A noite será longa na Argélia. E também em Paris, Marselha, Cairo ou por onde mais se espalhar a comunidade argelina pelo mundo. Depois de 29 anos, enfim, a seleção do país volta a conquistar a Copa Africana de Nações. A Argélia encarou Senegal na decisão e fez a sua estratégia, se valendo das circunstâncias da partida. Não foi um jogo vistoso – longe disso, foi horrível, sendo bem sincero. O gol das Raposas do Deserto saiu logo aos dois minutos e, no restante do tempo, a equipe segurou o triunfo por 1 a 0. O chute decisivo, aliás, seria a única finalização do time de Djamel Belmadi ao longo dos 90 minutos. Todavia, os senegaleses não souberam reagir, com muitas dificuldades para criar ocasiões de gol, apesar do domínio da bola.

A conquista tem um sabor especial para a Argélia, não apenas pela espera de quase três décadas, mas também por acontecer no território de seu histórico rival, o Egito. Além do mais, a taça reconhece uma geração que, apesar dos fracassos nos últimos anos, tinha marcado o seu nome durante a Copa do Mundo de 2014. A despeito das exibições ruins nas duas últimas partidas, a equipe foi mesmo a que apresentou o melhor futebol numa CAN aquém do esperado. Mas o que fica à história é a glória a nomes como Mahrez, Bennacer e Feghouli. Estão eternizados.

Senegal com desfalque importante

Senegal tinha o maior problema para a partida. Kalidou Koulibaly estava suspenso pelo acúmulo de cartões amarelos. Salif Sané seria o seu substituto, compondo o miolo de zaga ao lado de Cheikhou Kouyaté. De resto, seguia a formação básica, com a escolha de Ismaila Sarr no lugar de Krépin Diatta na ponta direita. Já a Argélia mantinha sua escalação principal, estrelada pelo quarteto de meias formado por Riyad Mahrez, Sofiane Feghouli, Ismael Bennacer e Youcef Belaïli.

Um gol ligeiro põe a Argélia em vantagem

A Argélia começou a partida em um ritmo muito intenso. Apertava a saída de bola e acelerava no ataque. E o gol saiu logo aos dois minutos, graças a uma recuperação no meio-campo. Bennacer ficou com a posse e tocou rapidamente a Baghdad Bounedjah. O centroavante partiu para cima da marcação e arriscou da entrada da área. Salif Sané deu o carrinho e bloqueou o chute. Porém, a bola traiçoeira subiria alto e cairia justamente nas redes. Até daria tempo para o goleiro Alfred Gomis tentar se recuperar, mas ele permaneceu estático e viu o tento deixar os argelinos em vantagem.

Argélia firme num duelo travado

O gol condicionou o decorrer do jogo a favor da Argélia. O time não criava chances, mas dificultava muito a vida de Senegal, com sua marcação empenhada. O ritmo forte do time, obviamente, não se manteria o tempo todo. Com o passar dos minutos, as Raposas do Deserto começaram a afrouxar a pressão e recuaram. O problema era exatamente este: se limitar a proteger o resultado quando o confronto estava distante de uma definição. Os argelinos, assim, permitiram que Senegal crescesse a partir dos 25 minutos.

Senegal tenta sufocar

Com muita capacidade física, aos poucos Senegal começou a empurrar a Argélia contra a sua área. Faltava um pouco mais de qualidade de criação ao time, mas os lances de perigo começavam a surgir, especialmente em cobranças de falta. Os espaços se tornaram um pouco maiores nos dez minutos finais, com as duas melhores jogadas dos Leões de Teranga. Primeiro, M’Baye Niang soltou a bomba de fora da área e mandou por cima do travessão. Depois, em lançamento para Ismaila Sarr, Mehdi Zeffane travou o chute dentro da área, em lance que gerou reclamação de pênalti dos senegaleses. O time de Aliou Cissé sufocava e parecia bem mais preparado ao empate. Enquanto isso, os argelinos perdiam a mão no excesso de faltas.

Pênalti cancelado para Senegal

A situação não mudou rumo ao segundo tempo. Senegal continuou com a posse de bola e com a iniciativa, se postando no campo de ataque. Tentava aproveitar um pouco mais as jogadas pelos lados de campo, mas via a defesa argelina se fechar ao redor da área. Assim, os Leões de Teranga teriam um pênalti anotado a seu favor aos 14 minutos. Sarr cruzou e a bola bateu no braço de Adlène Guedioura. Entretanto, o árbitro Alioum Alioum reviu o lance no vídeo e corretamente cancelou a marcação, já que o braço do volante estava colado ao corpo.

As melhores chances de Senegal

A Argélia era praticamente nula no ataque. Desta vez, o quarteto de meias das Raposas do Deserto não funcionava, logo desarmado pelos marcadores de Senegal. Os argelinos não deram uma finalização após o gol, com seus lances de perigo limitados a cruzamentos na área a partir de bolas paradas. Foi neste momento que Senegal criou suas melhores chances. Aos 22, lançado em profundidade, Niang chegou a driblar o goleiro Raïs M’Bolhi, mas finalizou muito mal e mandou para fora. Três minutos depois, Youssouf Sabally mostraria mais precisão. O lateral soltou a bomba de fora da área e M’Bolhi espalmou para fora, em sua melhor defesa na decisão.

A tensão afoga Senegal

Durante os 20 minutos finais, Senegal claramente estava tenso. O time sequer conseguia alçar a bola na área, sem qualidade na criação. E, quando surgia uma brecha, ia pior nos arremates. As alterações de Aliou Cissé também não ajudaram. O treinador preferiu povoar a linha de frente, especialmente com a questionável saída de Henri Saivet, que deu lugar a Mbaye Diagne. Faltava que armasse a equipe, o que Mané não fazia. Enquanto isso, Djamel Belmadi fechava a casinha e também dava espaço a velhos ídolos. Yacine Brahimi e Islam Slimani entraram nos cinco minutos finais. A última chance de Senegal aconteceu em uma falta na entrada da área. Desperdiçada, em cobrança sobre a barreira. Toda a entrega dos argelinos seria recompensada com o apito final.

O momento histórico

A Argélia conquista o seu segundo título na história da Copa Africana de Nações. A primeira final aconteceu em 1980, mas o time seria derrotado pela Nigéria. Dez anos depois, em Alger, veio a taça inédita. Lideradas pela lenda Rabah Madjer, as Raposas do Deserto venceram outra decisão contra os nigerianos e ergueram a taça diante de 105 mil espectadores. Depois de tamanha espera, a comemoração dos argelinos será imensa.

Bonitas cenas na premiação

A emoção do técnico Djamel Belmadi se expressava antes mesmo do apito final. As lágrimas já brotavam no rosto do comandante. Enquanto isso, os jogadores da Argélia saíram correndo para comemorar com sua torcida, que lotava um dos setores das arquibancadas. Do outro lado, o abatimento de Senegal era incontornável. O técnico Aliou Cissé reuniu seus jogadores e sua comissão técnica em um círculo, onde fez seu discurso e comandou uma oração. Durante a premiação, os argelinos ainda realizaram uma guarda de honra para aplaudir os vice-campeões. A tarefa de erguer a taça caberia ao capitão Mahrez.

Ficha técnica

Argélia 1×0 Senegal

Local: Estádio Internacional do Cairo, no Egito
Árbitro: Alioum Alioum (Camarões)
Gol: Baghdad Bounedjah, aos 2’/1T
Cartões amarelos: Ramy Bensebaini, Aissa Mandi, Adlène Guedioura, Youcef Belaïli (Argélia); Idrissa Gueye, Lamine Gassama (Senegal)
Cartões vermelhos: nenhum

Argélia: Raïs M’Bolhi, Mehdi Zeffane, Aissa Mandi, Djamel Benlamri, Ramy Bensebaini; Adlène Guedioura; Riyad Mahrez, Sofiane Feghouli (Mehdi Tahrat), Ismael Bennacer, Youcef Belaïli (Yacine Brahimi); Baghdad Bounedjah (Islam Slimani). Técnico: Djamel Belmadi.

Senegal: Alfred Gomis, Lamine Gassama, Cheikhou Kouyaté, Salif Sané, Youssouf Sabaly; Idrissa Gana Gueye, Badou Ndiaye (Krépin Diatta); Ismaila Sarr, Henri Saivet (Mbaye Diagne), Sadio Mané; M’Baye Niang (Keita Baldé). Técnico: Aliou Cissé.