Disse Andrés Sánchez, presidente do Corinthians, ao jornal Lance!: “Vamos mostrar a estrutura do clube. Para ninguém mais falar que tem (treinador) mágico”. Osmar Loss, um dos auxiliares da comissão técnica, havia assumido o cargo de Fábio Carille, recém-anunciado pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita, e a crença era de que a estrutura montada pelo clube paulista era mais preponderante para os bons resultados do que o nome do homem que escala o time e comanda os treinamentos.

O tempo acabou mostrando que não é bem assim: Osmar Loss foi deposto, depois da derrota para o Ceará, na noite da última quarta-feira. Não será mais o técnico principal, mas ainda pode voltar ao posto de auxiliar. São apenas três vitórias nas últimas dez partidas, e uma delas, contra o Colo-Colo, não valeu nada. Sánchez tem razão em dizer que não existe treinador mágico, mas existe treinador melhor ou pior, e a estrutura, importante como é, sozinha não carrega um time ao sucesso. Faz diferença quem está no comando.

Até porque a estrutura, que em termos relativos é realmente muito boa, também não contém nenhum tipo de feitiçaria. O centro de treinamentos é de primeira categoria, mas os de muitos outros clubes brasileiros também são. O estádio, novinho, gera boleto atrás de boleto e sufoca as contas alvinegras. A comissão técnica é qualificada, porém Carille foi embora com dois de seus homens (o auxiliar Leandro da Silva, o Cuca, e o preparador físico Walmir Cruz) e com outro da equipe fixa (Mauro da Silva, observador). Em uma segunda leva, saíram Denis Luup, chefe do CIFUT (Centro de Inteligência do Futebol, a turma da análise de desempenho) e o preparador de goleiros Mauri Lima.

O estilo de jogo muito bem definido desde os tempos de Tite campeão da América do Mundo ajuda a formar um ponto de partida sobre o qual trabalhar, mas nada disso adianta sem os jogadores para executá-lo. E o Corinthians que Loss tem à disposição nada tem a ver com o de Carille. Pouco tem a ver inclusive com o que o próprio Loss assumiu antes da Copa.

O Corinthians perdeu Pablo, Guilherme Arana e Jô no começo do ano. E, do time da estreia de Loss, contra o Millonarios, despediu-se de Maycon, Balbuena, Rodriguinho e Sidcley (que já havia sido a reposição de Arana) durante a janela do meio do ano. Uma equipe em constante mutação, enfraquecendo-se a cada saída e entrada, é uma receita perigosa para um técnico de pouca experiência – como treinador principal, ele tem passagens curtas por Juventude e Bragantino, e interinamente no Internacional.

Loss está no Corinthians desde 2013 e tem um bom currículo nas categorias de base, com dois títulos da Copa São Paulo em quatro finais seguidas. É antiga a expectativa de que uma hora daria o salto para o time principal, e talvez isso aconteça novamente no futuro, se ele aceitar voltar para a comissão técnica. Carille também teve algumas visitas breves ao time principal antes de se firmar. E vale lembrar que foi efetivado quase por acaso. Chegou a ser descartado pela diretoria, que voltou atrás quando não conseguiu fechar os nomes que queria.

A oportunidade que Loss recebeu não foi das melhores. Além do desmanche, assumiu sem espaço para respirar, com partidas de quarta e domingo desde o seu primeiro jogo até a pausa para a Copa do Mundo. Nesse período, conseguiu apenas uma vitória, contra o América Mineiro, por 1 a 0, com cinco derrotas e dois empates. Ganhou crédito pelas condições adversas em que assumiu, mas tinha a obrigação de voltar melhor da inter-temporada. E até voltou: quatro vitórias em cinco jogos, embora a outra partida tenha sido uma derrota para o São Paulo, no último jogo de Rodriguinho.

Ele teve alguns méritos, como aproveitar a fase iluminada de Romero como falso centroavante para arrancar alguns gols, e o crescimento de Pedrinho, mas os resultados começaram a desaparecer e não havia um bom rendimento em paralelo para lhe dar argumentos. Além daquela vitória contra o Colo-Colo, que significou a eliminação na Libertadores, houve apenas outras duas nas últimas dez partidas: 1 a 0 contra a Chapecoense e contra o Paraná.

E diz muito que o 2 a 1 diante dos chilenos tenha sido um dos melhores jogos do Corinthians sob o comando de Loss. Dá a medida de como foram os outros. São válidas as ponderações de que o treinador não encontrou as melhores condições para trabalhar, principalmente pelas constantes mudanças de elenco, mas também não é razoável imaginar que outro treinador não consiga produzir um jogo melhor do que o que o Timão tem demonstrado nas últimas partidas.

Outro ponto que faz parte dessa estrutura sempre citada pelo Corinthians é a paciência com treinadores. E é fato que a diretoria já segurou técnicos quando outros clubes certamente os demitiriam e que concede mais tempo do que a média. Mas, no dilema “não demite porque ganha ou ganha porque não demite”, fica claro que a resposta certa está mais próxima da primeira afirmação do que da segunda – o que seria de Carille se não tivesse vencido o primeiro clássico do Paulista contra o Palmeiras ou se perdesse nos pênaltis para o Brusque na segunda fase da Copa do Brasil?

Quando não ganha, a rotatividade no Parque São Jorge é alta como em qualquer outro lugar. No começo de junho, Andrés Sánchez disse que Loss ficaria até o fim do ano, “e o ano inteiro de 2019 também”. Uma sequência ruim de resultados fez com que o presidente mudasse de ideia. A situação atual é parecida com a de 2016, quando Tite saiu para a seleção, e o Corinthians teve três treinadores diferentes. Agora, parte para de novo para o terceiro e precisa escolhê-lo muito bem porque já são oito pontos de distância para a zona de classificação para a Libertadores e apenas sete para a zona de rebaixamento.