O West Ham fez um jogo equilibrado com o Manchester City, na terceira rodada da Copa da Inglaterra. Trocou golpes até os 31 minutos, quando sofreu o primeiro gol, de Yaya Touré, em pênalti discutível, e teve a chance de empatar logo em seguida, com Feghouli perdendo uma oportunidade incrível com o gol vazio. Perto do intervalo, foi vazado pela segunda vez. Na saída de bola, pela terceira vez, e, então, desabou. Acabou goleado por 5 a 0, na quinta vez em que sofreu pelo menos quatro gols nesta temporada e em mais um jogo para esquecer.

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O clube londrino foi sétimo colocado na última Premier League, mas ficou apenas quatro pontos atrás do quarto lugar – ocupado pelo próprio City – e pressionou por vaga na Champions League até o fim. Praticamente enterrou as chances de o Manchester United chegar à principal competição europeia com uma vitória eletrizante por 3 a 2, na penúltima rodada do campeonato e no último jogo em casa no Upton Park. Depois de um bom mercado, as expectativas eram altas para a equipe de Slaven Bilic, tão grandes quanto a decepção: após 20 rodadas, os Hammers estão em 13º lugar e chegaram a passear pela zona de rebaixamento. O que aconteceu?

Podemos partir do próprio Upton Park, que foi trocado pelo moderno, gigante e, até agora, frio estádio Olímpico, construído em Stratford, no leste de Londres. A mudança foi tida como importante para o futuro do West Ham por causa das rendas que poderiam surgir de públicos maiores. A torcida não tem decepcionado: todos os dez jogos do time em casa, pela Premier League, tiveram quase 57 mil pessoas, a terceira maior média do torneio, atrás do Manchester United e do Arsenal.

No entanto, a parte técnica sofreu um forte baque. As arquibancadas do estádio Olímpico – ou London Stadium – são muito mais afastadas do gramado do que as de Upton Park, que era um verdadeiro caldeirão para as equipes visitantes. Houve vários conflitos entre diretoria e torcedores, que não quiseram abandonar velhos hábitos depois da mudança de casa. E os resultados são simplesmente horríveis: o West Ham venceu apenas quatro partidas como mandante na Premier League e perdeu outras quatro. Sofreu derrotas pesadas, como 3 a 0 para o Southampton, 5 a 1 para o Arsenal e o 5 a 0 desta sexta-feira para o Manchester City. Na temporada passada, perdeu apenas três jogos no Boleyn Ground, ganhou nove e empatou sete.

O mercado do West Ham, que parecia muito bom, provou-se muito ruim. Feghouli foi fazer seu primeiro jogo como titular na Premier League na última segunda-feira, contra o Manchester United, e acabou expulso ainda no primeiro tempo. Simone Zaza não fez nada antes de ter seu empréstimo encerrado. André Ayew, o jogador mais caro dos Hammers na janela, sofreu uma lesão no começo da temporada, estreou apenas no fim de outubro e tem, até agora, apenas seis jogos como titular. Ninguém se lembra de Jonathan Calleri, além dos torcedores do São Paulo que adorariam tê-lo de volta, e outros nomes interessantes como Gokhan Töre, Arbeloa e Nordtveit não cumpriram as expectativas.

Töre, inclusive, está machucado e não joga desde outubro. Diafra Sakho também sofreu uma séria lesão e tem apenas duas aparições na temporada. Andy Caroll foi outro que passou meses no estaleiro, assim como Aaron Cresswell, o próprio Zaza e Arbeloa. Bilic foi obrigado a improvisar Antonio como centroavante em algumas partidas, prejudicando o setor de criação para avançar um jogador que não faz tantos gols assim. E, no geral, tem sofrido bastante com uma epidemia de lesões.

O West Ham ainda se mostra um time muito dependente de Payet. O excelente meia francês é de longe, disparado, o principal criador de chances da Premier League. Deu 66 passes para finalização em 18 partidas. O segundo colocado da lista é De Bruyne, com 48. No entanto, apenas seis desses passes viraram gols. Ou seja, a cada 11 vezes que Payet coloca o companheiro em situação de finalização, apenas uma bola entra na rede. Ano passado, essa proporção foi muito melhor: um gol a cada 8,6 passes para finalização de Payet, que foi o segundo colocado desse quesito, atrás apenas de Özil (104 x 125).

Com um dos melhores cobradores de falta do mundo, o West Ham está se apoiando ainda mais nas jogadas de bola parada. É o segundo da Premier League nessa estatística, ao lado do Liverpool e atrás do West Brom. No total, dez dos seus 23 gols no torneio saíram de faltas ou escanteios, aproximadamente 43,5%. Na temporada passada, quando Payet anotou verdadeiras pinturas nesse tipo de jogada, a dependência era menor: foram 14 gols de bola parada do total de 65 tentos marcados pelo time, taxa de apenas 21,5%.

O ataque, aliás, no geral, está em má fase. Os 23 gols marcados em 20 partidas colocam o West Ham como o sexto pior ataque da competição, ao lado do Watford e do pobre Swansea, em péssimo campeonato. Na temporada passada, foi o quarto melhor, o que compensou ter tido apenas a décima defesa mais sólida. E a retaguarda está ruim também: os Hammers foram vazados 35 vezes, menos do que apenas cinco equipes do torneio.

Por fim, há um problema de postura, como mostra essa análise tática do Telegraph, que percebeu que os jogadores do West Ham estão defendendo muito mal e pressionando pouco para se recuperar dos erros cometidos. Já na pré-temporada, o técnico Bilic havia detectado o que ele chamou de complacência. “Eu senti isso. Eu não sei (o motivo) e, no fim do dia, eu sou o primeiro a dizer que isso é minha responsabilidade, sempre, porque eu sou o treinador”, afirmou.

Uma das origens, detectou ele, foi a própria imprensa. “Eu senti isso durante a pré-temporada quando conversei com a imprensa. Você tem uma coletiva, ainda na pré-temporada, antes de jogos preliminares da Liga Europa e 70% das perguntas são sobre a Champions League”, afirmou. “Jogamos em casa contra o Watford e, em uma entrevista pré-jogo, fui questionado se estava pensando em uma vitória fácil por 3 a 0. Como assim? Esta é a Premier League e nós somos o West Ham. Ninguém pode falar sobre uma vitória fácil por 3 a 0. Nós torcemos e às vezes esperamos isso, se tudo der certo, mas esse tipo de coisa nos colocou em um estado de complacência. Ninguém faz isso deliberadamente, às vezes nem percebe, mas acontece. Apenas 5% (a menos) é o bastante, com um pouco de má sorte, para nos colocar em problemas sérios”.

E isso ainda era o fim de outubro, quando o West Ham havia conseguido uma pequena recuperação na Premier League, com três jogos sem derrota, e uma vitória sobre o Chelsea, na Copa da Liga Inglesa. Desde então, no entanto, foi eliminado desse torneio pelo Manchester United – com outra paulada, em Old Trafford, por 4 a 1 -, e embarcou em uma sequência negativa de seis rodadas no torneio nacional. Acabou de ser eliminado da FA Cup e, com a derrota incrível para o Astra Giurgiu, da Romênia, ainda na fase preliminar da Liga Europa, não há mais chance palpável de título para os Hammers. Depois de outra leve recuperação na liga nacional, o rebaixamento ainda está a sete pontos de distância e não deve ser um fantasma para a equipe, mas uma temporada cheia de expectativas tende a terminar em profunda melancolia.