Demissão de Frank De Boer depois de 85 dias expõe o caos da Inter

Técnico que subsituiu Roberto Mancini, Frank De Boer não durou muito e Inter segue à deriva

Frank De Boer não é mais o técnico da Internazionale. O holandês, de 46 anos, foi demitido neste dia 1º de novembro. Um trabalho que durou apenas 85 dias. Seu trabalho, é bom dizer, não foi lá grande coisa mesmo. Só 14 jogos, mas metade deles de derrotas. Muito para um time que almejava, no mínimo, ficar entre os três primeiros e gastou para isso € 129,80 milhões na última janela de transferências. Atualmente, não passa nem perto dos primeiros colocados. Só que expõe também como o clube vive um caos que não se restringe às trapalhadas da defesa e às más atuações em campo. Está também na direção do clube.

LEIA TAMBÉM: Florenzi rompeu os ligamentos e, para apoiar o amigo, De Rossi passou a madrugada no hospital

Há um vácuo de poder na Inter. Erick Thohir deixou clara a intenção de vender o clube após a temporada passada. O grupo Suning entrou no negócio e se tornou acionista majoritária, mas manteve Thohir como presidente, em um movimento bastante estranho. Havia divergências com Mancini que se acentuaram. A sua demissão, a duas semanas do início do Campeonato Italiano, jogou no lixo toda a pré-temporada feita pelo clube – que, aliás, foi bastante ruim em termos de qualidade de futebol mostrado nos amistosos e resultados terríveis. As divergências com Mancini em relação ao mercado de transferências foi determinante na sua saída.

A contratação de Frank De Boer foi publicamente apoiada por Thohir, que considerava o técnico holandês uma boa aposta para os nerazzurri. Com os maus resultados, a demissão do ex-jogador do Ajax e Barcelona passou a ser discutida e a sua sucessão também virou um problema. O grupo chinês queria um técnico internacional, com o nome de Laurent Blanc, ex-seleção da França e Paris Saint-Germain, como o principal cotado, além do português André Villas-Boas, ex-Porto, Chelsea e Zenit.

A demissão de De Boer foi realizada nesta terça-feira em uma conferência com os executivos da Suning Holding por Skype. Nenhum problema em reuniões por Skype, mas a impressão que passa é que o grupo chinês parece não ter a mesma visão de quem dirige o clube no dia a dia, que é Thohir, sendo que o indonésio também parece ter preocupações fora da Inter. Não por acaso, se cogitou a volta de Massimo Moratti como um executivo contratado para ser o gestor do clube.

Só que a parte italiana da diretoria da Inter não quer um estrangeiro. Considera que um treinador que conheça bem a Serie A, neste momento, é uma opção melhor. Por isso, Stefano Pioli, ex-treinador da Lazio, é o nome mais cotado e pode ser anunciado em breve.

De Boer não teve tempo para trabalhar e reclamou disso. “Pena que terminou assim”, escreveu no Twitter. “Este projeto precisava de mais tempo para ser realizado. Quero agradecer todos os torcedores por todo apoio que vocês me deram durante esses meses. Forza Inter”.

O problema é que De Boer não se ajudou. Uma das informações era que o seu italiano era muito ruim, o que não ajudava na comunicação. Mas, além disso, ele tomou muitas decisões erradas e viu, por exemplo, Éder, brasileiro naturalizado italiano, reclamar após a derrota para a Atalanta que “nós não somos um grupo”. Isso sem falar em sequer ter utilizado Gabriel Barbosa, o Gabigol, uma das principais contratações do clube na temporada e uma grande aposta para o futuro. E isso mesmo com o time indo muito mal em campo.

Com o time tecnicamente mal, o mínimo que se esperava era que houvesse algum espírito de grupo para começar a melhorar. Não teve. Mesmo com a defesa pública feita por Davide Santon, que disse que os jogadores que deveriam ser culpados. O que se esperava era que De Boer conseguisse tirar mais do grupo que a Inter montou. O desempenho muito ruim – com exceção ao clássico contra a Juventus, naquela que foi a maior vitória do treinador no comando do clube – levou aos questionamentos, porque o time não apresentava melhora. Os resultados eram só a consequência.

Mas os jogadores não podem ser demitidos no meio da temporada, o técnico pode. Stefano Pioli, então, passou a ser o mais cotado e deve ser o escolhido pela Inter para guiar o time até o final da temporada. Com o elenco que o time tem, tem que brigar no alto da tabela. Se não por título, ao menos para ficar entre os primeiros colocados. O elenco da Inter, que, aliás, é caro, não é pior que o de Milan, Napoli e Roma, os times que pintam como candidatos às vagas na Champions League.

A busca de um técnico local faz sentido neste momento. Dado o caos que o clube se encontra, uma demissão como a de De Boer, depois da saída de Mancini, trazer um outro técnico que precisaria de adaptação talvez custasse caro em termos de resultados a curto prazo, algo que o clube precisa para ainda ter esperança de terminar a temporada ao menos no terceiro lugar na tabela. Pioli fez um bom trabalho em uma Lazio que era bem mais modesta que esta Inter.

Tudo isso porque no futuro a Inter sonha com um nome como Diego Simeone para a próxima temporada, ou talvez a outra ainda, em 2018. Mas precisará resolver os problemas que a afetam dentro e fora de campo.