“Vergonha. Não preciso olhar como torcedor, não. Tenho que olhar como comissão e ser ciente daquilo. Vergonhoso, não parece um time treinado, parece que se junta no vestiário e vai para o jogo. Você passa informações e depois está na beira do campo e isso não é feito. Não está faltando raça, mas tecnicamente a gente tem que ser melhor”.

A fala é de Fabio Carille, na última sexta-feira, falando sobre as atuações do Corinthians, que tinha perdido na quarta-feira para o CSA, em Maceió. A entrevista do técnico foi mais uma vez com palavras duras contra todo mundo, a começar por ele mesmo, mas passando por diretoria e jogadores. Um clima que, claramente, era muito ruim. E isso ficou claro no comunicado de demissão, feito pelo presidente Andrés Sánchez. O clube também divulgou uma nota oficial comunicando a demissão.

“Comunicar a todos, Carille não é mais treinador do Corinthians, não é o que todos desejavam, mas tivemos que tomar essa decisão”, disse Sanches. “Nós tiramos. Foi uma conversa, toda conversa de demissão é triste, ainda mais de um treinador que tem história grande no Corinthians. Tivemos de tomar essa decisão”.

A situação de Carille no Corinthians parecia ruim há algum tempo. A questão era saber quem cederia primeiro, o treinador ou o clube. Foi o clube, depois do treinador parecer esticar a corda ao máximo. Deixou muitos insatisfeitos, em um processo que começou há algum tempo. O que parecia um casamento feito para dar muito certo quando ele voltou da Arábia se tornou um pesadelo de um time que vai muito mal em campo e parece descoordenado.

A segunda passagem de Fabio Carille no Corinthians terminou de forma previsível neste domingo. A goleada por 4 a 1 para o Flamengo foi só o ponto final de algo que já vinha sendo construído. É o fim de uma relação que já era conturbada no ano passado, quando o técnico deixou o clube para acertar com o Al-Wehda, da Arábia Saudita. Ainda era conturbada quando ele voltou, mas veio com ares de salvador, no fim do ano.

O título Paulista serviu como um estímulo, mas o próprio Carille admitiu que o futebol era fraco. E o nível se manteve no Campeonato Brasileiro, o que significou mais momentos ruins -do que bons no principal torneio do ano. O que foi deteriorando de vez a relação foram as declarações de Carille, parecendo se importar cada vez menos em criar um desgaste para ele mesmo com os jogadores e com a diretoria. Primeiro, insistiu que recebeu jogadores demais e, com tantos novatos, precisaria que esses jogadores se acostumassem a ele. Recebeu reforços que pediu, mas que não renderam.

O treinador disse que o tempo na Copa América seria importante para treinar o time. Só que o período foi conturbado, cheio de lesões, e ele disse que não deu para aproveitar. Começou a fazer críticas ao próprio jogo do Corinthians, o que a princípio pareceu uma sinceridade de quem está buscando corrigir o problema. Só que as críticas insistentes sobre o futebol do time começaram também a incomodar os jogadores. As falas sobre não ter recebido os jogadores que pediu incomodaram a diretoria. E o desgaste ia aumentando com o futebol pobre em campo.

Na coletiva de imprensa na sexta-feira, já visando o jogo contra o Flamengo, Carille falou sobre o Flamengo não fazer nada de inovador ou diferente, na visão dele. “Meus pensamentos de futebol são os mesmos. O que já fiz não vejo diferente do Flamengo: uma linha definida atrás, não tem nada de inovação, um meia flutuando atrás, que comigo foi o Jadson, hoje no Flamengo é o Everton. Pelas dificuldades ofensivas, eu joguei com dois meias, Jadson e Rodriguinho, o Flamengo joga com Bruno Henrique e Gabigol, dois atacantes, sem um nove de referência. A gente tem que se adaptar com aquilo o que tem, as minhas ideias são as mesmas”, afirmou o treinador.

A impressão era que técnico e clube esticavam a corda para ver se alguém rompia. E ninguém queria ceder, por causa de uma multa alta. Entre valores previstos como multa por rompimento de contrato e valores devidos pelo clube ao técnico por premiações passadas, o valor é estimado em R$ 6 milhões. Quando questionado se era a multa que o mantinha no clube, o técnico falou de forma enérgica que não era dinheiro que o mantinha. Que quem deve R$ 400 milhões deve R$ 410, que pode parcelar.

“Como ele disse, Casas Bahia, se precisar, não tem empecilho. Corinthians tem suas dificuldades financeiras, mas não era uma multa que segurava, eram esses últimos dias, fatos que aconteceram, tivemos de tomar decisão”, afirmou Sanchez, comentando sobre a multa rescisória que o clube tem que pagar ao treinador, ao anunciar a demissão ainda no Maracanã.

“Vamos atrás de um treinador, mas não dá para chegar essa semana. Vamos atrás, mas vai sair bastante gente”, continuou o dirigente. “Vai ficar pouca gente. Nome não vou falar para especular. Vai sair três ou quatro nomes amanhã. Para amanhã vai ser difícil, mas vamos tentar. Vai ter mudanças drásticas”, continuou Sánchez.

“Às vezes correm muito, mas correm errado. Quando o Corinthians perde dois, três jogos, tem especulações para todos os lados, às vezes é exagerado. Jogadores estão tristes. Vamos juntar os cacos amanhã e quarta tem outro jogo”, disse ainda o presidente do Corinthians. “A torcida já protestou contra outros treinadores e não tiramos. Não foi pelo protesto, claro que influencia, a imprensa falando que vai cair. Teve vários motivos para chegar nisso. Temos que tocar a vida para frente”.

“Infelizmente chegamos neste ponto por vários motivos. Temos que reagir na quarta-feira. Nos momentos difíceis a nossa torcida nos apoia muito”, afirmou ainda Sánchez em coletiva. “Até quarta-feira vamos ver quem toma conta do time. Amanhã vamos atrás para ver se chega outro treinador ainda neste ano. Quanto à multa, nem discutimos ainda, isso é o de menos”.

A demissão tem que servir como uma reflexão para o próprio Carille sobre as suas ideias, seu trabalho, tudo que ele não conseguiu fazer. Depois de surgir como um respiro de novidade em 2017, em uma trajetória improvável que o tornou badalado por levar o Corinthians ao título Brasileiro, o treinador não conseguiu repetir o sucesso em 2019. Nos 10 meses de trabalho, o time teve mais baixos que altos, rendeu menos do que se esperava e mais do que os resultados ruins, o que estava incomodando mais a torcida era o desempenho.

Para quem precisar de técnico em 2020 e pensar em Carille, a dúvida é se o treinador será capaz de ir além de um time que tenha qualidades defensivas. E olha que nem isso o Corinthians vinha conseguindo fazer. Será preciso mostrar que ele é capaz de mais, mas por enquanto é uma dúvida bastante pertinente.

Ao Corinthians, resta saber o que quer fazer. Muito se fala sobre a cultura do clube desde 2008, com Mano Menezes, passando por Tite e chegando a Carille. É sempre possível mudar o estilo de jogo, depende de quem comanda, do técnico, e das condições que ele recebe. O Corinthians precisa pensar bem no seu próximo passo. As substituições de técnico por vezes são complicadas no clube nos últimos anos. Será preciso avaliar com calma – talvez até um profissional que só assuma para 2020. Enquanto isso, Diego Coelho, ex-lateral do clube e técnico da base, comandará o time.

Tanto Corinthians quanto Carille precisarão pensar bem no seu próximo passo. Se não, será mais um passo em falso para ambos.