Há um vídeo clássico filmado nos bastidores da seleção francesa às vésperas da final da Copa de 1998. Nele, os melhores marcadores dos Bleus demonstram sua preocupação com o talento de Ronaldo. Marcel Desailly e Lilian Thuram não escondem os temores em encarar o Fenômeno, pela maneira como o brasileiro se movimentava rapidamente e conduzia a bola com habilidade. No fim das contas, o trabalho dos franceses não foi tão grande, após a convulsão do artilheiro. De qualquer maneira, a reverência permanece. E isso segue imutável, como Desailly evidenciou em entrevista publicada pela Mundial Magazine. A lenda de Nantes, Olympique de Marseille, Milan e Chelsea exala respeito ao falar sobre o camisa 9. Inclusive, o coloca à frente de Zidane como melhor jogador da geração. Abaixo, traduzimos os trechos da rápida conversa com o repórter James Bird.

Sobre Ronaldo

 

“Na história do futebol, você tem um pequeno número de jogadores que foram os melhores – os melhores de suas gerações. Você tem que escolher Pelé, você tem que escolher Maradona. Mas depois disso, você tem Ronaldo, não Zidane – e tem que ser Ronaldo. Eu estava jogando no Milan quando ele defendia a Inter. Provavelmente vivia mina melhor fase e tinha Paolo Maldini ao meu lado. Mas jogar contra Ronaldo era o único momento em que vi Maldini preocupado. Ele me dizia: ‘Marcel, você tem que ficar perto de mim, eu preciso de sua ajuda aqui. Temos que dobrar a marcação. Quando ele pega a bola e arranca, temos que dobrar em cima dele'”.

“Ele foi incrível. Ele era um mágico. Uau – era a impressão de todos jogando e de todos assistindo – uau. Quando Ronaldo pegava a bola, era como… ahhhh! O estádio inteiro zumbia. Ele era o único jogador que deixou esta marca incrível nas pessoas que o assistiam. Foi tão triste que ele tenha se machucado, provavelmente restringiu 70% de seu potencial. Se ele não tivesse se lesionado, ele poderia ter feito qualquer coisa”.

O Olympique que venceu a Champions

“Somos o único time francês a conquistar a Champions. Naquela época, Bernard Tapie estava construindo uma nova equipe a cada ano e nosso time em 1993 provavelmente foi o melhor dos anos com Tapie. Chris Waddle, Mozer e Jean-Pierre Papin, que eram estrelas no Olympique, deixaram o time no ano anterior. Ninguém, inclusive nós mesmos, esperava que ganhássemos a Champions naquele ano. Tínhamos jogadores fantásticos, como Rudi Völler e Alen Boksic, mas ninguém esperava que fossemos tão longe. E, porque não tínhamos uma estrela individual, precisávamos trabalhar coletivamente. Fizemos isso”.

“Permanecerá na história como o primeiro time francês. Mas também ficará na história de Marselha, essa cidade incrível. Esse lugar maluco. Não há racionalidade – as pessoas te amam em um momento e te odeiam no seguinte. Que lugar excitante. Não é uma cidade como as inglesas, nenhum lugar tem um comportamento cívico similar. É parecido com Napoli, que tem uma mentalidade latina. Há muitos imigrantes, muita gente que não tem dinheiro. Mas é um lugar tão especial, e o futebol tem a capacidade de realmente mudar as coisas, de fazer a cidade parecer magnífica. Mesmo se você estiver sentado em seu quarto com uma TV e uma cerveja, e as crianças estiverem correndo ao seu redor, esses momentos do futebol podem te fazer esquecer qualquer problema”.

Os jogadores atuais

“Penso que Sergio Ramos é o melhor zagueiro atuando no futebol atualmente. Ele é um líder, é inteligente e marca gols importantes. Adoraria ter jogado ao seu lado. Algumas vezes ele comete muitas faltas, mas você não pode ser perfeito. Ele pode ter um pouco mais de técnica do que eu, mas certamente eu poderia ser mais duro ao seu lado. Muito parecido com a relação que eu tive com Laurent Blanc”

“E eu realmente não gostaria de jogar contra Luis Suárez. Ele é um pouco como Inzaghi. Era horrível marcá-lo, passava 90 minutos sem prazer. Suárez tem habilidade e sabe driblar, mas contra Inzaghi era péssimo – sem habilidade, nada. Eu ficava na mesma linha, olhava ao redor para saber onde ele estava, tocava-o levemente e ele desapareceria do nada. Então, de repente, eu o perderia de vista, procuraria e ele marcaria o gol – como um mágico. Há muita tensão quando você joga contra esse tipo de jogador. Você sabe que a qualquer momento ele pode tirar vantagem de você. E você sabe que ele não dará combate físico. Eu precisava de atacantes que poderiam me dar um retorno no contato físico. Suárez não faz isso, ele não te dá um ponto de referência – ele encosta e sai do caminho. Nunca há um momento do jogo em que você pensa que tirou vantagem dele. De repente, você nota ele correndo porque marcou um gol e ele te olha de canto de olho, como se estivesse rindo por ter te pegado”.


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