Principal força na segunda divisão do Campeonato Argentino, o Arsenal de Sarandí confirmou o acesso direto nesta temporada. Derrotou o Sarmiento de Junín em um jogo extra, que valeu a conquista da Primera B Nacional. Ainda assim, havia mais uma vaga na elite em jogo. Nas últimas semanas, oito times competiram em mata-matas, com a presença de clubes tradicionais. E a promoção acabou conquistada pelo Central Córdoba, neste sábado. O time de Santiago del Estero derrotou o próprio Sarmiento nos pênaltis e confirmou a subida. Pela primeira vez em 48 anos, o Ferroviário terá o gosto de participar da primeira divisão nacional.

O ano já seria especial ao Central Córdoba. Os alvinegros comemoraram o seu centenário em 2019. Fundado por funcionários da Córdoba Central Railway, o Ferroviário passou as primeiras décadas de sua história limitado aos torneios locais. Todavia, graças ao sucesso na região norte do país, os alvinegros puderam se classificar e disputar por duas vezes o antigo Campeonato Nacional. Na edição inaugural da liga expandida, em 1967, os santiagueños fizeram um papel razoável. Terminaram no 14° lugar, com direito a uma vitória sobre o Boca Juniors em plena Bombonera. Já o retorno à competição nacional aconteceu em 1971, penúltimo colocado na Zona B. Foi sua efêmera última presença na elite nacional. A partir de então, o clube seria restrito aos certames regionais e às divisões de acesso.

Localizado em uma cidade de 250 mil habitantes, em uma das províncias mais pobres do país, o Central Córdoba passou a maior parte deste século variando entre a terceira e a quarta divisão. Já a escalada mais marcante aconteceu nos últimos dois anos. Após cair em 2017, o Ferro já retornou à segundona em 2018. Diante de uma maratona por três fases, conseguiu carimbar a promoção. Rumo a 2018/19, o objetivo primordial dos alvinegros deveria ser a manutenção da segunda divisão. Deram um passo a mais. Durante as primeiras rodadas da Primera B Nacional, os santiagueños permaneceram na metade inferior da tabela, arrancando na reta final. Terminaram na sexta colocação e chegaram motivados aos playoffs de acesso. Então, despacharam Platense e Almagro, dois adversários com campanhas superiores, até que o embate decisivo acontecesse contra o favorito Sarmiento.

Na partida de ida, em Santiago del Estero, o Central Córdoba ficou com o empate por 1 a 1. Saiu em vantagem no Estádio Alfredo Terrera, mas cedeu a igualdade minutos depois. Já neste sábado, o reencontro decisivo no Estádio Eva Perón guardaria suas emoções. O Sarmiento foi melhor e criou várias chances, mas não conseguiu balançar as redes. Chegou mesmo a carimbar o travessão dos alvinegros. O empate sem gols prevaleceu, o que forçaria a decisão por pênaltis para definir o acesso. O Ferro converteu todas as suas cobranças e contou também com uma defesa do goleiro César Taborda –  que provocou um silêncio sepulcral da torcida da casa. O triunfo por 5 a 3 garantia o retorno à primeira divisão quase cinco décadas depois. Rendeu uma emocionada comemoração dos santiagueños.

Muitos dos personagens do Central Córdoba estão no clube desde a campanha na terceirona. O treinador Gustavo Coleoni foi o principal responsável pela escalada milagrosa. Além disso, os alvinegros reforçaram seu elenco priorizando a sua experiência. Dos 18 jogadores que entraram em campo ao menos dez vezes na Primera B Nacional, dez possuem 30 anos ou mais. Entre os medalhões está Alexis Ferrero, zagueiro de 40 anos que chegou a passar pelo Botafogo na década passada. Portando a braçadeira de capitão, disputou 27 jogos. Já no ataque, foi decisivo Javier Rossi, de 36 anos. O veterano anotou três gols nos mata-matas.

Outra figura marcante é o meio-campista Alfredo Ramírez, de 32 anos. Ele cobrou o pênalti que definiu a promoção, conquistando o segundo acesso consecutivo com o Ferro. Deu uma entrevista emocionadíssima à televisão local, aos prantos, declarando que aquele era seu “sonho desde que começou a jogar futebol”. Resumia o sentimento de uma torcida e de vários jogadores que passaram a carreira militando nas divisões de acesso. Já o Sapito Coleoni rolava no gramado, abraçado com seu filho, sem escondera euforia.

Como era de se esperar, uma multidão tomou as ruas de Santiago del Estero para comemorar o acesso. A torcida alvinegra realizou uma enorme carreata, além de encher o Estádio Alfredo Terrera para receber os campeões. E é de se imaginar que outras cenas fantásticas ocorram durante a passagem do Ferro pela primeira divisão. O futebol pulsa ainda mais forte no interior da Argentina, especialmente em recantos onde não se sabe quando o sucesso baterá na porta outra vez. Por todas as limitações, o feito do Central Córdoba é magnífico. Tornarão o Campeonato Argentino mais vibrante. Atlético Tucumán e Talleres são alguns bons exemplos que os alvinegros podem mirar. A mera presença na elite, de qualquer maneira, vale por si.