De um projeto que trazia perspectivas ao futuro, os colorados precisam se agarrar ao passado para manter as esperanças com Abel Braga

A escolha do Internacional para substituir Eduardo Coudet não demorou a aparecer na imprensa e, até por isso, não dá para considerá-la uma surpresa. Nesta terça-feira, de qualquer maneira, os colorados anunciaram um sucessor que representa também uma quebra no comando do time. Abel Braga possui uma história belíssima no Beira-Rio, responsável pelo título mais importante da história do clube. Entretanto, também é um treinador que não sugere grandes inovações e que possui uma filosofia de jogo bastante distinta ao que se praticava com o argentino. E, nesse rompimento, os torcedores precisarão torcer para que, de fato, Abelão não deixe a peteca cair à frente de um time que parecia render acima de suas possibilidades.

Abel Braga vai para a sua sétima passagem como treinador do Internacional. Teve seus momentos mais relevantes em duas delas. No final dos anos 1980, ficou marcado especialmente por vencer o Gre-Nal do Século e levar os colorados à decisão do Brasileirão, além de registrar também uma boa campanha na Libertadores. Nada comparado, porém, ao que realizou em 2006. Abelão ajudou a transformar a história recente do Inter com as conquistas da Libertadores e do Mundial. A gratidão pela maneira como arredondou um time competitivo é eterna no Beira-Rio. Também teria feitos razoáveis (mas bem menos reluzentes) em 2014, com o título gaúcho e a vaga na Libertadores através da terceira colocação no Brasileiro. Todavia, não há garantias ou certezas neste novo momento.

Os últimos trabalhos de Abel Braga, afinal, deixaram a desejar. A passagem recente pelo Flamengo serve de retrato maior, pelas dificuldades que o veterano tinha em ajeitar o time e montar um coletivo minimamente funcional, o que se transformou com Jorge Jesus. Sua marca esteve na relação com o elenco, bem como na sua postura após a tragédia no Ninho do Urubu. E Abelão também não conseguiu grandes feitos depois disso, com passagens curtíssimas por Cruzeiro e Vasco, em meio a entornos caóticos. No Inter, ao menos, tende a encontrar mais estabilidade – apesar do tumulto e dos questionamentos gerados pelo adeus de Coudet.

Abel Braga chega ao Beira-Rio para um toque de Midas, trazendo nome e história, mas não necessariamente um indicativo recente de que poderá manter o bom nível de desempenho do Internacional. Mesmo que a diretoria diga que preferisse seguir com Eduardo Coudet antes de sua saída, não é que escolha um substituto para seguir a mesma linha de trabalho. É difícil imaginar que Abelão preservará os conceitos de marcação-pressão e a agressividade imprimida por Chacho, ou mesmo optará pelo bem padronizado 4-1-3-2 dentro de campo. Suas características são outras.

De positivo, dá para pensar que Abel Braga poderá solucionar a fragilidade do Inter nas bolas aéreas ou mesmo reintroduzir Rodrigo Moledo na equipe, uma das maiores queixas quanto ao trabalho de Coudet. Outra alegria será encerrar o apego que existia ao ineficiente Musto. Também poderá aproveitar bem o rendimento de seus homens de frente, com um jogo direto para Thiago Galhardo e Abel Hernández. Mas, pelos últimos momentos de Abelão no futebol brasileiro, as ressalvas são naturais em imaginar que o futebol propositivo não se conservará. O mais provável é rever os colorados com uma ideia mais reativa, como foi de praxe no clube durante os últimos anos, exatamente até a chegada de Coudet.

A quem demonstrava grandes ambições ao montar uma operação especial para buscar Coudet no Racing e contar com um treinador de vanguarda, o Internacional também dá passos para trás. Fica muito difícil imaginar um trabalho duradouro com Abel Braga, que sugira uma continuidade e uma evolução constante da equipe. Neste momento, os colorados já estariam muito felizes se o elenco comprasse as ideias de Abelão e o time não sofresse mudanças radicais dentro de campo. O objetivo é manter a toada até o fim do Brasileirão e lutar também por algum dos títulos nos mata-matas, para recompensar o bom momento do clube com algum troféu.

Tempo hábil realmente não havia para a diretoria ser muito inventiva e negociar com outro nome de fora, como aconteceu com Coudet. Neste sentido, o argentino deixou os colorados desprevenidos. Entre o que poderia ser feito, com a pressa de já escolher um sucessor às vésperas do confronto decisivo com o América Mineiro pela Copa do Brasil, os dirigentes preferiram olhar ao mercado doméstico. Contudo, não pensaram tanto no que ocorrerá no campo, e sim nos reflexos fora.

É possível que parte da torcida e da imprensa banquem Abelão, por seu passado fulgurante, assim como por seu estilo paizão, que costuma criar boas relações nos elencos. De qualquer forma, há um inescapável cheiro de solução velha que desagrada o outro lado dos torcedores, especialmente aqueles que entendem as razões de Coudet e apontam os erros da diretoria no tratamento dado ao comandante.

De uma equipe que parecia embalada o suficiente para conquistar o Brasileirão, por mais que não exibisse um futebol brilhante e também apresentasse suas carências, o Internacional se transforma em uma incógnita neste momento. Os primeiros jogos de Abel Braga serão essenciais para se entender as novas perspectivas dos colorados e o que a equipe ainda poderá oferecer em campo. O calendário apertadíssimo não oferece tempo para trabalhar ou mesmo para realizar muitos treinamentos. Seria mais interessante se Abelão seguisse uma linha ao menos próxima do que fazia Coudet, para não se criar uma cisão. Resta saber quais serão os seus limites, como expresso em suas equipes mais recentes.

Sob as ordens de Coudet, existia uma impressão de que o Internacional superava suas próprias condições, com um elenco curto e com posições realmente carentes. A falta de reforços, afinal, acelerou a saída do comandante. Abel Braga deverá fazer seu suco com os mesmos limões e, em sua própria escolha, a diretoria já indica que não realizará movimentos tão arrojados no mercado de transferências. Num ano que enchia o peito dos colorados de esperanças, eles precisarão esperar por um pequeno milagre, para que o velho Abelão de 15 anos atrás ressurja e amplie sua história vitoriosa no Beira-Rio. O problema é que o passado recente não permite criar tantas expectativas.