A Uefa criou regras mais duras contra corrupção e propina nas candidaturas para sediar eventos da instituição, com intuito de prevenir que votos sejam comprados. Para isso, atualizou o seu código de ética de modo que os dirigentes não podem receber vantagem ou parecer que recebeu uma vantagem imprópria. A mudança acontece justamente na semana que a Fifa divulgou o Relatório Garcia (que investigou se houve irregularidade na escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022), que detalha vários dirigentes agindo de forma que descumpre exatamente o que esse texto diz.

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O novo Código Disciplinar da Uefa passa a trazer mais de 700 palavras dedicadas a “provisões éticas” que são esperadas de dirigentes que supervisionam o futebol do continente. Segundo o texto, os dirigentes devem “agir com completa honestidade”. Algo que, por si, parece pouco. Mas vai além. Os membros do Comitê Executivo que votam em quem será sede das competições Uefa são alertados que eles têm “dever de cuidado e fidelidade” para tomar as decisões sem tentar enriquecer a sai mesmo ou membros da sua família.

“Eles são obrigados a cumprir fielmente a suas responsabilidades e tomar decisões com boa consciência e boa fé, de acordo com critérios objetivos e nunca com base em qualquer vantagem indevida, real ou aparente, pecuniária ou não”, diz o texto do novo código.  Por este texto, diversos dirigentes estariam em maus lençóis se agissem como é descrito no Relatório Garcia. Alguns foram levados ao Brasil em jato pago pelo Catar, além de receberem presentes e pequenos agrados.

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Sede da final da Champions League passará por processo seletivo

A final da Champions League, em sede pré-determinada, será decidida da mesma forma que a Eurocopa: por meio de votação do Comitê Executivo. O Comitê Executivo da Uefa tem 17 pessoas e irá escolher, em setembro, quem será a sede da final da Champions League de 2019, Madri, capital espanhol, ou Baku, no Azerbaijão.  A edição de 2018 será em Kiev, na Ucrânia.

O texto fala especificamente em propina e alerta dirigentes que “não ofereçam, prometam, deem ou aceitem, direta ou indiretamente, nenhuma concessão ou benefício de qualquer natureza com o objetivo de influenciar o processo de decisão da Uefa, seja em assuntos relacionados a negócio ou qualquer outra esfera comercial ou de outra forma”. Apenas presentes ou benefícios “de natureza simbólica ou tradicional” podem ser oferecidos ou aceitos.

“As pessoas vinculadas por estas disposições só devem oferecer ou aceitar presentes ou outros benefícios que não podem razoavelmente serem considerados suscetíveis de influenciar seu comportamento, criando qualquer forma de obrigação ou resultando em qualquer conflito de interesse”, continua o texto da Uefa.

A mudança é uma das muitas feitas pelo presidente da entidade, Aleksander Ceferin, que sucedeu Michel Platini no cargo, após a punição que o francês sofreu por receber, de forma indevida, dinheiro da Fifa. Foi o mesmo caso que afastou Joseph Blatter – que foi quem pagou.

É claro que o texto não cobre todos os casos e, em última instância, os candidatos podem alegar que “dar presentes é parte de uma tradição”, como fizeram os representantes do Catar ao responder sobre presentes e benefícios, como a viagens no jato particular do governo do país para dirigentes. Porém, neste caso, a aparência de conflito de interesse já seria suficiente para configurar uma violação.

Em uma semana que a Fifa divulga o Relatório Garcia e fica evidente que a entidade que dirige o futebol mundial sabia que o processo de candidatura das Copas de 2018 e 2022 estava corrompido, a atitude da Uefa é, ao menos, uma resposta interessante. Diante de tudo que foi relatado por Michael Garcia – e escondido pela Fifa durante quase três anos –, a entidade poderia ao menos ter feito como a Uefa nesse sentido.

Instituir regras mais duras contra os dirigentes que cometeram atrocidades éticas seria o mínimo que a Fifa deveria ter feito, já que deveria mesmo era ter investigado cada um dos dirigentes envolvidos em atitudes no mínimo suspeita e, sim, refazer a votação tão corrompida que levou a Copa do Mundo à Rússia e Catar em 2018 e 2022 respectivamente.

A Uefa tem seus problemas, e não são poucos. Mas desta vez, acerta com a sua mudança. Ao menos tenta evitar que esse tipo de atitude, de quem é candidato ou de quem tem poder de voto, se repita.