. Os clubes daqui jogam muito fechados, então no começo foi bem difícil. Mudei meu estilo de jogo, de drible, aprendi a soltar mais rápido a bola. Aqui, a pancada come muito. Precisamos aprender a evoluir, nos adaptar ao campeonato. Aprendi a ser mais rápido e objetivo.

Quais são as chances do Dynamo Kiev na Champions?

Acho que chances (de avançar ao mata-mata) temos, sim, desde o começo. Se você pegar todos os jogos que fizemos, foram jogos disputados. Infelizmente, acabamos empatando em casa com Porto e Chelsea e tivemos a infelicidade de perder para o Chelsea no fim do jogo, em Londres, no momento em que éramos melhores na partida, foi complicado. A final será agora, contra o Porto. Uma vitória é difícil lá em Portugal, mas acredito que, se crermos nela, podemos vencer. Na rodada final, tem Porto contra Chelsea, então a gente pode ficar bem perto de se classificar. Agora, já estou melhor, acredito que volto ao time titular.

Ucrânia na Euro 2016

A Ucrânia conseguiu a classificação para a Euro. Como está o povo? Acredita na seleção?

Ontem, o país parou aqui para ver a decisão. As pessoas gostam muito de futebol e são muito patriotas. Quando ganha, é o nome do país que ganha também. Eles adoram assistir aos jogos, incentivar, torcer. Acredito que a seleção da Ucrânia, os jogadores individualmente, têm muita qualidade. Às vezes, a equipe peca por não estar acostumada a jogar junta. Falta um pouco de entrosamento para maioria dos jogadores, já que uns jogam no Dynamo, outros no Shakhtar. Individualmente, eles são bons.

E como é jogar com o Yarmolenko, um dos maiores destaques do país?

Ele realmente é diferenciado dos outros do país, tem uma técnica acima da média. Como pessoa, é excelente: brincalhão, no vestiário está sempre brincando, fazendo alguma palhaçada. É um jogador que será interessante acompanhar daqui a alguns anos em algum clube top da Europa, ele tem potencial para isso.

Com qual jogador brasileiro você o compararia?

É dificíl comparar, porque ele é alto, mas rápido e habilidoso, mesmo sendo alto. No Brasil, é difícil achar alguém assim, não lembro de alguém.


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