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A princípio, a chegada de Jonathan David, ex-Gent, ao Lille pode parecer apenas um bom negócio ao time francês. Por apenas € 32 milhões, valor baixo no mercado atual, os Dogues conseguiram vencer a concorrência de times de ligas maiores, como Premier League e Bundesliga, para contar com um dos nomes mais promissores da nova geração de atletas. No entanto, a contratação é apenas um ponto dentro de um esquema maior, parte de um padrão que tem um nome como protagonista: Luis Campos.

O divórcio de Dmitry Rybolovlev, chamado de “o mais caro da história”, ainda não havia acontecido e, portanto, não havia influenciado diretamente a política de contratações do Monaco, clube de propriedade do bilionário russo, quando a equipe do Principado foi ao mercado de transferências no verão de 2013, gastando mais de € 150 milhões para trazer estrelas como James Rodríguez, Radamel Falcao García, João Moutinho e um jovem Anthony Martial, com apenas 17 anos, entre outros nomes. No verão seguinte, Rybolovlev mudou sua postura, preparando-se para o que viria pela frente, um período de administração mais sustentável – e contou crucialmente com Luis Campos para isso.

Depois de fracassar como técnico entre os anos 1990 e 2000, Campos, por meio de seu contato com José Mourinho, trabalhou por um ano como olheiro do Real Madrid, em 2012/13, antes de assumir pela primeira vez o cargo de diretor de futebol, já no Monaco. Ali, começava a sua rápida ascensão como um dos diretores de olhar mais apurado para jogadores jovens com talento de sobra e grande potencial de retorno de investimento.

Entre 2013 e 2016, Campos atuou nos bastidores do Monaco, que se especializou em vender bem seus jovens atletas e contratar reposições também jovens, prestes a estourar e multiplicar seu valor.

Depois de transferir James Rodríguez ao Real Madrid por € 75 milhões em 2014, Campos foi buscar Bernardo Silva no Benfica por apenas € 16 milhões. Kondogbia, vendido por € 36 milhões, foi substituído por Fabinho, que estava no Rio Ave e custou € 6 milhões. Yannick Ferreira-Carrasco foi para o Atlético de Madrid por quase € 25 milhões, e o substituto, Thomas Lemar, chegou por € 4 milhões do Caen. Apenas estas três contratações, que somaram € 26 milhões, seriam vendidas, alguns anos depois, por um combinado de € 165 milhões.

Mais do que um bom negociador, estava claro que Campos era um recrutador de tino quase incomparável, e qualquer clube que pudesse contar com ele estaria à frente de seus concorrentes no mercado.

Acabada sua aventura com o Monaco, o próximo destino do português é também na França. O Lille estava prestes a ser vendido em 2016, e Campos se tornou conselheiro esportivo do empresário Gérard Lopez, um dos candidatos à aquisição, que por fim acabou arrematando o clube.

Em 2017, o português foi oficializado como o diretor esportivo dos Dogues. A partir daí, fica mais fácil entender o destaque do clube em sua atuação no mercado de transferências desde então.

Rafael Leão, da base do Sporting, chega de graça em 2018 e, após temporada de sucesso, acaba vendido em 2019 ao Milan por € 23 milhões. Paralelamente, Nicolas Pépé, principal destaque daquele 2018/19, é negociado por € 80 milhões com o Arsenal, tendo sido comprado dois anos antes por € 10 milhões.

A rede de observação de Campos é boa, seus critérios, precisos, e o plano já está armado. Rapidamente, Leão é substituído por Victor Osimhen, ex-Charleroi, da Bélgica, que chega por € 22,4 milhões. Além das contratações de maior destaque, as outras também seguem o perfil jovem: Timothy Weah chega do PSG, Léo Jardim, do Rio Ave, Tiago Djaló, do Milan, e Bradaric, do Hajduk Split, são alguns dos recrutados de 2019, com o goleiro brasileiro vindo do futebol português sendo o mais velho entre eles: 24 anos.

A engrenagem de Luis Campos parece nunca parar de girar. Apenas uma temporada depois de chegar, Osimhen já deixa o Lille, em direção ao Napoli, por incríveis € 70 milhões, uma valorização de quase € 50 milhões em um ano. Cada vez mais se estabelecendo como uma boa vitrine para um salto de qualidade, o time francês aumenta também sua capacidade de convencer atletas a se juntarem ao seu projeto.

É neste contexto em que Jonathan David, uma das mais empolgantes promessas do futebol atual, se despede do Gent e é apresentado no norte da França, ao custo de € 32 milhões.

Jonathan David, reforço do Lille (Divulgação/Lille)

Aos 20 anos, David acaba de ter temporada de grande sucesso no futebol belga, com 23 gols e dez assistências em 40 jogos. Membro da seleção principal do Canadá, em que é o maior destaque ao lado de Alphonso Davies, do Bayern de Munique, o atacante é observado há algum tempo e esteve no radar de clubes da Premier League e da Bundesliga, mas acabou escolhendo o que hoje parece um caminho inevitável para a rápida valorização: jogar no time de Luis Campos.

Sem ganhar os minutos que achava que merecia no Manchester United, Angel Gomes, um dos destaques das conquistas recentes das categorias de base da seleção inglesa em torneios internacionais, assinou contrato de cinco anos com o Lille e começará sua aventura europeia emprestado ao Boavista.

Gomes sempre foi visto como um jogador de potencial excepcional, e sua escolha similar à de David indica que o clube francês, a cada janela bem-sucedida e a cada grande venda, ganha reputação como um destino de médio porte ideal para um jogador de grande potencial se desenvolver. Em um mundo em que as hierarquias entre instituições são tão difíceis de se quebrar, esta é a melhor chance que um clube pode dar a si mesmo de saltar algumas prateleiras. Ter Luis Campos, por fim, é um grande facilitador neste processo.