Um dos dois únicos estádios construídos às vésperas da Copa de 1990, o San Nicola se tornou um dos palcos mais representativos do torneio. Recebeu cinco partidas, incluindo a decisão do terceiro lugar entre Itália e Inglaterra. Um ano depois, ainda sediou a final da Champions, na qual o Estrela Vermelha se consagrou. Dona de um design particular, com uma estrutura que lembrava as pétalas de uma flor, a construção serviria de suntuosa casa ao Bari, então na Serie A. Quase três décadas depois, vira o símbolo mal cuidado de um clube em queda vertiginosa. Falidos, os Galletti terão que recomeçar na Serie D a partir de 2018/19. Nesta terça, confirmou-se que Aurelio de Laurentiis, presidente do Napoli, conciliará os cargos e será o responsável por assumir o projeto ao redor da instituição centenária.

Fundado em 1908, o Bari passou a maior parte de sua história transitando entre a Serie A e a Serie B. Após a Segunda Guerra Mundial, chegou a sofrer três rebaixamentos consecutivos, mas retornou à primeira divisão ainda nos anos 1950. Já o ápice aconteceu a partir da década de 1980, quando os Galletti contrataram jogadores de renome e viveram na gangorra durante os anos de ouro do Calcio. As aparições na elite foram costumeiras até a virada do século. Já entre 2009 e 2011, uma breve estadia na Serie A, que antecedeu o início dos pesadelos.

Em março de 2014, o Bari declarou a falência pela primeira vez, embora não tenha culminado na exclusão da Serie B. Durante os últimos quatro anos, inclusive, os Galletti se acostumaram a fazer campanhas razoáveis na segundona, disputando até mesmo os playoffs de acesso em 2017/18. No entanto, as dívidas enormes levaram novamente a instituição à bancarrota. Desta vez, precisando se reerguer a partir da Serie D. Como consequência, o elenco inteiro terminou dispensado pelo clube.

A esperança para o futuro do Bari, ao menos, veio nesta terça. A cidade concedeu o título esportivo para que o empresário Aurelio de Laurentiis conduza a reconstrução. Segundo a lei italiana, o prefeito dos municípios que sediam as equipes falidas podem escolher os novos donos que liderarão o clube sucessor. Assim, o presidente do Napoli começará do zero com os Galletti. Claudio Lotito, presidente da Lazio, era outro interessado em capitanear esta nova fase no sul da Itália, mas perdeu a queda de braço.

Na confirmação do novo dirigente, o prefeito Antonio Decaro comentou a sua escolha: “Fui o responsável por manter o esporte em Bari e, nos últimos dias, falei com muita gente – torcedores, presidentes, empresas, executivos. A atividade levou a um resultado que acredito ser satisfatório, porque não esperava todas estas ofertas. Vieram 11 e preciso agradecer a todos que participaram. Pensei no bem da cidade e da torcida, que me pediu competência, respeito e transparência. Escolhi De Laurentiis porque ele tem força econômica e experiência esportiva. É a pessoa com quem mais briguei, fiz pedidos e me confrontei. Discuti bastante, ele não tem uma personalidade fácil. Mas se ele discute com alguém que vai conceder o que deseja, isso mostra como é sincero, mesmo sendo um pouco maluco”.

De Laurentiis viveu uma situação parecida no próprio Napoli há 14 anos. Famoso produtor do cinema italiano, chegou ao comando dos celestes depois de outro processo falimentar. Não apenas recolocou a equipe na Serie A, como também tornou-a bastante competitiva, entre vagas à Champions e brigas pelo Scudetto. Além do mais, os napolitanos atualmente possuem finanças sob controle, sem cometer loucuras no mercado e gastando dentro do seu orçamento. É o que se espera ver também no Bari. Se os Galletti chegarem à Serie A, entretanto, o empresário teria que deixar o comando de uma das agremiações.

Potencial o Bari possui. Conta com uma base de torcedores considerável, com médias de 15 mil por partida nos últimos anos na Serie B. Está em uma região relativamente populosa, e sem grandes clubes ao redor. Tem tradição e representatividade para atrair investidores. E há mesmo o San Nicola, assunto constante por seu alto custo de manutenção e pela falta de cuidados, mas que também pode ser reformado. Quem sabe, para receber novamente jogadores da estirpe de Antonio Cassano, Gianluca Zambrotta, Leonardo Bonucci, David Platt, João Paulo ou ainda outros que passaram pelos Galletti. Seria o mais digno ao passado da agremiação.