O Barcelona aprendeu a duras penas o quanto os sul-americanos valorizam o título mundial. Em suas duas primeiras participações na busca pelo título, nos formatos diferentes que a disputa já teve, os blaugranas sofreram. Perderam para o São Paulo com aquela falta magnífica de Raí, antes de verem Adriano Gabirú se eternizar no folclore boleiro e na história do Internacional. A primeira vitória na competição, já sob a chancela da Fifa, veio a muito custo. Os espanhóis precisaram da prorrogação para vencer o Estudiantes por 2 a 1, com ajuda providencial de Jeffren Suárez (quem se lembra?) e gol decisivo de Lionel Messi. Até que, em 2011, o time de Pep Guardiola chegasse ao seu auge, segundo o próprio treinador.

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“Jogamos melhor do que nunca na final do Mundial de Clubes, contra o Santos. Foi nosso ápice de todos os momentos”, confessou o comandante, no livro ‘Pep Confidential’. A maneira como os blaugranas trucidaram os alvinegros de Muricy Ramalho, de fato, se tornou marcante. As tabelas desnorteavam a zaga do Peixe, em esquema pensado justamente para fechar o time naquela decisão. Enquanto isso, Neymar e Paulo Henrique Ganso mal tinham chance para demonstrar o bom futebol que os consagrou na Libertadores. Os catalães foram com toda a sede ao Japão, e conquistaram o último de seus cinco títulos naquele ano.

A base dos blaugranas segue com vários remanescentes, quatro anos depois. Messi, Iniesta, Piqué, Mascherano, Busquets e Daniel Alves entraram em campo naquela noite, enquanto Neymar estava do lado adversário. Todos sentiram o gosto do triunfo e a importância que trataram aquela taça. Algo incomum para os europeus, em geral. Desde que a Fifa passou a organizar o Mundial, somente um campeão do continente teve atuação tão boa quanto os blaugranas: o Milan de 2007, colocando o Boca Juniors no bolso durante a decisão. No mais, além das surpresas sul-americanas, os europeus campeões jogaram apenas para o gasto. Como o próprio Barça, aquém de seu potencial em 2009.

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O fato de vários sul-americanos comporem o elenco pode ajudar, diante da maneira como a conquista é valorizada no continente. Luis Suárez e Neymar, sobretudo, devem atuar com mais vontade no Japão. Mas a vitória de 2011, de certa forma, deixou uma lição. Jogar o Mundial para valer pode valer a pena mesmo para o europeu que já faturou a Champions. Ratifica a grande forma, garante um desfecho vitorioso no ano. E pode pulverizar as esperanças de um adversário que costuma entrar com muito mais gana em campo. Se há quatro anos o Santos teve seus sonhos dilacerados, desta vez é o River Plate quem está no caminho.

Japan Soccer Club World Cup

Ainda há, é claro, o confronto com o Guangzhou Evergrande nas semifinais. Mas, mesmo que Luiz Felipe Scolari mantenha o discurso esperançoso, é difícil crer que os chineses irão surpreender. A atuação contra o América do México não garantiu muitos créditos, diante da quantidade de chances que os adversários conseguiram criar. E, por mais que os desafiantes entrem com uma postura mais defensiva, deverão ser postos realmente à prova diante dos blaugranas. Que ainda chegam ao Mundial com moral elevado.

O Barcelona desembarcou no Japão com aproveitamento de 73% em seus jogos oficiais na temporada. Desde 2005, o desempenho é inferior apenas às duas participações do time de Pep Guardiola, assim como ao Bayern de 2013 e ao Real Madrid de 2014. Nas últimas semanas, os três empates seguidos impediram que o Barça se aproximasse do recorde. Ainda assim, as atuações magníficas em algumas partidas nesta temporada marcaram bastante, sobretudo a goleada por 4 a 0 no clássico contra o Real.

E, mesmo no discurso, o Barcelona segue afinado com a ideia de valorizar o Mundial, como Mascherano deixou claro nesta semana. “Creio que chegamos bem ao Mundial, em um bom momento. Com confiança. E acima de tudo com esperança de voltar a vencer uma competição que muitos de nós vivemos há quatro anos, mas que para muitos é nova. Muito se fala do Barcelona como um clube que é referência no mundo e agora estamos diante da possibilidade de nos coroarmos como tal”, declarou. “Muita gente acredita que para nós é uma competição menor, mas não é assim. Estão equivocados. Para nós, é uma competição importante e transcendental, que nos marcará para o resto da temporada”.

Se quiser cumprir as promessas, o Barcelona terá que entrar em campo com vontade. Afinal, não bastará apenas vencer as suas partidas. Será preciso golear. Se jogar para o gasto quase sempre garante o título esperado dos europeus, os blaugranas já sentiram os efeitos que um massacre proporciona ao próprio time. O jogo contra o Santos pode não ser tão exaltado quanto alguns clássicos ou partidas na Champions. Ainda assim, mostrou o máximo potencial daquele time de Pep Guardiola. O que os comandados de Luis Enrique deverão tentar igualar a partir desta quinta.