Assim como no ano passado, o rebaixamento da Portuguesa em 2008 teve muito a ver com deslizes. Naquela época, no entanto, eles foram cometidos dentro de campo mesmo. Responsável por conduzir a Lusa de volta à primeira divisão após assumir um time praticamente fadado ao rebaixamento para a Série C em 2006, Vágner Benazzi fez um trabalho muito bom e consistente em sua primeira passagem. Seu prazo de validade no time, no entanto, já estava decretado, e antes mesmo do fim do primeiro turno do Brasileirão o comandante deixou a equipe. Desmontagem, aliás, foi uma palavra-chave daquele descenso – além, é claro, dos vacilos em jogos “ganhos”.

TEMA DA SEMANA: Time bom (ou não tão ruim assim) também é rebaixado, e damos cinco exemplos

Benazzi foi o nome da reconstrução da Portuguesa naquele período. Na 26ª rodada da segundona de 2006, a Portuguesa foi goleada pelo Marília por 4 a 0 e atingiu o fundo do poço na competição, segurando a lanterna. Foi o fim da linha para Candinho. Para seu lugar, três dias após a derrota, a Lusa anunciou Vágner Benazzi como o homem para salvar o time do rebaixamento para a Série C. A missão era dificílima, mas o técnico a encarou, começou de cara com duas vitórias e selou de vez a permanência na Série B com um triunfo por 3 a 2, de virada, sobre o Sport, em plena Ilha do Retiro, no jogo final. Evidentemente, o feito foi suficiente para que Manuel da Lupa se convencesse de que contava com o técnico certo para o ano seguinte, na missão de se sair melhor no segundo escalão nacional e também de retornar à elite do futebol paulista.

Em 2007, Benazzi elevou a Portuguesa a outro nível. Nada de fantástico, mas o bastante para que assegurasse a vaga na primeira divisão tanto do Brasileirão, que não disputava desde 2002, quanto do Paulistão, com o título da A2. Terminou a Série B na terceira colocação, com uma boa campanha de segundo turno, e conseguiu manter suas principais peças para 2008. Agora, sete anos depois, Benazzi já soma três passagens e sua imagem não está mais intacta. Entretanto, seu trabalho foi essencial para devolver a Portuguesa a um lugar de maior destaque.

Além da manutenção do elenco e de atletas que se destacaram na Série B, como o zagueiro Bruno Rodrigo e a então revelação Diogo, autor de 18 gols na campanha do acesso, a Portuguesa se reforçou com a chegada de jogadores que eram ou passariam a ser conhecidos no cenário nacional: Jonas, hoje no Benfica, Edno, Fellype Gabriel e Athirson. O atacante Christian também foi contratado, e a esperança era de que, fazendo dupla com Diogo no ataque, poderia ajudar a manter a Lusa na elite. Nenhum dos dois terminou sequer o primeiro turno do Brasileirão.

O pontapé inicial no Paulistão de 2008 foi empolgante. Mesmo forçada a mandar seu jogo no Morumbi, por problemas estruturais no Canindé, a Portuguesa bateu o Santos por 2 a 0, com Christian fazendo o primeiro gol lusitano no jogo. A outra vitória que conquistou sobre um dos grandes naquela edição do Paulista veio contra o São Paulo, também por 2 a 0.

Apesar da vitória sobre o Peixe no reencontro com a elite paulista, a equipe nunca decolou naquele estadual, e acabou na 10ª colocação. Uma das principais razões foi a lesão do destaque Diogo logo na estreia contra o Santos, que o tirou de ação por mais de um mês. A distância do Canindé por algumas partidas também foi sentida. Apenas na 14ª rodada, contra o Guaratinguetá, após apresentar todos os laudos necessários, o clube conseguiu mandar seu primeiro jogo na sua própria casa.

Mesmo com a posição intermediária no Campeonato Paulista, o time estava confiante para o Brasileirão. Sabia que algumas circunstâncias foram determinantes para a posição decepcionante no estadual e que, ultrapassadas todas elas, teria um potencial maior que aquele apresentado no primeiro semestre. No elenco, havia peças suficientes para se acreditar em uma campanha de permanência na elite do nacional. O ataque contava com as boas opções Diogo, Christian e Washington (ex-Palmeiras). Na defesa, a expectativa era boa também para o papel de comandante de Bruno Rodrigo. Embora desconhecido à época, Edno havia chegado e acabaria se destacando. Fellype Gabriel e Jonas são outros que se juntariam ao elenco no decorrer do campeonato. Era, enfim, um elenco com capacidade de fazer um campeonato ao menos mediano, de meio de tabela.

1993: Após quebrar jejum no Mineiro, América foi rebaixado pelo regulamento

A primeira rodada, que poderia ter começado como o pontapé inicial dos sonhos, rapidamente se transformou em um prenúncio do que seria aquele ano: esperanças não concretizadas, uma continuidade interrompida. De maneira menos simbólica e mais direta, foi como outros tantos jogos naquela edição: vitórias quase certas que a Lusa deixou escapar. Nenhuma delas, no entanto, tão emblemática como nesse primeiro jogo. No fundo, o torcedor lusitano talvez já soubesse o que o esperava depois de assistir àquela atuação.

Estreante da noite, Edno bateu escanteio, e Marco Aurélio abriu o placar logo aos três minutos de jogo. O Figueirense respondeu com o experiente Rodrigo Fabri, aos 36, mas Patrício garantiu a vantagem no primeiro tempo para a Lusa. César Prates empatou de falta para o Figueira nos minutos iniciais do segundo tempo, mas, de repente, em questão de quatro minutos, o time de Benazzi conseguiu três gols, com Bruno Rodrigo, Diogo e Christian, abrindo 5 a 2 com apenas 14 passados na segunda etapa. Para qualquer time, vitória garantida, mas não era o caso da Lusa naquele ano. Sem se darem por vencidos, os catarinenses buscaram um empate inacreditável, com três gols em um intervalo de 20 minutos, com Bruno Santos fazendo o último deles quando restavam dois minutos para o fim dos 90 minutos regulamentares.

Se a lição daquela noite tivesse sido aprendida, a Portuguesa talvez tivesse se salvado na competição. Mas o que parecia a exceção se repetiu mais vezes naquela competição. E, em meio a esses pontos entregues a adversários, vieram os problemas de descontinuidade no elenco e na comissão técnica.

1998: Inexperiência, bolas na trave e azar: Goiás de 1998 caiu por detalhes

Para começar, a dupla de ataque formada por Diogo e Christian, sobre a qual a torcida colocava muita confiança, logo foi dissolvida. O segundo, contratado para o início da temporada de 2008, foi embora já no primeiro dia de julho, tendo feito sua última aparição na quinta rodada, coincidentemente contra o Internacional, pelo qual se projetou para o Brasil. Já Diogo, protagonista de uma longa novela sobre permanência ou partida, acabou negociado com o Olympiacos por R$ 26 milhões em agosto. Um dinheiro bom para um clube como a Portuguesa na época, mas que nunca se converteu em algo efetivo para o time. Encostado no Grêmio, Jonas chegou ao Canindé por empréstimo, para substituir Diogo –  e foi muito bem. Lá, fez renascer sua carreira, sendo o artilheiro do time no Brasileirão, com dez gols, o que o levou de volta ao Tricolor e posteriormente ao futebol europeu, com passagem de sucesso pelo Valencia por três temporadas.

Além da perda de dois titulares importantes, a Portuguesa encerrou sua parceria de quase dois anos com Benazzi. Independentemente de todo seu trajeto no comando da equipe, salvando o time da Série C e colecionando acessos, não resistiu à goleada por 4 a 1 para o Ipatinga na 13ª rodada. No momento, a Portuguesa sequer estava na zona de rebaixamento. Tinha quatro vitórias e seis derrotas em 13 jogos, mas dois desses reveses haviam acontecido nos três jogos anteriores e com quatro bolas na rede lusitana. Para Manuel da Lupa, era o sinal de que o tempo de Benazzi no time já havia passado. Valdir Espinosa o substituiu e não conseguiu a reação necessária para afastar o perigo do retorno à Série B. Foi sacado um mês depois e substituído por Estevam Soares, que conduziria o time até o término da competição. Na reta final, ainda provaria daquele mesmo gosto amargo da primeira rodada, contra o Figueirense.

2002: Palmeiras não era time para cair, mas não tinha margem para errar. E errou

Até o final da 32ª rodada, a Lusa vivia um vaivém no Z-4, mas a partir do encontro com o Flamengo, deslizou de vez. No Maracanã, após sair perdendo no primeiro tempo, a Lusa buscou a virada, com Edno e Jonas, mas bobeou no fim e concedeu o empate. Na rodada seguinte, em casa, contra o São Paulo, história semelhante: com dois gols de Jonas, conseguiu uma virada no primeiro tempo. Borges ainda empatou antes do intervalo e, no fim do segundo tempo, repetiu a dose confirmando a vitória do Tricolor paulista. Pela terceira vez consecutiva, mais uma vez no Maracanã, desta vez contra o Flu, a Portuguesa esteve à frente na etapa inicial, mas levou três gols no segundo tempo, e caiu por 3 a 1 diante do Tricolor carioca.

Dali até o fim daquele campeonato, não venceu mais. Como visitante, nem esperava mesmo. Em toda a competição, só conseguiu bater o Botafogo fora de seus domínios, com um magro 1 a 0, ainda na sétima rodada. E a força em casa, onde ganhou oito vezes e empatou outras oito, tinha ficado mesmo para trás. Contra o Sport, na penúltima rodada, em mais uma oportunidade de manter vivas suas esperanças, vacilou de novo, deixando a vitória escapar aos 29 minutos do segundo tempo e empatando em 2 a 2. Chegou à última rodada já rebaixada e teve seu caixão selado com um 4 a 1 para o Cruzeiro.

As vendas de Christian e Diogo eram inevitáveis. Apesar da qualidade da dupla, a saída interessava a ambos, e, financeiramente, eram bons negócios para o clube. Quanto à saída de Benazzi, é um tanto quanto anacrônico criticá-la agora. Havia um entendimento de que talvez fosse a melhor saída, que o tempo do treinador de fato havia se esgotado. A aposta em outro nome era necessária, e houve agilidade em retirá-lo quando viram que não estava surtindo efeito. Com tantos riscos tomados, a salvação ainda ficou próxima e poderia ter sido conquistada, se a atenção nas rodadas finais fosse redobrada. Não houve grande injustiça naquela queda, mas a Lusa não era time para ficar com a vice-lanterna.