Após 35 anos de espera, o Watford poderá disputar novamente a final da Copa da Inglaterra. E um dos personagens principais da épica classificação contra o Wolverhampton já está, definitivamente, na história do clube: o capitão e artilheiro Troy Deeney. Se o contra-ataque fulminante contra o Leicester nos playoffs da Championship garantiu em 2013 um dos momentos mais fantásticos do futebol inglês, desta vez o veterano demonstrou toda a sua frieza em Wembley. Converteu um pênalti aos 49 do segundo tempo e, com a ajuda do infernal Gerard Deulofeu, permitiu a vitória por 3 a 2 na prorrogação. Resultado gigantesco para injetar confiança nos Hornets, que encararão o Manchester City na decisão da FA Cup, marcada para 18 de maio.

Após a partida, Deeney expressou outra de suas características marcantes: sua extrema sinceridade. E sem esconder o êxtase pela façanha com o Watford, comentou a noite mágica, bem como a importância do momento para a sua carreira. Aos 33 anos, o camisa 9 atravessa uma ótima temporada. Já anotou nove gols na Premier League, que o tornaram um nome pedido à seleção inglesa durante meados de 2018. Já na Copa da Inglaterra, balançou as redes duas vezes e serve de referência à trajetória dos Hornets.

“Alguns vão dizer que tive ‘cojones’ para bater aquele pênalti nos acréscimos, certo?”, declarou o centroavante, na saída de campo. “Você não pode ser uma lenda enquanto estiver jogando e não cabe a mim dizer que sou uma lenda. Estou apenas buscando os resultados, como os outros fazem todos os dias. Estamos muito orgulhosos de nossas conquistas pessoais neste clube – gols, partidas e assim por diante. O time está crescendo e queremos continuar avançando. Desejamos garantir o respeito que esses garotos merecem. Não somos o melhor time, mas veja o desejo. Perdíamos por 2 a 0 e várias equipes teriam desistido neste momento”. O Wolverhampton vencia até os 34 do segundo tempo, com gols de Matt Doherty e Raúl Jiménez. Deulofeu descontou com uma pintura, antes que Deeney empatasse nos acréscimos, convertendo o pênalti que ele mesmo sofreu. Já na prorrogação, o espanhol apareceu novamente, garantindo a monumental reação dos londrinos.

Deeney escancarou principalmente seu orgulho pela epopeia de vida. Nascido na periferia de Birmingham, o atacante cresceu em uma família carente e viu seus pais se separarem quando tinha 11 anos. Expulso da escola aos 14, ainda retomou os estudos, antes de largar os livros e se tornar aprendiz de pedreiro aos 16. O jovem passou por Walsall e Halesowen Town, até ser contratado pelo Watford em 2010, ganhando a primeira oportunidade na Championship aos 22 anos. Chegou a ser sentenciado a dez meses de prisão em 2012, por chutar a cabeça de um homem durante uma briga. Cumpriu três meses atrás das grades, quando viu sua pena ser abrandada. Depois disso, se juntou novamente ao Watford e retomou seus estudos, além de auxiliar seu irmão mais novo a se tornar jogador semi-profissional. Em nove temporadas em Vicarage Road, Deeney soma 123 gols em 367 jogos com a camisa dos Hornets, se tornando instrumental no retorno e na estabilidade do clube na Premier League a partir de 2015.

“Foi um sentimento estranho, porque pela primeira vez eu observei o que aconteceu de um ponto de vista egoísta. Eu estava literalmente só, tive um breve encontro com minha família e pensei como percorri um longo caminho pessoalmente. As pessoas sempre voltam para a cadeia. Mas, depois do que ocorreu, eu apenas tentei apoiar meu irmão a se tornar jogador de futebol e vi o esforço que ele fazia. Foi uma história longa e difícil para chegar aqui, então esse é o tipo de emoção que vem no final. Não vou mentir: segurei minhas lágrimas. É esse tipo de conquista que eu costumava buscar quando jogava futebol. Há 12 anos, eu pagava 10 libras por semana para jogar futebol. Agora, estou numa decisão de FA Cup. Enfrentar o Manchester City será muito difícil, mas acho que esse é o momento em que a emoção te arrebata”, observou.

“Não é apenas um jogo, vou um pouco mais a fundo, é a vida em geral. Sempre haverá decepções. Não acredite no Instagram quando as pessoas dizem que aquilo é vida real e as coisas vêm fácil. Todo mundo tem contas para pagar, todo mundo tem mágoas, todo mundo tem problemas. Então, se você puder continuar o caminho e se manter verdadeiro a si mesmo em tudo, as coisas ficarão bem. É assim que faço. Eu ainda cometo erros diariamente, estou tentando ser uma pessoa melhor, mas esse momento é tudo para mim. Muita gente acreditou e tenho ao meu lado todos que confiaram em mim aqui hoje. Estou muito feliz por isso”, complementou Deeney.

Perguntado sobre a sequência da competição, o capitão fez questão de valorizar o que se passou em Wembley: “Este não é o momento de falar sobre o City, este é nosso momento e vamos nos preocupar com eles na semana anterior à final. Isso é por todo mundo que veio e assistiu ao jogo hoje, as pessoas que viajaram, as pessoas que foram nos apoiar até em Woking fora de casa. A todos esses, que gostam de mim, que estavam ao lado do clube quando havia o risco de falência. Esse é o nosso momento, não do Manchester City, ninguém pode nos dizer como devemos nos sentir agora. Devemos sentar, aproveitar e dizer o que vocês sabem, que somos um bom grupo e merecemos essa vitória”.

Por fim, Deeney ainda tirou sua casquinha de Jiménez, comentando a comemoração do adversário com uma máscara mexicana de luta livre: “Eu realmente não vi isso. Há uma parte de mim que quer dizer algo desagradável, mas eu não. Estou feliz que ele colocou essa máscara, pois também pode usá-la agora que é um perdedor. Não me entenda mal, ele é um ótimo jogador. Estou contente por não ter visto a comemoração, porque teria perdido a cabeça em campo. Acho que você só faz essas coisas quando sabe que vai ganhar o jogo. Aproveite a máscara, mas a vitória é nossa”.

O posto de Deeney entre os maiores ídolos da história do Watford é inegável. A final da Copa da Inglaterra é a chance de sacramentar sua idolatria ainda mais. Um cara que realmente representa a camisa e todo esforço para honrá-la. E que também possui sua lista de feitos para valorizá-lo como uma lenda. Daqueles jogadores que são a encarnação de um clube e merecem o respeito de qualquer torcedor – por sua entrega, pela forma como é genuíno e pela vontade de vencer. Agora, com um capítulo gigantesco a mais para terminar de escrever.