O título da Copa do Mundo deu respaldo ao trabalho que Didier Deschamps começou no comando da seleção francesa em 2012. De vínculo renovado até 2022, o técnico já é um rosto conhecido dos Bleus, pelos títulos mundiais como jogador e técnico, mas isso não impede que muita gente torça o nariz para o estilo de jogo mostrado por sua equipe. Em entrevista ao L’Équipe, o técnico se defendeu das críticas de que seu time pratica um futebol defensivo ou pragmático.

Em primeiro lugar, Deschamps quis deixar claro que acha que falar em filosofia ou princípios de jogo é coisa para “parecer intelectual”: “São conceitos banais… Não acho que haja conteúdo de verdade dentro disso”. Ele explica seu raciocínio, afirmando que “o perfil de um 4-4-2 depende do número de atacantes que você alinha. Se posicionar meias ou pontas nos corredores, não é mais o mesmo 4-4-2. Quando falamos de filosofia, tudo depende dos jogadores à disposição”.

Talvez pelo excesso de talento ofensivo da seleção francesa nem sempre se materializar em domínio absoluto ou muitos gols nos adversários, Deschamps ganhou ao longo dos anos a fama de ser muito defensivo ou, no melhor dos cenários, “pragmático”. Outra discussão que, para o técnico, é “sem importância”. “Não explico (porque o definem assim) e não busco entender. Apenas sei que essa imagem corresponde apenas parcialmente à realidade”, defendeu-se.

Tem quem pense que parte desta forma de vê-lo venha de sua herança como jogador, quando era normalmente o “carregador de pianos”. Deschamps, caso ainda não tenha ficado claro, não gosta muito de estereótipos e reforçou isso: “Pouco me importa essa imagem de ‘carregador de pianos’ também. Eu sabia o que precisava fazer para ser útil à minha equipe. Os rótulos… A única coisa que me interessa são os argumentos por trás deles. Se a argumentação é parcial ou errônea, nem discuto”.

Avaliações subjetivas à parte, o fato é que, por vezes, a França costuma entregar a bola ao adversário e tentar explorar os espaços deixados. Foi assim contra a Bélgica, na semifinal da Copa de 2018, por exemplo. Mas Deschamps esclarece que aquilo não foi exatamente uma estratégia sua, mas, sim, a leitura dos jogadores de qual seria a melhor tática no momento.

“Não, de jeito nenhum (entreguei a bola voluntariamente). Fiquei até mesmo um pouco nervoso de ver minha equipe jogando tão recuada. Mas os jogadores se sentiam fortes assim. Defendemos recuados, é verdade, mas defendemos muito bem, fazendo pouquíssimas faltas. Não fazia sentido se matar de correr até o final do campo. Eu tive uma primeira vida (como profissional no futebol), sei muito bem que, se o treinador se comunica, dá uma ideia, são os jogadores que decidem (executá-la ou não) no campo. Eu não os comando remotamente”, argumentou.

Ainda assim, faz questão de pontuar que, em sua percepção, a seleção francesa cada vez mais é capaz de controlar as partidas. Para ele, no entanto, contra adversários fortes como era aquela Bélgica, é preciso ser realista.

“Sabemos muito bem que não podemos ter uma posse de bola superior. Para vencer, é preciso saber defender bem e utilizar bem a bola quando a temos, para criar problemas nas costas dos laterais oponentes ou entre o meio e a defesa, ou seja, nos espaços deixados pela posse deles”, avalia.

Ressaltando mais uma vez que não coloca suas equipes para se defender, Deschamps garantiu não dar instruções restritivas a seus comandados, independentemente de posição. “Pelo contrário, todas as equipes que formei foram formadas para marcar gols. Essa é sempre a ideia principal.”

O comandante dos Bleus foi além e puxou os números para defender seu argumento. Citou os 195 gols marcados nos 100 primeiros jogos em que esteve no comando da seleção, os 14 gols feitos na fase final da Copa 2018, incluindo quatro na decisão, e também a variedade de origem desses tentos: “Marcamos de bola parada, em ataques rápidos, em ataques posicionais também. O exemplo número um é o gol do Pavard contra a Argentina: a bola sai de Lloris, quando a Argentina está em seu campo de defesa. Ela passa por Varane, Matuidi e termina com um cruzamento do lateral esquerdo (Hernández) para o lateral direito, que marca”.

Mesmo reforçando que entregar a bola ao adversário não é uma estratégia completamente voluntária de sua seleção francesa, deixou transparecer que não é e provavelmente nunca será o tipo de técnico que valoriza a posse de bola acima de tudo.

“Tenho muito respeito por quem pratica esse jogo com eficácia. Por outro lado, a posse de bola estéril não me interessa. Se é para ficar tocando a bola sem levar a nada, prefiro um jogador que tenta um passe vertical para quebrar as linhas. Mas não acho que os treinadores adeptos dessa estratégia pensem diferentemente. Eles também esperam por brechas para marcar gols, o que uma longa troca de passes não necessariamente garante.”

Deschamps tem, inclusive, uma visão interessante e pouco ressaltada sobre o Barcelona de Guardiola, que abriu caminho para esta releitura do jogo de posse da última década: “O que me impressionava naquele time era o que era feito quando eles perdiam a posse de bola, isso o tornava temível. Gosto muito dessa pressão alta, mas é preciso fazê-la imediatamente, se não é tarde demais e não é mais possível”.

Isso, sim, ele afirma pedir “sistematicamente” a seus comandados, mas apenas àqueles que estejam próximos da bola e que façam isso a tempo. “Se fizermos um pouco atrasados, não serve de nada. Vimos isso na última Copa do Mundo. Todas as equipes que ficavam entre as duas coisas (pressão na saída e recuo para a defesa) foram esmagadas. Ou você fica avançado ou recuado, mas não entre os dois, porque isso deixa muito espaço e profundidade”, ponderou.

Por fim, convidado a eleger seu jogo favorito da última Copa do Mundo, não ficou com a atuação da final ou com o duro confronto com a Bélgica. Mesmo admitindo que o time poderia ter se saído melhor defensivamente, sua escolha vem sem hesitação: o duelo de quartas de final com a Argentina, vencido por 4×3.

“Houve muita emoção. Nessa partida, as duas equipes tiveram a mesma atitude: recuaram quando estavam à frente no placar. Com 2×1, a Argentina nos deu a bola e permitiu que voltássemos para o jogo. Mesmo que pudéssemos ter feito melhor defensivamente, é a partida com a Argentina que mudou a nossa Copa do Mundo. Prefiro essa, sem sombra de dúvida.”