Destaque da boa temporada do Rennes, Raphinha sonha com as Olimpíadas: “Darei meu máximo”

A crônica esportiva francesa é exigente e pode por vezes ser implacável. Conquistá-la não é tarefa simples, mas ela recompensa aqueles que merecem reconhecimento. É com esse pano de fundo que a declaração de Jérôme Rothen, ex-jogador da seleção e hoje comentarista da TV francesa, ganha tanta importância para avaliar o brasileiro Raphinha, do Rennes: “Ele está explodindo, sua curva de ascensão é permanente”.

Nascido em Porto Alegre, o jogador de 23 anos não chegou a atuar profissionalmente no Brasil. Enfrentou diversos obstáculos antes de sua primeira chance profissional. Fez parte das escolinhas do Internacional, mas não integrou as categorias de base. Depois, passou um ano no Grêmio. Defendeu ainda o Porto Alegre, clube criado por Assis, irmão de Ronaldinho Gaúcho, e rodou por equipes de várzea antes de se transferir ao Audax. O clube, até então administrado pelo Grupo Pão de Açúcar, foi vendido, e Raphinha mais uma vez foi buscar outra casa. Encontrou então o Imbituba, se destacou na segunda divisão sub-20 do Catarinense e foi levado para as categorias de base do Avaí.

Na Ressacada, chegou a ser promovido por Gilson Kleina ao time principal e ficou no banco de reservas em um jogo do Brasileirão 2015, mas não entrou em campo. No ano seguinte, foi transferido ao Vitória de Guimarães após boa participação na Copa São Paulo de 2016. Inicialmente integrado à equipe B do conjunto português, foi logo promovido ao time principal – e viveu duas temporadas de grande ascensão.

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Foram especialmente os seus 18 gols e seis assistências na campanha 2017/18 que fizeram crescer os olhos de clubes de maior reputação. Um momento tão bom que o Sporting não esperou sequer a temporada terminar. Já em janeiro de 2018, bateu a concorrência da Fiorentina para garantir o promissor ponta para a campanha seguinte.

Raphinha, em seus tempos de Vitória de Guimarães (Divulgação)

Cortejado por Jorge Jesus, Raphinha chegou aos Leões quando o técnico já havia deixado o clube. O que se apresentava como um projeto de longo prazo virou uma rápida plataforma para outra transferência. Após apenas uma temporada no Sporting, o brasileiro foi negociado por € 21 milhões com o Rennes, tornando-se o segundo jogador mais caro da história do clube da Bretanha – apenas € 300 mil o separam do recordista Lucas Severino, que deixou o Athletico Paranaense em 2000 por € 21,3 milhões para jogar no noroeste da França.

Os primeiros meses de adaptação foram difíceis ao rápido e habilidoso ponta, capaz de jogar nos dois flancos do campo, apesar da preferência pelo lado direito, de onde pode cortar para dentro e colocar à prova seu potente chute de esquerda. Rothen, em sua avaliação, via naquele início um jogador de grande potencial, mas que ainda tinha dificuldades de mostrar suas melhores qualidades.

A crítica do francês não estava equivocada, e é confirmada pelo próprio Raphinha, em entrevista exclusiva à Trivela. Tão verdadeira quanto a avaliação inicial do ex-jogador é a mais recente, citada no começo do texto. Antes da suspensão das ligas na Europa, o brasileiro vivia grande fase pelo atual terceiro colocado da Ligue 1. Uma reação que começou com um gol de pênalti para tirar o peso das costas e que culminou numa atuação de gente grande para decidir o dérbi da Bretanha contra o Nantes com dois gols, o último deles já aos 52 do segundo tempo.

Com 50 pontos, seis a menos que o vice-líder Olympique de Marseille, os rubro-negros têm dado sequência a anos estáveis e de sucesso, que incluíram o título da Copa da França na temporada passada, contra o PSG. E parte dessa continuidade deverá passar pelos pés de Raphinha.

Destaque de uma das melhores equipes da temporada francesa, Raphinha tem conquistado também os rígidos avaliadores do L’Équipe, que coloca o brasileiro em seu top 10 de melhores atacantes da campanha 2019/20, utilizando a média de notas recebidas pelos atletas como referência. A France Football, por sua vez, o destaca como o 11º melhor jogador da Ligue 1, independentemente de posição.

Falando à Trivela, o jogador passou por vários pontos: seu crescimento na temporada, mas também os anos em Portugal; a relação com seu ilustre empresário, Deco, o sonho com as Olimpíadas e o reforço de suas raízes por meio de projetos sociais na comunidade onde cresceu. No entanto, pelo que impões o momento e a situação, a conversa não poderia ter começado diferente…

Trivela: Como tem sido o confinamento? Há instruções específicas do clube, do treinador, para este período?

Raphinha: O que o clube passou pra gente é que nós nos mantenhamos preparados o máximo possível, porque não sabemos se o campeonato irá voltar de fato ou não. Eles entraram em um acordo, passaram um treinamento específico para cada jogador, e a gente vai cumprindo os treinamentos que eles mandam durante o dia. Cada dia é diferente, e a gente vai se mantendo preparado assim.

T.: E tem rolado vídeos para analisar jogos anteriores, ver o que foi feito errado, o que pode ser melhorado? Tem tido trabalho tático ou é mais uma questão física?

R.: É mais físico mesmo. Eles preferem deixar para lá e focar no que está por vir: manter a gente preparado fisicamente para, se o campeonato retornar, a gente estar bem, não ter muita dificuldade.

T.: A Ligue 1 desta temporada tem o PSG à frente, como sempre, o Marseille indo muito bem, em segundo, e em terceiro o Rennes, que está fazendo uma campanha boa em relação ao restante. O que está por trás deste sucesso? O que tem sido feito certo até agora?

R.: O mais importante é a gente respeitar todas as equipes, independentemente se é o PSG, primeiro colocado, ou o Amiens, que está entre os últimos. O segredo é respeitar todas as equipes e buscar jogar de igual pra igual com todas elas, já que o campeonato é bem disputado. Todo mundo joga de igual pra igual, sendo primeiro ou último. O que tentamos levar para os jogos é enfrentar qualquer equipe da mesma maneira.

T.: Você, particularmente, teve um período difícil de adaptação, e a própria imprensa francesa via que você não estava no máximo das suas capacidades. Porém, você vinha em ascensão antes da suspensão do campeonato. O Jérôme Rothen, ex-seleção francesa e hoje comentarista, falou que você estava “explodindo”. Como foi essa adaptação e como você vê seu crescimento nos últimos meses?

R.: De começo, o mais complicado é chegar a um país novo, com um idioma novo que você não conhece, estilo de jogo novo, então é preciso se adaptar a tudo isso. Então, é normal, acaba que você não consegue os resultados que você deseja, mas depois as coisas acontecem naturalmente. Tentei, particularmente, me adaptar o mais rápido possível aos meus companheiros, à comissão, então acredito que aquela troca, de eles também quererem me ajudar, contribuiu bastante para a minha adaptação rápida.

T.: E qual foi a importância daquele gol de pênalti que você fez contra o Amiens (vitória por 3×1 em 10 de novembro), que parece ter sido um rito de passagem para você. Fez o gol, tirou a inhaca, e as coisas começaram a acontecer.

R.: É bem isso mesmo (risos). Como me considero um atacante, um cara de frente, eu gosto sempre de fazer gol, participar dos gols, de estar sempre ali. Chegou uma certa altura em que a bola não estava entrando de jeito nenhum, os resultados não estavam acontecendo, então aquilo acaba pesando sobre a sua cabeça. Ter marcado aquele gol, como você disse, é como se tivesse saído um peso de mim. E, dali pra frente, as coisas só melhoraram e estão melhorando.

T.: O ápice foi o jogo contra o Nantes, o dérbi da Bretanha?

R.: Ah, sem dúvida! Todo mundo gostaria de marcar em um dérbi, acho que, como foi, a maneira como foi o jogo, o gol no último minuto, mais especial ainda.

T.: Muita gente fala que o VAR tira a emoção, mas o estádio veio abaixo com aquela decisão pela validação do gol.

R.: Na minha percepção, achei que eu estava impedido de primeiro momento. Vi que o auxiliar levantou a bandeira, fiquei puto na hora, mas o árbitro falou que iria ver as imagens e que era para eu ter calma, e eu fui pro meio do campo. Só que quando eu fui pro meio, eu tinha na minha cabeça que estava impedido. Porém, pela demora dele, comecei a ficar naquela dúvida. E aí o pessoal do camarote do estádio começou a falar que era gol, e eu só esperei ele confirmar e fui comemorar, saí correndo pelo campo inteiro!

T.: Aqui na França eles têm a expressão “partida referência”, em que a equipe mostra melhor suas qualidades, faz seu melhor jogo dentro das suas possibilidades. Eu não saberia dizer sobre o Rennes, mas você, particularmente, parece ter feito sua partida referência justamente naquele dérbi.

R.: Tenho três partidas que, para mim, acho que consegui ser eu mesmo, marcando gol ou não. Primeiramente, pelas emoções do jogo, esta partida com o Nantes, que foi especial para mim, foi o primeiro jogo em que marquei dois gols, acabei decidindo. Mas acho também que contra o Nice (1×1 em janeiro) e contra o Lyon (vitória por 1×0 em dezembro) foram duas partidas em que saí satisfeito comigo mesmo. Saí sabendo que fiz aquilo que podia fazer, independentemente do resultado, e fiquei muito feliz. Sair satisfeito consigo mesmo, para um jogador, é muito importante.

T.: Você está há pouco tempo na França, mas você diria que tem algo que você acrescentou ao seu jogo neste período? Algo técnico ou tático que você acredita que tenha o tornado um jogador melhor?

R.: Como eu falo, a gente procura melhorar cada dia mais. Acho que, taticamente, evoluí bem aqui. Já tinha evoluído bastante em Portugal, mas aqui foi ainda melhor. E, fisicamente, acho que venho evoluindo bastante também, me adaptando também à velocidade do jogo. São esses pequenos detalhes que a gente vai acrescentando no decorrer do campeonato.

T.: Você passou um ano só no Sporting, vindo de duas temporadas no Vitória de Guimarães. Discutindo seu trajeto, um programa da TV francesa dizia que sua melhor versão havia sido nos dois anos no Vitória, indicando que o Rennes o acompanhava há um bom tempo e que teria ido atrás do Raphinha que viu no clube de Guimarães. Você tem uma avaliação parecida? Seu melhor nível em Portugal foi pelo Vitória?

R.: O futebol é muito resultado e número. Então, como eu tinha feito 18 gols naquela temporada, chamei mais atenção dos clubes, tanto é que defini minha ida para o Sporting praticamente no meio da temporada (em janeiro de 2018, para se juntar aos Leões na campanha seguinte). Acho que não é que tenha sido minha melhor versão, mas foi onde eu consegui marcar mais gols, dar mais assistências. Mas isso não é algo que acabei fazendo sozinho. O conjunto dos jogadores ajudou. Sou atacante, mas se a bola não vier do zagueiro para o meia e então para mim, não vai sair o gol. Acho que estou evoluindo bastante desde o Vitória, e busco evoluir cada vez mais. Essa visão, então, eu acho que seja mais pelos números mesmo.

T.: Muito da sua ida ao Sporting se deveu ao Jorge Jesus, ao que ele falou para você e que o convenceu a ir mesmo com ele deixando o clube. Como foi essa conversa, o que teve de especial nas palavras dele e por que você foi para o Sporting mesmo com a saída dele?

R.: Eu levo muito em consideração o lado humano das pessoas, a vontade da pessoa te querer presente, te colocar dentro dos planos do clube, de você não ser só mais um. Então, o que me passaram é que tinham um projeto bom para mim junto com o clube, e isso acaba me motivando mais a escolher um lado do que o outro. Isso é o mais importante, deixar o atleta de lado, porque você tem um ser humano ali. Isso pesa mais na minha decisão do que decidir ir para qualquer outro lugar em que você será apenas mais um jogador.

T.: E o que o Rennes lhe ofereceu em termos de projeto profissional? Porque, se observamos, existe um padrão de jogador para a sua posição no clube, com Ismaïla Sarr e Ousmane Dembélé no passado. Citaram esses jogadores para mostrar que você poderia ser uma referência ofensiva, com visibilidade?

R.: Como falei, a gente procura esquecer o lado do profissional e focar mais o do ser humano. A importância do presidente Olivier (Létang) ir até Lisboa conversar comigo, com minha família, mostrar os projetos do clube, o que ele queria fazer comigo, como jogador e como pessoa, aquilo pesou bastante na minha decisão. Porque, se você parar para ver, o Rennes e a Fiorentina estavam muito igualados nas negociações. Então, o fato de o presidente ir lá, conversar comigo, com minha família, mostrar que eles tinham um projeto bom e que eu ajudaria o clube a evoluir, e que da mesma maneira o clube me ajudaria a evoluir, acho que isso pesou bastante na minha decisão.

T.: Por falar em Létang, a demissão dele em fevereiro foi uma grande surpresa para todos no clube. Com a chegada da nova diretoria, mudou algo para você em questão do projeto esportivo, você sente que está na mesma direção?

R.: Particularmente, ainda não conversei com a nova diretoria. Mas, independentemente do lugar, todo mundo que seja novo no ambiente e que chega para somar com aqueles que já estão lá pode ser muito importante.

T.: Você é agenciado por uma estrela do futebol mundial, o Deco. Como é sua relação com ele? Ele te passa lições de seus tempos de jogador?

R.: A gente procura não falar tanto de futebol. Claro que ainda falamos, porque é um trabalho conjunto que fazemos, mas o que ele procura me passar quando falamos disso é que eu já tenho a qualidade, então que eu me divirta dentro de campo, jogando futebol. É algo que gosto de fazer. Ele me diz para ser eu mesmo, ser feliz e me divertir.

T.: Você se tornou a segunda contratação mais cara do Rennes, sendo negociado pelo Sporting por € 21 milhões, apenas € 300 mil a menos do que o recorde do clube, o também brasileiro Lucas Severino, ex-Athletico Paranaense, em 2000. O valor significa algo para você? Faz você se sentir mais lisonjeado ou pressionado?

R.: Prefiro deixar essas coisas extracampo com o Deco, com meu pai, e procuro focar apenas em jogar futebol, me divertir. É normal que eu saiba os valores, fico muito feliz pelo valor, por essa importância de ser uma das contratações mais caras da história do clube, mas prefiro deixar esses assuntos com meus representantes.

T.: Por falar em seu pai, você tem com ele um projeto social em Porto Alegre, onde viveu com sua família. Seu pai disse até mesmo que a ideia do projeto foi sua. Como funciona? Qual a importância para você de ajudar as pessoas de onde você veio?

R.: Eu saí de uma comunidade com uma realidade muito diferente daquela da classe média do Brasil. A gente teve uma infância complicada lá. Graças a Deus, não passei fome, meus pais não deixaram faltar comida em casa, mas a gente sabia da realidade que estávamos vivendo, dentro da comunidade, e acho que ver meus amigos de infância tomando caminhos diferentes, indo para os caminhos errados, isso me motivou cada vez mais a ajudar as pessoas que têm mais necessidade, mostrando os caminhos certos, mostrando que não é só o lado ruim que se pode seguir dentro de uma comunidade.

A gente não tem um projeto fixo, ajudamos os projetos do meu tio, que são fixos. Sempre que possível, ajudamos por lá um time de várzea em que eu jogava quando pequeno, que continua com o mesmo dono. Sempre que podemos vamos lá ajudar, com alimentos, coletes, bolas, e também para estar presente lá, conversar, mostrar que você conseguiu sair de lá e conquistar muita coisa sem seguir os caminhos errados.

T.: É então também uma maneira de ficar conectado com a sua raiz…

R.: Sem dúvida. Perdi muitos amigos, uns que estão presos e outros que não estão mais conosco, mas deixei também muitos amigos lá. Então é normal que, sempre que eu volto ao Brasil, passo lá para conversar com o pessoal.

T.: Sobre o futuro próximo, as Olimpíadas acabaram adiadas para 2021, e a idade máxima será ajustada para que atletas que fossem elegíveis neste ano possam disputar o torneio de futebol. Você terá, então, idade para os Jogos Olímpicos. Isso é um objetivo seu?

R.: Com certeza. Se eu falar que eu já tinha excluído a hipótese de ir para essas Olimpíadas, eu estaria mentindo. Eu ainda tenho esperanças de ter a oportunidade de participar, mesmo que não seja para ser reconhecido mundialmente. Só de estar lá para mostrar meu trabalho, que eu tenho capacidade de estar lá e futuramente na Seleção principal, isso é o mais importante. Vou dar meu máximo, como venho fazendo, vou trabalhar, e, se não for dessa vez, paciência. Continuarei dando meu máximo para ganhar uma oportunidade.

T.: Para finalizar, algumas perguntas rápidas. Qual o jogador que mais te inspira, atual ou que já parou?

R.: Ronaldinho Gaúcho.

T.: E atualmente?

R.: Neymar.

T.: Tirando o Neymar, de qual jogador da Ligue 1 você gosta?

R.: Eu gosto muito do estilo de jogo do Payet, mas tem muitos jogadores de muita qualidade. Tem também o Mbappé, cujas características são mais parecidas com a minha.

T.: E qual o jogador mais talentoso com que você jogou na carreira até agora?

R.: Bruno Fernandes, no Sporting (atualmente no Manchester United).