Por Bruno Grossi*

Ainda que a goleada por 4 a 1 sobre o Villarreal e as pinturas de Antoine Griezmann e Luis Suárez tenham refrescado as têmporas de Quique Setién, a desconfiança sobre o treinador ainda paira como uma densa névoa em Barcelona. Em um mundo que se desespera por criar rótulos, o técnico foi enquadrado como moderno, ofensivo e “tatiquês”, foi devorado pelas expectativas criadas por terceiros e tem sido tratado como uma visita indesejada que se estendeu demais no papo após o jantar.

Com esse breve panorama, já conseguimos ver que o próprio Barcelona atropelou processos, apostou no clichê da ruptura para salvar a lavoura e entregou a um camponês com boas ideias a missão de administrar infinitos hectares. A desculpa perfeita para o fim do pragmatismo de Ernesto Valverde era disseminar como certeza uma ilusão que cercava a figura de Setién, o homem que fez o Bétis jogar bonito, que resgataria o espírito do Cruyffismo e, consequentemente, do Guardiolismo. Só por aí fica claro o tamanho da responsabilidade dos dirigentes em toda essa história.

Mas como aqui não se pretende instaurar nenhum tribunal de cancelamento virtual ou entrar na moda dos dedos em riste e latidos furiosos, é importante pontuar também o que está ao alcance de Setién – ou o que já esteve um dia. Um técnico, por mais turbulento que seja seu habitat, tem obrigações. Algumas delas, é claro, são afetadas por desmandos e descasos e fogem da zona de atuação de um treinador. Mas até nisso há espaço para agir, seja blindando os jogadores, expondo os problemas diretivos ou enfrentando os próprios princípios para se adaptar a situações extremas.

Diante dessas três possibilidades, há um elemento que serve de antídoto com frequência: a capacidade de mobilizar um elenco. Se a diretoria é amadora e controversa, um técnico pode mostrar aos jogadores que está ao lado deles, que o barco é um só e que os marujos são muito mais importantes do que o chefão do estaleiro. Um treinador pode ouvir seus atletas, entender o que é melhor para o momento emocional e técnico do time e propor mudanças, trabalhar a confiança individual, reforçar laços coletivos. E, dentro de campo, há o dever óbvio de provar a esse grupo que, ali, se domina o assunto futebol.

Não são raros os exemplos de técnicos que conseguiram mobilizar seus elencos de forma marcante. Hoje temos no Flamengo o grande retrato de tudo isso. Quando Jorge Jesus explica determinados planos no treino e os jogadores percebem que tudo aquilo aparece e funciona em um jogo, meio caminho já foi percorrido. Vimos isso com muita clareza no Santos de Jorge Sampaoli em 2019 – e se espera que fenômeno semelhante aconteça neste ano no Atlético-MG. Esses são técnicos capazes de criar brilho nos olhos até nos jogadores mais alienados que você possa imaginar.

Há quem conquiste essa mobilização pelo trabalho cuidadoso do dia a dia. Aqui falamos de Fernando Diniz, por exemplo. Você pode detestar, ter birra ou preguiça, mas quando se vê tantos relatos positivos sobre como o técnico do São Paulo recuperou a confiança de atletas e os fez crescer tecnicamente, fica difícil ignorar. O mesmo se aplica a Tite, outro que tem provocado esperneios Brasil afora. É um desafio quase impossível encontrar algum jogador comandado por ele que não o veja como acima da média pela capacidade de interpretar ambientes e pessoas e, a partir dessa leitura, moldar ideias bem-sucedidas de jogo.

E talvez esteja aí o grande paradigma do que se chama preguiçosamente de futebol moderno – e é tão preguiçoso que inventou-se Diniz como moderno quando o próprio se vê com diversos métodos herdados dos anos 1990. Não existe tática pura que sobreviva. É uma verdade que pode doer em muita gente, mas não é tão difícil de perceber. A resposta está na ponta da língua dessas mesmas pessoas que, com razão, repreendem treinadores que estacionaram na era do “vamo lá, vamo lá”, do bumba meu boi, do colete jogado para cima. Só motivação não basta. Só família Scolari não basta. Logo, só tática não basta.

Podemos, então, voltar a Quique Setién e à pressão que o cerca. Com seus ideais de jogo apoiado, circulação de bola e outras filosofias vistosas, o técnico não conseguiu encontrar no Barcelona nenhuma forma de fazer um elenco cheio de estrelas acreditar que isso tudo poderia funcionar. A dificuldade para encontrar um lugar para Griezmann ou extrair o melhor do francês talvez seja o grande exemplo dessa inabilidade. Jogadores que passaram boa parte da vida adaptados a sistemas parecidos, que amam tratar a bola bem, mas que não conseguem se empolgar com o produto vendido por Setién.

Isso não desvaloriza seus objetivos, de maneira alguma. Mas indica como o treinador de 61 anos não estava pronto para um desafio de dimensões tão enormes. Indica que o futebol pede mais do que a ciência, que diretores se apegam a lugares-comuns e perseguem ilusões. Alguém convenceu a todos no Barcelona que Setién era a volta do barcelonismo em essência, que Valverde era pobre demais para o futebol arte do Camp Nou e todo mundo engoliu – como quase engoliram o risco de se queimar um ídolo como Xavi graças a essa ânsia sebastianista pelo jogo bonito.

Setién, com tudo isso jogando contra, virou presa fácil ao não conseguir mobilizar seu elenco. E isso não tem a ver com estar em primeiro ou segundo na tabela do Campeonato Espanhol. Outros sucessores de Pep Guardiola foram campeões e derraparam e mesmo assim não satisfizeram os enormes egos de uma diretoria controversa. E há dezenas de exemplos de técnicos que conseguiram fazer jogadores comprarem suas ideias, apresentarem futebol sólido – fosse ele bonito, viril ou pragmático – e ganharem relevância mesmo sem uma taça na estante ou com mais finais perdidas do que vencidas.

Só em uma rápida retrospectiva, é possível lembrar de Juan Carlos Osorio e a legião de fãs que deixou no São Paulo, de Rogério Ceni a Luis Fabiano, todos encantados com métodos e princípios que se provavam diariamente, nos treinos e nas partidas. Ou de Diego Simeone, que se encaixa perfeitamente no segundo cenário: conquistou títulos relevantes, mas perdeu muito mais. E ainda assim faz prevalecer em todo o Atlético de Madri, dos craques aos torcedores, um ambiente de confiança de que o mesmo caminho deve continuar a ser seguido.

A capacidade de mobilizar um elenco passa pelo carisma de um treinador, pelo entusiasmo para falar e por provar conceitos na prática. E passa também por um quesito que extrapola qualquer fronteira futebolística. Os que prosperam nos últimos anos têm em comum o fato de entenderem melhor a vida e a sociedade. Isso implica em entender melhor quem são os jogadores daquele grupo. O que gostam, como se comportam, como reagem a elogios e cobranças. E os que ficaram para trás derrapam justamente nisso.

Figuras como Abel Braga, Muricy Ramalho, Felipão e José Mourinho construíram histórias riquíssimas, obtiveram resultados importantes até em momentos de dúvida sobre seus futuros, mas todos sofreram de um mesmo mal: a dificuldade de entender e lidar com um novo tipo de jogador de futebol. Atletas que não se motivam com um discurso inflamado, com um vídeo emocionado. Que não acordam com broncas e que preferem passar horas no videogame do que na mesa de carteado.

É um fator geracional constatado inclusive por Vanderlei Luxemburgo há alguns anos, antes de ganhar sobrevida no Vasco da Gama e retornar ao Palmeiras. Luxa disse que ainda sofria para entender e administrar a presença de celulares no vestiário, algo que faz parte – e não deixará de fazer – da vida dos jogadores. Em outra entrevista, essa resgatada pelo colega Tomás Rosolino, o ex-meia Pablo Aimar, treinador das categorias de base da Argentina, fala em uma geração que se alimenta de mais vídeos de melhores momentos do que de jogos na íntegra, que não tem mais necessariamente o futebol como paixão única.

Ou seja, a lista de trabalhos e responsabilidades de um técnico não para de crescer e aqueles que se apegarem a métodos e processos como se fossem a receita de um bolo ficarão mais distantes do sucesso. Sejam eles jovens como um Fábio Carille, pragmáticos como um Mano Menezes ou modernos como um Setién.

*Bruno Grossi, 27, é jornalista e acompanha futebol profissionalmente desde 2012, quando estagiário na Gazeta Esportiva. Foi repórter do LANCE! e do UOL Esporte e atuou na cobertura de São Paulo, Palmeiras e Seleção Brasileira.