Destemido. Essa é a qualidade mais valorizada em goleiros e quem afirma é um dos maiores especialistas da história da profissão. Entre um arqueiro técnico e um destemido, qualquer treinador escolheria o segundo, afirma o Gianluigi Buffon de 41 anos ao Gianluigi Buffon de 17 anos, em uma carta aberta publicada pelo Player’s Tribune.

O problema é que o medo é um mecanismo de proteção. Caso você não o tenha, nunca o tenha, pode perfeitamente fazer muitas bobagens e coisas perigosas. Como o próprio Buffon admite, “se você viver de maneira niilista, pensando apenas em futebol, faz com que sua alma comece a murchar”. Nesse caso específico, levou o goleiro, no auge de sua carreira, a passar por uma depressão, aliviada apenas pelo acaso e pela mágica da arte.

Um dia, Buffon decidiu trocar de restaurantes para o café da manhã e passou à frente de um museu que abrigava uma exposição do pintor russo Marc Chagall. Por algum motivo, decidiu mudar ainda mais sua rotina e dar uma olhada nos quadros antes de calçar as luvas para trabalhar. Um em especial o fez lembrar dos bons sentimentos da infância, especialmente daquele que o levou a ser goleiro.

Foi durante a estreia da Copa do Mundo de 1990, entre Camarões e Argentina, a grande zebra africana. Um jovem Gianluigi ficou fascinado com o goleiro camaronês Thomas N’Kono, suas roupas, sua personalidade e a maneira como saía sem medo do gol para socar a bola. Foi naquele momento que Buffon decidiu ser goleiro.

Daquela tarde vendo televisão enquanto a avó cozinhava à depressão aliviada por um quadro russo, passando por um ato de vandalismo público e uma explicação bem deslocada do polêmico episódio em que usou uma camiseta com um slogan fascista, o veterano escreveu essa história no Player’s Tribune. A tradução na íntegra segue abaixo. O original, em inglês, aqui.

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Uma carta ao meu eu jovem

Por Gianluigi Buffon

Querido Gianluigi de 17 anos,

Escrevo esta carta para você, como um homem de 41 anos que passou por muitas, muitas coisas na vida, e cometeu alguns erros. Tenho boas e más notícias. A verdade é que estou aqui para falar sobre sua alma.

Sim, sua alma. Você tem uma, acredite se quiser.

Vamos começar com as más notícias. Você tem 17 anos. Está prestes a virar um jogador de futebol de verdade, como em seus sonhos. Você acha que sabe tudo, mas a verdade, meu amigo, é que sabe porra nenhuma.

Em apenas alguns dias, terá a chance de ser titular pela primeira vez no Campeonato Italiano, pelo Parma, e não sabe o suficiente para estar assustado. Você deveria estar na cama, bebendo leite quente. Mas o que fará? Irá à balada com seu bom amigo das categorias de base.

Você beberá apenas uma cerveja, certo?

Mas, então, exagera um pouco. Faz o personagem do filme. O homem forte. É assim que você geralmente lida com a pressão que nem sabe que sente. Em breve, estará no lado de fora da casa noturna, discutindo com policiais à 1h da manhã.

Só vai para casa. Vai para cama.

E, por favor, eu imploro, não mije na roda do carro de polícia. Os policiais não acharão engraçado, o clube não achará engraçado, e você colocará em risco tudo pelo que trabalhou.

Esse é o tipo de caos que você causa a si mesmo, sem nenhum motivo. Há um fogo dentro de você que o levará a cometer alguns erros. Claro, você acha que está mostrando aos companheiros que é forte e livre, mas, na verdade, é apenas uma máscara que você usa.

Em apenas alguns dias, você receberá três coisas muito, muito intoxicantes, mas também muito, muito perigosas.

Dinheiro, fama e o emprego dos seus sonhos.

Agora, você está certamente pensando, O que poderia ser perigoso nisso tudo?

Bom, é um paradoxo.

Por um lado, é verdade que goleiro precisa de confiança. Precisa ser destemido. Se você der a um treinador a escolha entre o goleiro mais técnico do mundo e o goleiro mais destemido do mundo, eu garanto que ele escolherá o maldito do destemido todas as vezes.

Por outro lado, uma pessoa destemida pode facilmente esquecer que tem um cérebro. Se você viver sua vida de uma maneira niilista, pensando apenas em futebol, sua alma começará a murchar. Eventualmente, você se tornará tão deprimido que não conseguirá levantar da cama.

Pode rir, se quiser, mas acontecerá com você. Acontecerá no auge da sua carreira, quando você tiver tudo que um homem pode querer na vida. Terá 26 anos, será o goleiro da Juventus e da seleção italiana. Terá dinheiro e respeito. As pessoas até o chamarão de Super-Homem.

Mas você não é um super-herói. Você é apenas um homem, como qualquer outro. E a verdade é que a pressão dessa profissão pode transformá-lo em um robô. Sua rotina pode se transformar em uma prisão. Você treina. Você volta para casa e vê televisão. Você dorme. Você faz o mesmo no dia seguinte. Você vence. Você perde. E repete. E repete.

Uma manhã, quando você sair da cama para treinar, suas pernas começarão a tremer incontrolavelmente. Estará tão fraco que não conseguirá dirigir seu carro. Inicialmente, pensará que é apenas fadiga, ou um vírus, mas as coisas ficarão pior. Tudo que você desejará fazer é dormir. No treino, cada defesa parecerá um esforço titânico. Por sete meses, você terá dificuldade para encontrar alegria na vida.

Neste momento, precisamos fazer uma pausa.

Porque eu sei o que você está pensando, lendo isto aos 17 anos.

Você está dizendo: “Como isso é possível? Sou uma pessoa feliz. Um líder nato. Se serei o goleiro da Juventus, ganhando milhões, então serei feliz. É impossível ficar deprimido”.

Bom, preciso fazer uma pergunta importante. Por que você decidiu devotar sua vida ao futebol, Gigi? Você lembra?

E, por favor, não diga apenas que foi por causa de Thomas N’Kono. Você precisa ir mais a fundo do que isso. Precisa lembrar cada detalhe.

Sim, você tinha 12 anos.

A Copa do Mundo de 1990 foi na Itália, sim.

A primeira partida foi Argentina x Camarões no San Siro, sim.

Mas onde você estava durante a primeira partida? Feche seus olhos. Você estava em sua sala, sozinho. Por que não havia amigos com você, como sempre? Você não lembra. Sua avó estava na cozinha fazendo o almoço. E estava tão quente naquele dia que ela fechou todas as janelas para deixar a sala mais fresca. Estava completamente escuro, exceto pelo brilho amarelo da televisão.

O que você vê?

Você vê aquele nome estranho. Camarões.

Você não sabe onde fica Camarões. Você nem sabia que um lugar como aquele existia antes disso. Claro, você conhece a Argentina e Maradona, mas há algo mágico nos jogadores de Camarões. Estava tão quente debaixo daquele sol, mas o goleiro deles ainda estava usando o uniforme completo. Longas calças pretas. Longa camiseta verde com gola rosa. A maneira como ele se move, a maneira como levanta a cabeça, o fantástico bigode. Ele cativa seu coração de uma maneira inexplicável.

Ele é o cara mais legal que você já viu.

O comentarista diz que o nome dele é Thomas N’Kono.

Thomas N’Kono, de Camarões (Foto: Getty Images)

E, então, mágica.

Há um escanteio para a Argentina, e Thomas corre em direção à aglomeração e soca a bola 30 metros no ar. É naquele momento que você descobre o que quer fazer da vida.

Você não quer simplesmente ser um goleiro.

Você quer ser aquele tipo de goleiro.

Quer ser selvagem, corajoso, livre.

Minuto a minuto, vendo a partida, você se torna quem você é. Sua vida está sendo escrita. Camarões marca, e você fica tão nervoso torcendo para eles segurarem o resultado que, fisicamente, não aguenta mais. Levanta-se do sofá. Passa o segundo tempo inteiro andando em volta da televisão. Quando Camarões tem um segundo homem expulso, não aguenta mais ouvir.

Nos últimos cinco minutos, agacha-se atrás da televisão, com o som desligado.

De vez em quando, dá uma olhada para ver o que está acontecendo e depois recua.

Finalmente, você espia, e os jogadores de Camarões estão comemorando. Você corre em direção à rua. Duas outras crianças do bairro fazem a mesma coisa. Todos estão gritando. “Você viu Camarões? Você viu Camarões?”.

Naquele dia, nasce um fogo dentro de você. Camarões é um lugar que existe. Thomas N’Kono é um homem que existe. Você mostrará ao mundo inteiro que Buffon existe.

É por isso que você virou um jogador de futebol. Não por dinheiro e fama. Por causa da arte e do estilo daquele homem Thomas N’Kono. Por causa da alma dele.

Você precisa se lembrar disso: dinheiro e fama não são o propósito. Se você não tomar conta de sua alma, se não procurar inspiração fora do futebol, você se deteriorará. Se eu puder dar um conselho, é que você seja muito mais curioso sobre o mundo em torno de você quando ainda for jovem. Você evitará, a você e a sua família, muita dor de cabeça.

Ser um goleiro é ser corajoso, é verdade.

Mas ser corajoso não é ser ignorante, Gigi.

Nas profundezas da sua depressão, algo estranho e lindo acontecerá. Uma manhã, você decidirá quebrar sua rotina e ir a um restaurante diferente em Turim para o café da manhã. Então, tomará uma rota diferente pela cidade e passará à frente de um museu de arte.

No lado de fora, haverá um pôster dizendo CHAGALL.

Você havia ouvido o nome antes, mas não sabe nada de arte.

Você tem coisas para fazer.

Precisa ir.

Você é Buffon.

Mas quem é Buffon?

Quem é você, de verdade?

Você sabe?

Esta é a parte mais importante da carta. Você tem que entrar no museu, naquele dia específico. Será a decisão mais importante da sua vida.

Se você não entrar naquele museu, e seguir a vida como jogador de futebol, como Super-Homem, continuará a prender seus sentimentos no porão, e sua alma se deteriorará.

Mas, se você entrar, verá centenas de pinturas de Chagall. A maioria não causará nada a você. Algumas são boas, algumas interessantes, algumas não lhes dizem absolutamente nada.

Mas, então, verá uma obra específica que o atingirá como um raio.

Chama-se The Walk.

É quase uma imagem infantil. Um homem e uma mulher estão em um parque, fazendo um piquenique, mas tudo é mágico. A mulher está voando em direção aos céus, como um anjo, e o homem está no chão, segurando sua mão, sorrindo.

É como o sonho de uma criança.

A imagem transmitirá algo de outro mundo. Dará a você o sentimento de uma criança. O sentimento de felicidade na simplicidade.

O sentimento de Thomas N’Kono socando a bola 30 metros no ar.

O sentimento de sua avó chamando-o da cozinha.

O sentimento de se sentar atrás da televisão no escuro, rezando.

À medida em que ficamos mais velhos, podemos facilmente esquecer esses sentimentos.

Você precisa voltar ao museu no dia seguinte. É essencial.

A mulher na bilheteria lhe olhará de um jeito estranho. Ela dirá: “Você não esteve aqui ontem?”.

Não importa. Entre novamente. Aquela arte será a melhor cura para você. Quando você abrir sua mente, o peso interno que você sentia será erguido, como aquela mulher erguendo-se no ar na pintura de Chagall.

Há uma incrível ironia naquele momento. Às vezes, acho que a vida foi escrita para nós. Tantas coisas inexplicáveis e lindas que acontecerão com você precisam estar conectadas. Esta é uma delas.

Porque quando você for um jovem jogador do Parma, fará algo de maneira ignorante que o marcará. Antes de um grande jogo, desejará fazer um grande gesto a seus companheiros e aos torcedores, para mostrar que você é um líder, que você é corajoso, que tem um grande caráter.

Você escreverá uma mensagem na sua camiseta que uma vez você viu marcada em uma carteira da escola.

Escreverá “Morte aos Covardes”.

Você pensa que é apenas uma frase motivacional.

Você não sabe que é o slogan de fascistas de extrema-direita.

Esse é um dos erros que causará muita dor à sua família. Mas esses erros são importantes porque eles fazem com que você se lembre de que é humano. Eles o lembrarão, uma vez atrás da outra, que você sabe porra nenhuma, meu amigo. Isso é bom, porque o futebol fará um excelente trabalho para tentar convencê-lo de que você é especial. Mas você precisa se lembrar de que não é diferente do atendente de bar ou do eletricista, dos quais você será amigo a vida toda.

É isso que você tirará de lição da sua depressão. Não se lembrar de que você é especial, mas se lembrar de que você é igual a todo mundo. Você não pode compreender isso agora, aos 17 anos, mas prometo que a verdadeira coragem é mostrar fraqueza e não ter vergonha.

Você merece o presente da vida, Gigi. Como todos os outros. Lembre-se disso.

As coisas estão conectadas em maneiras que você é muito jovem e inocente para ver agora. Meu único arrependimento foi não ter aberto a mente para o mundo antes. Talvez isso seja apenas quem você é. Aos 41 anos, você ainda sente aquele fogo dentro de você. Você ainda não está satisfeito, sinto dizer. Segurar o troféu da Copa do Mundo em seus braços não aliviará esse sentimento. Até que tenha uma temporada inteira sem sofrer gols, você não ficará contente.

Sim, talvez seja verdade que você sempre foi assim.

Você se lembra do primeiro inverno em que visitou seu tio em Udine, nas montanhas? Ou é aquele tipo de memória que apenas um velho consegue lembrar?

Você tinha quatro anos. Havia nevado à noite. Você nunca havia visto a neve antes. Acorda e olha pela janela e vê um sonho. O campo inteiro ficou branco.

Você corre para fora de pijama e nem mesmo entende o que era a neve. Mas não houve hesitação. Você olhou para um monte de neve e o que fez? Pensou? Ponderou? Correu para dentro para pegar um casaco?

Não. Você pulou para dentro dele. Destemido.

Sua avó gritava, “Gianluigi!!!!! Não! Não! Não!”

Você estava encharcado, sorrindo.

Acabou tendo febre por uma semana.

Mas não deu a mínima.

Sem hesitação. Direto na neve.

Esse é quem você é.

Você é Buffon.

Você mostrará ao mundo que existe.