Depois de duas temporadas de sucesso no comando do Valencia, o técnico Marcelino Garcia Toral foi demitido nesta quarta-feira. A questão não era resultados, como é de se esperar. Uma crise entre o técnico e o dono do clube, Peter Lim, vinha se desenhando nos bastidores desde a temporada passada. Nesta quarta, enfim, ele foi demitido, sendo substituído pelo antigo treinador da Espanha sub-21, Albert Celades.

O Valencia viva o caos quando Marcelino chegou. Depois de experiência malsucedida com o inglês Gary Neville, o clube entrou em uma espiral terrível. Teve Pako Ayestarán, que durou de março a setembro de 2016; Salvador González “Voro” ficou interinamente no time por três jogos até a contratação do badalado italiano Cesare Prandelli, que também durou pouco: de setembro a dezembro de 2016. “Voro”, então, retornou ao cargo, novamente de forma interina, até o fim da temporada, em junho de 2017.

Depois de flertar com o rebaixamento, o clube decidiu levar Marcelino Garcia Toral ao cargo e a mudança foi enorme. Depois de dois anos consecutivos em 12º na tabela, o Valencia de Marcelino chegou ao quarto lugar na temporada 2017/18, classificando o time à Champions League, feito que repetiu na temporada passada, 2018/19. Mais do que isso, levou o time à semifinal da Copa do Rei na primeira temporada e ao título na segunda, batendo o Barcelona na final em pleno ano do centenário do clube valenciano.

Marcelino levou o Valencia à estabilidade depois de tempos de mar revolto. Só que fora de campo, a disputa com o dono do clube aumentou. A briga esquentou mais porque o sucesso recente do clube foi visto como um trabalho do técnico e do diretor de futebol, Mateu Alemany, e não do dono. Mais do que isso: os torcedores atribuem a Lim os problemas do clube e, por isso, o sucesso seria apesar do dono, e não por causa dele.

Um dos mais importantes motivos da briga entre técnico e dono do time foi a construção do elenco. Marcelino passou a criticar publicamente o fracasso do time em fechar a contratação de jogadores que estavam alinhados, como o meio-campista Rafinha, do Barcelona. Houve outro episódio relevante no último mercado de transferências, fechado no dia 2 de setembro: Peter Lim decidiu vender o atacante Rodrigo, artilheiro do time nas duas últimas temporadas, para o Atlético de Madrid. Marcelino se opôs ao negócio. Marcelino venceu a batalha e o jogador ficou. Mas o relacionamento entre o técnico e o dono parecia ter chegado ao fim.

Os jogadores ficaram chocados com a notícia da demissão, ainda que soubessem que isso poderia acontecer eventualmente, dado o nível de desgaste que a situação apresentava. Marcelino chegou a ameaçar deixar o cargo, junto com Alemany, durante o verão europeu, antes do início da temporada.

O técnico teve apoio dos torcedores, o que parece ter incendiado ainda mais a raiva de Lim. Apesar de ele ter permanecido, o relacionamento entre os dois piorou e as coletivas de imprensa de Marcelino sempre tinham questionamentos em relação ao dono. Parecia que o técnico acreditava que o apoio da arquibancada bastaria para mantê-lo.

Lim convocou o presidente do clube, Anil Murthy, para uma reunião em Singapura, onde mora. Foi de lá que deu a ordem para demitir o treinador. O diretor Mateu Alemany foi mantido no cargo, mas dada a situação, é bem possível que deixe o cargo em breve. Há o chamado “climão” na administração do Valencia, porque os jogadores, assim como os torcedores, estavam com Marcelino. E a publicação do capitão do time no Twitter, Dani Parejo, deixa isso transparente ao dizer que o técnico irá bem onde quer que vá e que o deixem trabalhar. Um recado claro que ali ele não tinha essa liberdade.

Com tudo isso, é difícil imaginar que o Valencia tenha uma temporada tranquila, ou mesmo que faça um bom papel na Champions League. O futuro ficou incerto e isso pode mexer muito com o clube a curto e médio prazo. E as dificuldades já começam no fim de semana, quando o Valencia visita o Barcelona no Camp Nou. Logo em seguida, terá o Chelsea como adversário na estreia da Champions League, em Stamford Bridge. Começo para lá de complicado para Celades, em um clube que costuma pegar fogo nos bastidores.
 

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