Há uma cadeia alimentar muito bem estruturada no mercado da bola. E em tempos nos quais os grandes clubes brasileiros são peixes pequenos neste mar de euros, a fugacidade acaba sendo a principal característica dos bons jogadores que despontam aqui. Ou ascendem repentinamente e já arrumam as malas para a Europa; ou chegam de um clube menor e têm a cabeça revirada pela primeira proposta da Ásia; ou vêm de um vizinho latino esperando usar a vitrine brasileira como trampolim; ou apenas voltam, sem estourar ou sem tanta lenha para queimar, buscando um fugaz lampejo para recobrar os tempos de glória. Raros são os bons jogadores que passam a maior parte da carreira no Brasil. Mais raros ainda são aqueles que podem ser rotulados como craques. E se algum craque ficou tanto tempo por aqui, feitas as exceções (sobretudo goleiros), há uma certeza: em algum momento da trajetória, ele precisou se reinventar.

Dedé se enquadra nesse mínima porcentagem, a raridade do raro. Chamá-lo de “craque” talvez soe como exagero àqueles mais puritanos quanto ao valor do termo, quando se pensa principalmente na qualidade técnica e no deslumbramento que um craque causa. Contudo, se nos atermos à capacidade de elevar o nível de um time e de figurar entre os melhores do país, dentro do atual do futebol brasileiro Dedé é sim um craque, e não vem de hoje. A idolatria que sustentou no Vasco é indiscutível, por tudo que representava à torcida. E em termos de conquistas, o Dedé do Cruzeiro se torna ainda maior. Quando o time hexacampeão da Copa do Brasil for lembrado, será impossível não atrelar a imagem do zagueiro. Até porque seria justo colocá-lo como o melhor jogador celeste nesta temporada.

São poucos os zagueiros que atingiram o status de Dedé no futebol brasileiro ao longo desta década. Se eu falar que contam-se em duas mãos, possivelmente sobrarão dedos vazios. O carioca une muitas virtudes para a posição. Tem uma força física descomunal, uma presença de área abrangente, um posicionamento muito bom, um tempo de bola preciso. Por vezes exagera, como bem se viu no duelo contra o Boca Juniors pela Copa Libertadores. Não é perfeito, claro. Mas seu talento é evidente. Se o Cruzeiro de Mano Menezes funciona tão bem, especialmente atrás, o beque preenche lacunas. Algo ainda mais impressionante, por tudo o que enfrentou nos últimos anos.

O Dedé que despontou no Vasco parecia (e logo se tornou) zagueiro para defender a seleção brasileira. Mesmo jogando na defesa, carregou os cruzmaltinos em momentos importantes do clube, conquistando a Copa do Brasil e sonhando com o Brasileiro em 2011 – algo impensável dentro da realidade penosa do clube e que logo se desmancharia nos anos seguintes. Só nisso dá para dimensionar um pouco mais a sustentação que o ídolo oferecia em São Januário. Seria intocável até que as lesões começassem a minar o seu espaço. Que começassem a exigir sua reinvenção, inclusive atrapalhando os vascaínos durante a Libertadores de 2012.

Não fosse o tempo no departamento médico, talvez a fugacidade também se tornasse a palavra de ordem a Dedé. Bola para jogar ao menos em um clube tradicional da Europa ele tinha. Viu sua progressão atrapalhada pelos problemas físicos, o que não abalou a admiração que provocava dentro do futebol brasileiro. Assim, o Cruzeiro o transformou no zagueiro mais caro já contratado no país. Apostou alto e, de fato, passou a contar com o melhor defensor em atividade no Brasileirão. Em 2013, foi um dos esteios na conquista da Série A, ganhador também da Bola de Prata. Seguiu como peça importante no bicampeonato em 2014, embora as contusões tenham o tirado de quase metade dos jogos na competição.

A partir de então é que começa o calvário de Dedé. Em 2015, não disputou uma partida sequer. Em 2016, foram míseros cinco jogos. Já em 2017, não passou das sete aparições. Os joelhos (tanto o direito quanto o esquerdo) se tornaram seus maiores inimigos, com os mais diferentes problemas. O zagueiro colecionou lesões, de cirurgia nos ligamentos a fratura na patela, de edema ósseo à retirada de um parafuso. Quando retornou ao time em fevereiro deste ano, a pausa de 272 dias nem era a maior que encarou. Porém, era um teste enorme à sua fé. O defensor trocou três anos de sua carreira por incontáveis horas em centros cirúrgicos, salas de fisioterapia e aparelhos de musculação. E cada nova contusão que surgia deixava a interrogação se, enfim, seria a última.

A confiança prevaleceu. Confiança de Dedé, que seguiu em frente o seu trabalho e enfrentou os percalços recorrentes sem esmorecer. Confiança do Cruzeiro, que manteve o jogador e ofereceu todo o apoio, mesmo sem ter a certeza de que voltaria como antes – ainda mais considerando a importância da força física em seu estilo de jogo. Confiança da torcida celeste, que serviu justamente para empurrar o defensor nos momentos incertos. Seu retorno ao Mineirão aconteceu sob aplausos e gritos de que o “mito voltou”. Era um simples jogo contra o Boa Esporte pelo estadual, mas que já levou o beque às lágrimas.

A confiança seria trabalhada paulatinamente. Uma reinvenção que aconteceu jogo a jogo. Os saltos, as arrancadas, as divididas: tudo representava uma pequena vitória a quem se tornou um fiel companheiro das muletas ao longo de três temporadas. Primeiro, Dedé demonstrou que não havia motivos para temer por seu físico. O gigante retomava a sua melhor forma, aos 29 anos e tanto empenho. Mais do que isso, não desaprendeu suas virtudes técnicas. O tempo de bola seguia intacto, o bom posicionamento, a presença de área. As saídas de bola bem feitas e, inclusive, as aparições perigosas nas bolas alçadas à área.

O primeiro semestre de Dedé foi cabuloso. Garantiu o sucesso na Copa Libertadores e se sobressaiu a tal ponto que terminou na pré-lista de Tite à Copa do Mundo. A impressão era de que, com um pouco mais de tempo, até poderia competir realmente por uma das vagas no Mundial. O sucesso no torneio continental não foi possível, até pela expulsão injusta do zagueiro no jogo de ida contra o Boca Juniors e por seu destempero na volta. Mas se o time seguia sonhando com a Copa do Brasil, a participação do zagueiro era um dos motivos. Até sua atuação de gala na finalíssima do Corinthians, para concretizar sua revolução pessoal.

Se durante o primeiro jogo Dedé não foi tão desafiado, soberano em suas participações, o duelo em Itaquera botou o defensor bem mais à prova. E era cirúrgico, seja para afastar o perigo dentro da área, seja para dar o combate. Para alguns, sua participação no jogo pode até ser marcada pela falta discutível de Jadson, após uma saída de bola errada, que culminou no gol anulado de Pedrinho – uma decisão da arbitragem tão questionável quanto o pênalti que dera o empate aos alvinegros. Isso, entretanto, seria pinçar uma parte para resumir o todo de Dedé ao longo da noite. E este todo foi muito. Poderia inclusive ter rendido um gol, em bola que carimbou a trave. Sua parte na defesa, de qualquer forma, foi feita com primazia. Novamente, o melhor Dedé. O excelente jogador que, mesmo depois de se reerguer, permanece entre os melhores do país por mais de uma década.

Aos 30 anos, é difícil imaginar que Dedé atraia o interesse de algum clube tradicional na Europa, como um dia já teve muito potencial de fazer. O mais provável é que possa receber a proposta de algum canto alternativo, e estaria em seu direito de buscar seu pé de meia. O Cruzeiro, em contrapartida, oferece ao zagueiro algo que poucos jogadores no Brasil podem desfrutar: a adoração. E pelo que vem jogando, o beque deve almejar ainda mais com a camisa celeste. Seria uma justa maneira de recompensar a confiança do clube e da torcida, assim como de manter a sua própria confiança no nível mais alto. O mais difícil já foi superado pelo carioca. A Copa do Brasil coroa a merecida redenção, praticamente um milagre.