Tem gente que passa na nossa vida e, por mais efêmero que seja o contato, há uma luz que fica para sempre. São pessoas que possuem uma aura radiante e que deixam um exemplo que nem o passar dos anos permite à memória esquecer. Ronald Capita era um desses seres humanos especiais. Único. Difícil encontrar alguém que conhecesse Ronald e não o admirasse, por toda a sua vontade de viver. Pela forma como ele fazia as nossas reclamações do dia a dia parecerem problemas menores, diante de tudo o que ele superava – com leveza, com ternura.

Conheci o Capita faz uns cinco anos. Cruzei com ele uma vez em um campeonato de futebol entre amigos, conversei outras tantas vezes nas redes sociais. Quando começamos a nos falar, era só um adolescente, mas nem de longe transparecia isso, por sua maturidade nas palavras e pelo enorme talento nos textos que escrevia. Ele perseguia o sonho de se tornar jornalista esportivo, escrevendo em diferentes projetos, e tinha muitas virtudes. Era essa vontade de entrar na profissão que o motivava dia após dia.

Ainda aos dois anos de idade, Ronald foi diagnosticado com a Síndrome de Marfan. Convivia com a doença rara que afetava o sistema cardiovascular, esquelético, os olhos e a pele. A limitação de quem se locomovia através de uma cadeira de rodas, porém, também era sua força. Torcedor do Flamengo de Guarulhos e do Corinthians, Capita se tornou um ativista pela acessibilidade nos estádios. Tinha uma sensibilidade imensa para o assunto. Fundou a página ‘Eficientes’, que falava sobre a inclusão através dos esportes.

Ronald era muito mais que sua batalha diária. Era um rapaz doce, gentil, atencioso. Sempre aberto e sempre encarando a vida de frente. Seus amigos não eram apenas outros jornalistas, com quem falava sobre a sua paixão. Também fez inúmeras amizades no meio do futebol. Imitar o gesto do “C de Capita” foi uma homenagem repetida por diferentes jogadores profissionais. Em 2017, inclusive, suas palestras serviram de motivação ao Corinthians na conquista da Copa São Paulo.

Garanto que não existe uma pessoa que tenha conhecido Ronald e não se impressionasse com a força daquele garoto. Que não estimasse sua luta e não percebesse a pessoa excepcional que era. E todo mundo queria ajudar o Capita. A empatia que gerava era contagiante. Ele certamente também ajudou muita gente a ver a vida com outros olhos.

Nos últimos anos, Ronald enfrentou outros problemas de saúde, inclusive um tumor no ouvido. Seguiu lutando pela vida, lutando contra o preconceito, lutando por sua causa – e sem perder seu um coração enorme. Nesta quinta, infelizmente, recebemos a notícia de que Ronald Santos Trindade, de 20 anos, faleceu. Deixa este plano, mas prevalece o enorme exemplo a quem teve a sorte de cruzar com ele.

Em tão pouco tempo de vida, Ronald Capita foi capaz de ensinar tanto. Tanto. E o que conforta minimamente neste momento de lágrimas é saber que as lembranças que o garoto deixou resistirão, em cada um que o conheceu. A dor aperta o peito, mas sua família e seus amigos sentem orgulho da pessoa maravilhosa que você foi, Ronald. Vá em paz, Capita. E obrigado por tudo.

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Em homenagem a Ronald, resgatamos um texto escrito por ele, que tivemos o prazer de publicar aqui na Trivela há quase quatro anos, em dezembro de 2015. Palavras que ajudam a mostrar quem foi o Capita e como era um rapaz fora de série. Você ficou bastante feliz na época, mas a honra foi toda nossa.

Como uma simples entrada em campo na Série B representou uma vitória de vida

* Por Ronald Capita

Era um mero jogo da fase de classificação da Série A-2 do Campeonato Paulista. Ainda assim, eu estava ansioso. Teria a oportunidade de, pela primeira vez, entrar em um campo de futebol – e não em qualquer campo, mas no mítico gramado da Rua Javari.  Eu havia recebido o convite do lateral direito Alemão, então na Independente de Limeira. Participaria da entrada dos times no duelo com o Paulista de Jundiaí, em fevereiro. Já estava tudo acertado com o clube e com o próprio Alemão. Seria mais um dos jovens torcedores que tradicionalmente participam da apresentação dos times.

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Porém, nada saiu como o esperado. Faltando apenas 15 minutos para o início da partida, um fiscal da Federação Paulista de Futebol barrou a minha entrada sob a alegação que “crianças são diferentes de cadeirantes”. Ele já tinha sido questionado pelo assessor de imprensa do Independente de Limeira, que alegou que em Limeira as crianças entravam em campo com os jogadores do time. Foi extremamente intransigente e não me deixou participar da festa.

Ao menos, vi o jogo nas arquibancadas. E recebi a homenagem do Alemão, que fez um gol e o dedicou a mim na comemoração. Eu nem sabia de nada! Ele balançou as redes, correu até a minha direção fazendo o “C de Capita”, uma homenagem criada pelo amigo Dassler Marques, jornalista do UOL Esporte. Foi a segunda vez que o Alemão me homenageou. Na primeira, em 2014, quando estava no Taboão da Serra, ele marcou um gol contra o Olímpia na Série B do Paulista e foi até as câmeras gritar: “Capita, é pra você moleque!”. No intervalo, foi entrevistado pelo repórter da Rede Vida, perguntado sobre o homenageado. Dentre outras coisas, o Alemão disse que eu o ajudei a não desistir do futebol – ele pensava em abandonar a carreira, depois de algumas mentiras que sabemos que são comuns neste meio. Um amigo de verdade.

Alemão falando de Ronald Capita à Rede VidaAo final do primeiro tempo diante do Olímpia, válido pela Segunda Divisão do Campeonato Paulista – ou Bezinha -, o lateral/meia Alemão, ao ser entrevistado pela Rede Vida, disse para quem era a dedicação do gol – que ainda teve o #fazoC -, contou um pouquinho sobre o tal Ronald Capita, minha amizade com ele e que não desistiu do futebol pelo apoio dado, dentre outras coisas.Infelizmente, entrei em contato com a emissora, mas não consegui as imagens do jogo, sobretudo do gol marcado pelo Alemão e dedicado para mim.Obrigado pelo carinho, meu amigo. #CdeCapita #FalaCapita #RC #RonaldCapita #Alemão02

Posted by Ronald Capita on Sexta, 18 de dezembro de 2015

A minha história de vida e a história da amizade

Vamos às apresentações. Meu nome é Ronald Capita e tenho 16 anos. Sou portador da Síndrome de Marfan, uma deficiência que afeta o sistema cardiovascular, esquelético, os olhos e a pele. Além disso, tenho um problema na coluna chamado escoliose. Por isso, lutei a minha vida inteira contra as limitações e ainda dependo de uma cadeira de rodas para me locomover. No entanto, nada me impede de seguir o futebol com afinco. Eu me informo bastante sobre esporte de uma maneira geral, mas acompanho especialmente o Flamengo de Guarulhos – time pelo qual torço, embora não seja morador da cidade. Além disso, colaboro com o site Torcedores.com e sonho em me formar jornalista, para trabalhar com futebol.

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O Flamengo, aliás, serviu de ponte para que eu conhecesse o Alemão há três anos. Ele atuou no clube e eu o encontrei graças ao Marcos Vieira Ribeiro, assessor de imprensa rubro-negro e meu amigo – um dos poucos que acompanharam a minha trajetória em busca dos meus sonhos. Assim, criei um vínculo forte com o Alemão, conversando com ele frequentemente. E a amizade, além de ajudá-lo na própria carreira, também rendeu as duas homenagens nas comemorações.

Ronald Capita fala sobre Fla Guarulhos e história de vidaRecebi o convite do Marcelo Marelli, técnico do Flamengo sub-20, para gravar um vídeo especial para uma das preleções das quartas de final do estadual da categoria. Obrigado, Associação Atlética Flamengo!No vídeo abaixo, falo da minha história de vida e o meu amor pelo Flamengo de Guarulhos. Mas, afinal, Ronald Capita: “Por que você torce para um time da terceira divisão do futebol paulista?” Eis a resposta. ❤ #FALACapita #RonaldCapita #RC

Posted by Ronald Capita on Domingo, 1 de novembro de 2015

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Já no último mês de setembro, recebi outro convite do Alemão, que defendeu o Bragantino durante a Série B do Brasileirão. Ele me chamou para acompanhar um jogo do Massa Bruta na competição. Por ter contato também com o Júlio César, goleiro do Náutico, combinamos que eu fosse à última rodada da segundona, justamente no duelo com o Timbu. A ideia era ver o jogo de ambos no Estádio Nabi Abi Chedid.

O dia da vitória

Em novembro, enfim, chegou o tão esperado dia do jogo. Infelizmente, não pude me encontrar com o Júlio César, que não participou da partida porque estava lesionado. Mas a expectativa de encontrar o Alemão e entrar em campo com ele aumentava. Era muito mais que apenas estar com ele no gramado por poucos minutos. Para mim, aquele momento simbolizaria também uma vitória pessoal. Afinal, fui barrado por um fiscal da FPF meses antes, e a amizade que tenho com ele é muito verdadeira.

RONALD CAPITA: Por que não falam em acessibilidade nos estádios de futebol?

Com alguns minutos de atraso, o Gilvan (irmão do Alemão) chegou ao Parque Novo Mundo para me buscar. E o menino Ronald Capita estava cheio de ansiedade. A viagem até Bragança Paulista demorou pouco mais de uma hora. Para que eu chegasse no Nabizão e me encontrasse com o Alemão e o Moisés, lateral-esquerdo do Corinthians, pertinho do estádio. Os dois me ajudaram a subir as escadas que davam acesso aos vestiários. Depois, o Alemão me apresentou a todos, um a um, de atletas aos demais funcionários do Massa Bruta. Todos muito atenciosos.

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Ficamos nos vestiários por um tempinho, conversando e aguardando a resposta do delegado da partida para liberar a entrada em campo. A resposta demorava. A apreensão batia – e a ansiedade também. Eis que, felizmente, tudo deu certo e conseguimos o aval. Só de ter tido aquela resposta positiva foi uma vitória e uma alegria – sobretudo, por ter sido barrado no estadual.

O início do jogo se aproximava. Fiquei em uma área perto do estádio, ao lado do primo que me acompanhou e de outros profissionais do Bragantino. Depois, o pessoal me colocou em uma área de mais fácil acesso ao campo à minha cadeira. Então, entrei no palco do espetáculo.  O Leandro Fernandes, assessor de imprensa e diretor de marketing do Massa Bruta, conseguiu fotografar a minha felicidade. No meio de campo, ainda registraram o momento em que eu e os atletas do Bragantino estávamos juntos.  Quando saudei a torcida, a emoção bateu. A ficha caiu que havia, enfim, conseguido. Eu nem sabia como reagir. Só a felicidade que eu sentia já me bastava pelo fato de estar ali.

Infelizmente, o Alemão saiu machucado no segundo tempo. E o Náutico venceu o Bragantino por 2 a 0. De qualquer forma, a minha grande vitória já tinha acontecido.

Um momento simples, mas de grande valor

Após o jogo, voltei aos vestiários e conversei um pouco mais com os atletas. Foi um jogo diferente. Acompanhar do início ao fim uma partida de futebol, sobretudo os bastidores de um duelo, é espetacular. E especialmente importante para mim, que sonho em seguir em frente com o jornalismo esportivo.

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Quando cheguei em casa, alguns torcedores haviam encontrado meu perfil no instagram e até me parabenizaram por minha história de vida. Apesar da derrota, aquele jogo acabou coroando uma grande amizade. Uma ação de solidariedade, permitida pelo delegado da partida em conjunto com os profissionais competentes do Bragantino. E o sentimento de realização para mim, Ronald Capita. O simples gesto me deu certeza de que, quando você quer muito algo, você é capaz de realizá-lo. Independentemente dos obstáculos que são colocados em sua vida.

alemao e capita

Por fim, espero que a minha entrada em campo sirva como exemplo para as pessoas. Não só por minha luta de vida, mas, sobretudo, a importância que o esporte tem (principalmente futebol) em promover grandes ações. É completamente diferente para mim, como portador de necessidades especiais, ver um cadeirante entrando em campo. Por abrir os olhos dos apaixonados por futebol, deve servir como espelho e estimular ainda mais o debate sobre a acessibilidade nos estádios de futebol, algo que é pouco discutido no Brasil e precisa ainda de muitas melhoras. Em um mundo tão preconceituoso, o tratamento igualitário dado a nós, cadeirantes, já é uma vitória. Torço para que outros sonhadores, outros portadores de necessidades especiais, possam ter a oportunidade que tive. Com muita luta e força de vontade, são capazes. Todos são.

* Ronald Capita é colaborador do Torcedores.com. Dentre outros assuntos, escreve esporadicamente sobre acessibilidade nos estádios brasileiros. Quem quiser acompanhá-lo, é só procurar por suas páginas no Twitter, no Facebook e no Instagram.