A seleção da França vive constantemente momentos turbulentos em grandes competições. Desta vez, a controvérsia na França diz respeito à opção do técnico Didier Deschamps em deixar fora da convocação o atacante Karim Benzema, do Real Madrid, e um dos principais jogadores franceses em atividade. A casa do treinador, em Concarneau, no nordeste da França, foi pichada com a palavra “racista”, segundo o jornal Le Télegramme, depois de declarações de Benzema o acusando de ceder a grupos extremistas de direita ao não convocá-lo para a Eurocopa.

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Benzema é investigado pela justiça francesa de participar de uma extorsão a Mathieu Valbuena por causa de um vídeo sexual do jogador do Lyon. O centroavante prestou depoimentos à polícia e alega ser inocente. O caso deixou os dois jogadores fora da seleção, em uma decisão anunciada em abril pela Federação de Futebol da França.

Benzema acusou Deschamps de ceder a grupos racistas de extrema direita ao deixá-lo de fora da convocação para a Eurocopa. Alguns políticos já tinham manifestado serem contrários à convocação de Benzema nos últimos meses, o que colocou mais gasolina na questão.

O primeiro ministro da França, Manuel Valls, chegou a dizer que Benzema deveria ser deixado de fora da seleção francesa depois do episódio com Valbuena. Na época, em março, o político francês afirmou que “ainda não há condições de convocar Benzema”, que “um esportista tem que ter comportamento exemplar” e que “ele ainda está sob investigação”. Terminou dizendo que a decisão, porém, era da FFF e do técnico.

O ministro dos esportes da França, Patrick Kanner, também se disse contrário à convocação de Benzema. “Minha posição é de um ministro dos esportes que pensa que é preciso ter um caráter exemplar, integridade, valor judicial e humano e, neste caso, os jogadores precisam levar isso em consideração”, declarou o ministro, em abril. Assim como Valls, ele disse que respeitaria a decisão da FFF e do treinador. Ambos, porém, colocaram muita pressão nas costas de Deschamps.

No dia da declaração de Valls, em março, Benzema foi rápido ao responder. No Twitter, ele escreveu: “12 temporadas que sou profissional: 541 jogos disputados, nenhum cartão verelho, 11 cartões amarelos. E falam sobre o meu comportamento exemplar?”, ironizou o atacante. É claro, a questão vai além disso e Benzema pareceu desviar o foco do que estava se falando – que obviamente tem a ver com o extracampo, neste caso.

É difícil atribuir a sua ausência a apenas este fator quando há uma questão também de gestão de grupo envolvida, depois de um jogador do tamanho de Benzema ser acusado de participar de uma extorsão em um caso delicado como esse de Valbuena. A França, porém, vive um momento conturbado. O país sofreu atentados em janeiro de 2015, com Charlie Hebdo, e em novembro, com os ataques em Paris que incluíram até os arredores do Stade de France, em amistoso da França.

Isso criou um clima que fez florescer alguns pensamentos da extrema direita francesa, muitos xenofóbicos e racistas, especialmente contra muçulmanos.

Marine Le Pen, líder da Frente Nacionalista e filha de Jean-Marie Le Pen, rebateu as declarações de Benzema com força. A FN é um partido de direita que ficou em segundo nas últimas eleições na França, no fim de 2015, e causou muito debate sobre xenofobia. “Eu acho essa declaração escandalosa”, afirmou Marine Le Pen. “Eu não estou surpresa que o senhor Benzema esconda a sua maldade em uma acusação violenta contra o povo francês”.

A neta de Jean-Marie Le Pen, Marion Le Pen, que é deputada na França, também pela Frente Nacional, foi mais uma a criticar Benzema. “Nascido e criado no nosso país, Benzema se tornou multi-milionário graças à França, que ele agora cospe”, escreveu a política em seu Twitter. Depois, ela cita uma suposta fala de Benzema, que diria “A Argélia é o meu país, a França é apenas pelo lado esportivo” e completa dizendo: “Vá jogar pelo ‘seu país’ se não está satisfeito!”.

A fala citada por Marion, porém, é falsa. A fala de Benzema é ligeiramente diferente e muda completamente o sentido. A fala é de 2006, quando ele foi chamado pelo técnico Raymond Domenech para um amistoso com a Grécia. A Argélia o convidou para jogar pela seleção norte-africana, mas ele recusou. Ele disse: “A Argélia é o país dos meus pais, está em meu coração, mas desportivamente, vou jogar pela França”.

Por todo esse contexto, Cantona também criticou a convocação de Deschamps e disse que essa pressão política pode ter sido um dos motivos para a ausência de Benzema. Parece difícil que este seja o principal motivo, porque é uma situação mais complexa do que isso. Seja como for, a polêmica na França continua.