Dembélé é talento e futuro para o Barcelona, mas também uma necessidade imensa de resposta

Francês chega ao Camp Nou como segunda contratação mais cara da história, na esteira da venda de Neymar

Após alguns dias de frustrações e chacotas, finalmente o Barcelona tem motivos para sorrir. O clube oficializou a contratação de Ousmane Dembélé. Mais do que o substituto de Neymar, o francês carregará sobre si as expectativas de se tornar a nova estrela dos blaugranas. Em um momento no qual se cobram ideias da diretoria para que o time se reinvente, o francês de 20 anos foi incumbido de servir como resposta. E uma resposta nada barata. Como era de se esperar, por causa da inflação nos valores causada pela venda de Neymar, o novo reforço se transformou na segunda contratação mais cara da história do futebol. Os catalães desembolsarão €105 milhões pela transferência, com mais €42 milhões variáveis. A maior parte do valor vai para o Borussia Dortmund, enquanto o Rennes tem direito a cerca de 20% do montante. A multa rescisória é estimada em €400 milhões.

Não se nega a qualidade de Dembélé, apesar de sua pouca experiência. Duas temporadas completas como profissional foram suficientes para que o garoto se colocasse entre os atacantes mais comentados do mundo. Em seu primeiro ano, com o Rennes, explodiu como a grande revelação da Ligue 1. Vários clubes cresceram os olhos em seus serviços e o próprio Barcelona chegou a sondá-lo. O adolescente, contudo, optou pelo Borussia Dortmund. Desembarcou no Signal Iduna Park afirmando que a capacidade dos aurinegros em desenvolverem jovens talentos foi um grande atrativo. E, mais do que evoluir, o ponta certamente ganhou uma confiança enorme em seus meses na Alemanha. Também protagonizou a nova equipe e teve atuações brilhantes na conquista da Copa da Alemanha.

Durante as últimas semanas, Dembélé chegou a reafirmar seu interesse em permanecer no Dortmund. No final de julho, declarou ao Bild que “não estava interessado em especulações”, assim como apontou suas expectativas em trabalhar com o técnico Peter Bosz. Palavras ao vento, diante do furacão que tomou o futebol mundial ainda naquela semana, com a confirmação da transferência de Neymar ao Paris Saint-Germain. A partir de então, a conversa mudou de figura. Ou melhor, as negociações mudaram da casa das dezenas de milhões para a das centenas de milhões. O suficiente para virar a cabeça do atacante.

Dembélé vislumbrou a chance de ser alçado ao ataque do Barcelona. Ao contrário do que aconteceria um ano antes, se tivesse cedido às primeiras investidas blaugranas, não será uma mera alternativa ao trio MSN. Mais do que titular, é anunciado como solução. Além disso, certamente as ofertas salariais se impulsionaram neste intervalo. A partir de então, o entrave se tornava o Borussia Dortmund. E os aurinegros não cederiam um de seus melhores jogadores assim, de maneira tão fácil – ainda mais considerando o cheque de nove dígitos recém-depositado na Catalunha.

O litígio aumentou com a postura de Dembélé em forçar a sua saída. Alguns personagens do Dortmund admitiam a importância do atacante, mas também afirmavam que nenhum jogador é maior do que o clube. Especialmente quando tanto dinheiro está na mesa. No fim das contas, os alemães saem (ao menos neste primeiro momento) como vencedores na negociação. Pagaram um valor relativamente baixo um ano atrás e agora enchem os cofres para fazer movimentos amplos, por um preço acima do que o francês vale atualmente – segundo o site Transfermarkt, seu valor de mercado é de €33 milhões. Tudo bem que o prodígio tem potencial para se valorizar logo cedo no Camp Nou. Por isso mesmo, os bônus podem recompensar um pouco mais os aurinegros.

Ousmane Dembélé (Ponta, 19 anos, Borussia Dortmund, €15 milhões) - Outro jogador que causou grande comoção no mercado de transferências, especulado em vários gigantes da Europa. Melhor para os aurinegros, que souberam atrair o francês, prometendo o espaço certo para o seu desenvolvimento. Dono de enorme habilidade e poder de decisão, foi a grande revelação da última Ligue 1, pelo Rennes. 

Ao Borussia Dortmund, talvez a postura mais sábia neste momento seja a paciência. Dembélé era um jogador fundamental e o time perde alguém capaz de decidir as partidas sozinho. Entretanto, é difícil pensar em uma opção rápida, que chegue em apenas uma semana e não torre mais dinheiro do que deveria. Não fossem os seguidos problemas de lesão, a lacuna do francês seria ocupada com as próprias peças do elenco. Resta a Peter Bosz saber aproveitar o que tem à disposição. Emre Mor, propenso a sair nesta janela, seria um dos capazes a ganhar mais minutos. Já o nome que mais ascende na hierarquia neste momento, merecidamente, é o de Christian Pulisic.

O Rennes, por sua vez, é outro que fica bastante no lucro. Dificilmente os rubro-negros conseguiriam segurar Dembélé na temporada passada. E, pelo acordo feito com o Dortmund, aumentam substancialmente o seu lucro com o jogador – graças a uma projeção que dificilmente ele teria se permanecesse por mais um ano na França, e com uma venda que provavelmente não aconteceria se ele tivesse saído já a um “gigante” naquele primeiro momento. O dinheiro não deixa de ser um incentivo para os franceses seguirem sua política no mercado – bancando, inclusive, a contratação de Ismaïla Sarr, candidato a herdeiro de Dembélé na Ligue 1.

Por fim, há o lado do Barcelona nesta história toda. Os blaugranas fazem uma aposta, independentemente das virtudes de Dembélé. Afinal, o dinheiro gasto não significa apenas a habilidade do jogador ou o seu potencial. Ele também banca as cobranças sobre a inação do clube no mercado de transferências e o aludido “apequenamento” neste momento de mudanças. É um candidato a craque que se juntará a Lionel Messi e a Luis Suárez na linha de frente. Mas que ainda precisa amadurecer em certos aspectos de seu jogo. Está longe de ser alguém pronto, como era Neymar, por mais que sua tendência seja ir além.

Dentro de campo, Dembélé agregará bastante ao Barcelona. É um atleta para dar profundidade à equipe, algo que vinha se perdendo nos últimos tempos. Que pode resolver no improviso, com seus dribles e a sua visão de jogo. Embora também tenha que se adaptar mais à filosofia do clube. Sua verticalidade o distancia um pouco daquilo que muito tempo se apregoou sobre o estilo de jogo do Barça – até porque, por vezes, o francês costuma ser um tanto quanto ‘fominha’ e não solta a bola na hora certa. Este será um dos aspectos-chave em sua evolução. Mas, por outro lado, sua chegada também pode moldar os blaugranas em outra direção, como já se aludiu com a vinda de Paulinho. Caberá a Ernesto Valverde fazer esta mescla.

O treinador do Barcelona afirmou nos últimos dias que gostaria de ter o elenco fechado bem antes do fim da janela de transferências. Todavia, a saída de Neymar deixou uma necessidade imensa, maior do que a já existente. Agora é Valverde quem precisa se adaptar à realidade e aproveitar os próximos dias para trabalhar duro. Sobram mais alguns milhões na conta blaugrana. Philippe Coutinho permanece como alvo principal, enquanto começam a se especular alternativas diante da intransigência do Liverpool. Ao menos os barcelonistas entram na última semana de mercado com um pouco mais de moral e sabendo que sua grande lacuna estará preenchida.