Em um final de semana repleto de campeões, era óbvio que o futebol brasileiro também se encheria de heróis. Foram vários personagens decisivos ao redor do país, para abrilhantar as conquistas estaduais. Se o Corinthians venera um pouco mais Vágner Love depois do gol apoteótico contra o São Paulo ou o Flamengo agradece a Juan, reconhecido amplamente ao erguer a taça no Maracanã, outras tantas figuras centrais ascenderam nas decisões deste domingo. Abaixo, damos o devido destaque a alguns jogadores de norte a sul.

Alex Silva, do Avaí

A decisão do Campeonato Catarinense foi resolvida em jogo único. Avaí e Chapecoense se enfrentaram na Ressacada. E o Leão da Ilha descobriu um novo herói, de maneira um tanto quanto surpreendente. Régis anotou um golaço no final do primeiro tempo e ia dando o título para a Chape. Contudo, aos 30 da etapa complementar, Alex Silva igualou para os anfitriões. O lateral de 24 anos chegou ao Avaí por empréstimo, em transferência facilitada após a venda de Guga ao Atlético Mineiro. Neste domingo, retornava de lesão e só entrou como titular porque Igor Fernandes se machucou no aquecimento. Parecia um predestinado, até mesmo um guerreiro, diante do esforço claramente empreendido nos minutos finais, com o físico extenuado. Ao final, pôde comemorar com os companheiros a vitória nos pênaltis. O Leão anotou 4 a 2 na marca da cal, embora com polêmica. Vladimir pegou a cobrança de Aylon e o chute de Bruno Pacheco tocou no travessão e na linha antes de sair. A arbitragem conferiu a imagem no vídeo para afirmar que a bola não entrou, mas a decisão seguiu gerando discussões. Ao final, os avaianos levantam o 17° estadual, primeiro desde 2012.

Matheus Rossetto, do Athletico

O Toledo foi um digno finalista do Campeonato Paranaense. Mesmo sem o peso do Athletico, tentou agarrar a oportunidade e dificultou o trabalho dos rubro-negros na decisão. Ainda assim, seria complicado conter a pressão do Furacão na Arena da Baixada. O time repleto de garotos abriu o placar logo aos seis minutos, com Matheus Rossetto. O atleta do elenco principal terminou cedido por Tiago Nunes ao sub-23 e fez a diferença, com um gol determinante à conquista. Em uma cobrança de falta rasteira, a bola entrou de maneira chorada, desviando na barreira e ainda batendo na trave. Durante a sequência da partida, o meio-campista contribuiu à imposição de seu time, mas não teve jeito. O goleiro André Luiz parecia com o corpo fechado e, além dos milagres, contou com o auxílio da trave duas vezes. Diante do placar mínimo, a disputa seguiu aos pênaltis. E então quem desequilibrou foi o arqueiro rubro-negro. Léo pegou o chute de Adriano e permitiu o triunfo dos atleticanos por 6 a 5.

Nino Paraíba, do Bahia

Outro clube do interior que honrou o peso da ocasião foi o Bahia de Feira. O Bahia precisou suar bastante para confirmar mais um título estadual. E, depois do empate por 1 a 1 na Joia da Princesa, mesmo apoiado pela massa na Fonte Nova, o gigante não teve vida fácil. Foi uma decisão repleta de tensão, com direito a uma bola no travessão de Arthur Caíke no primeiro tempo. Ainda assim, a segunda etapa é que guardaria a taquicardia aos torcedores. O Bahia teve um pênalti marcado a seu favor com a ajuda do VAR e Gilberto converteu. Depois, o vídeo também garantia um penal ao Bahia de Feira, mas o goleiro Anderson pegou a cobrança de Vitinho. Ao final, o duelo permaneceu completamente aberto, entre as chances que os anfitriões desperdiçaram para ampliar e uma cobrança de falta de Alex Cazumba que também estalou o travessão já nos minutos finais. Festa ao time de Roger Machado, com um personagem especial em alta: Nino Paraíba. O lateral foi alvo de muitas críticas da torcida tricolor, mas atravessa uma semana redentora, para ter seu nome gritado na Fonte Nova. Primeiro, voou baixo na goleada contra o Londrina pela Copa do Brasil. Já neste domingo, com muito vigor ofensivo, terminou como o melhor em campo na final. Ao ritmo de “Fio Maravilha”, os cânticos de “Nino Paraíba, nos gostamos de você” embalou a galera.

Maílson, do Sport

Em nível de emoção, fica difícil superar o que aconteceu na Ilha do Retiro neste domingo. Sport e Náutico fizeram uma final caótica. Logo nos primeiros minutos, o clássico já tinha dois expulsos. Sueliton e Hernane trocaram “carícias”, com ambos recebendo o vermelho. Ainda na primeira etapa, Guilherme converteu um pênalti e ia ratificando a conquista do Leão. Contudo, o Timbu viraria o cenário. Antes do intervalo, um chute desviado de Charles garantiu o empate. E a vitória se consumou no segundo tempo, com Jimenez. O resultado levou a definição aos pênaltis, onde se erigiu o verdadeiro herói: o goleiro Maílson, que não havia trabalhado tanto no tempo normal. Substituto de Magrão, o herdeiro mostrou como aprendeu bem a arte do velho ídolo. Pegou duas cobranças, de Rafael Oliveira e Diego, botando a faixa no peito do Sport. O jovem de 22 anos, que já havia aparecido bem no Brasileirão de 2018, retomou a posição diante da má fase do veterano e dá um passo fundamental para seguir em frente sob as traves rubro-negras. A adoração por Magrão, porém, permanece. A lenda esteve no gramado para erguer a taça, sua décima pelo clube.

João Carlos, do CSA

O CSA atravessou uma longa seca no Campeonato Alagoano neste século, com direito a passagem pela segunda divisão estadual. No entanto, se a ascensão recente levou os azulinos de volta à elite do Brasileirão, ela também se marca com o bicampeonato em Alagoas. A final terminou com o clássico diante do CRB. E os alvirrubros ganharam o jogo de volta no Rei Pelé, 1 a 0, gol de Hugo Sanches, que forçava os pênaltis. Ao final, quem fez a diferença ao CSA foi o goleiro João Carlos. O paranaense tinha causado controvérsia no ano anterior, ao virar a casaca em Maceió. Após ajudar o CRB a permanecer na segundona nacional, assinou justamente com os arquirrivais, mas provou neste domingo que seu compromisso é total. Pode-se até discutir o gesto técnico do arqueiro no tento dos rivais, espalmando a bola para o meio da área. Ainda assim, ele salvou sua equipe mais de uma vez, colecionando defesas difíceis desde o primeiro tempo. Já nos acréscimos da segunda etapa, pegou uma cabeçada à queima-roupa, que evitou a conquista regatiana. Pois sua importância na disputa por pênaltis foi ainda maior, pegando as duas primeiras cobranças do Galo. Ao final, consagrou a festa alviceleste.

Alex Sandro, do Remo

Desta vez a final do Paraense não guardou o seu grande clássico, mas o Independente engrossou a missão do Remo. Depois da derrota por 1 a 0 no primeiro jogo, o Leão precisava reverter o resultado no Mangueirão. Jogando de maneira ofensiva, abriu o placar logo nos primeiros minutos. Yuri fez um lançamento sem muitas pretensões, mas uma saída completamente errada do goleiro Redson permitiu o gol. Não que os visitantes fossem meros espectadores. O time de Tucuruí acertou a trave, além de forçar o goleiro Vinícius a trabalhar. A vitória simples levava a decisão aos pênaltis. E os remistas evitaram a loteria aos 40, com o triunfo por 2 a 0. No gramado pesado por conta da chuva em Belém, Alex Sandro foi o autor do gol salvador. O atacante de 23 anos possui um currículo já vasto no futebol brasileiro, com passagens por Sampaio Corrêa, Campinense, Cuiabá, Juazeirense e Globo. Chegou no fim de 2018 e mudou os rumos da finalíssima. Vinte minutos após sair do banco, roubou a bola no campo de ataque, arrancou até a entrada da área e desferiu o chute cruzado que venceu Redson. Agora, o Remo está a um título do Paysandu na lista histórica de campeões do Paraense.

Rogério Ceni, do Fortaleza

O ano promete no futebol cearense. Além do centenário recente do Clássico-Rei, Ceará e Fortaleza voltam a se enfrentar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. A final do estadual, contudo, acabou sendo de uma só equipe. O Leão do Pici venceu o primeiro jogo por 2 a 0 e confirmou a conquista com mais uma vitória no Castelão. O domingo contou com festas fantásticas das torcidas, em especial a tricolor, com direito a três mosaicos diferentes em seu setor. Quando a bola rolou, o time correspondeu. O triunfo se consumou logo aos nove minutos do primeiro tempo, com Roger Carvalho. Depois disso, a equipe soube administrar a vantagem, evitando as investidas do Vozão. E o reconhecimento, mais uma vez, recai sobre Rogério Ceni. É difícil encontrar um treinador no país tão respaldado por seu trabalho quanto o ex-goleiro. Sucesso convertido em títulos, primeiro com a Série B, agora com o Cearense. Ajudou a mudar a mentalidade dos jogadores e, mesmo perdendo peças importantes, manteve um conjunto coeso nesta sequência em 2019. Além da Série A, ainda briga pela Copa do Nordeste, encarando o Santa Cruz nas semifinais.

Matheus, do Atlético Goianiense

O Atlético Goianiense entrou em campo com a vida encaminhada neste domingo. Após vencer o Goiás por 3 a 0 no primeiro jogo da final, a situação era bastante favorável para confirmar o título. E assim aconteceu no Estádio Olímpico de Goiânia. Até pela situação, acabou sendo uma partida relativamente morna. O Dragão não teve problemas para administrar a vantagem e conter as tentativas de reação dos esmeraldinos. Foram raras as chances dos oponentes e, quando poderiam ter descontado, Pedro Bambu salvou em cima da linha. A defesa atleticana prevaleceu e a conquista terminou ratificada nos acréscimos do segundo tempo. Após um bolão de André Luís, Matheuzinho recebeu e chutou cruzado da entrada da área. Tirou do alcance de Sidão, oferecendo mais motivos à festa rubro-negra. O tento acabou sendo um prêmio ao meia, um dos melhores do campeonato e também autor de um dos gols na ida. Revelado pelo Corinthians, após estourar na Copinha, o armador nunca recebeu grandes chances na equipe principal alvinegra. Rodou ainda por Bragantino, Osasco Audax e Guaratinguetá, antes de tentar a sorte no exterior, defendendo Estoril e Juarez. Ao que parece, se encontrou em Goiânia e já renovou seu contrato.

Alê, do Cuiabá

O Cuiabá se transformou em um dos clubes de crescimento mais sólido do futebol brasileiro. Em menos de duas décadas, o time idealizado pelo saudoso Gaúcho alcançou a Série B do Brasileirão, conquistou a Copa Verde, disputou a Copa Sul-Americana e (sinal óbvio desta relevância) dominou o Campeonato Mato-Grossense. São nove títulos em 14 temporadas na elite estadual, com os três últimos em sequência. A taça se encaminhou no jogo de ida, com a vitória por 2 a 0 sobre o Operário Várzea-grandense. Já neste domingo, o empate por 2 a 2 na Arena Pantanal se tornou suficiente à comemoração do Dourado. E a estrela dos tricampeões foi o volante Alê, outra vez. Independentemente de sua posição, ele já tinha sido fundamental ao acesso à Série B, balançando as redes nos dois confrontos decisivos diante do Atlético Acreano. Agora, se encarregou de ambos os tentos no primeiro jogo da final e também fez o segundo de sua equipe no empate por 2 a 2. Revelado pelo Primeira Camisa, time que Roque Júnior criara para revelar talentos em São José dos Campos, o meio-campista rodou por clubes do interior de São Paulo e Minas Gerais, antes de se encontrar no Mato Grosso a partir de 2017.

Careca, do Águia Negra

A derrota no segundo jogo pouco atrapalhou. Apesar do 1 a 0 favorável ao Aquidanauense, o Águia Negra confirmou o título no Mato Grosso do Sul, ao triunfar na primeira partida por 2 a 1. O duelo tenso deste domingo contou com pressão dos visitantes, que precisavam de uma diferença de dois gols. Não aconteceu. Ao apito final, uma explosão tomou o gramado em Rio Brilhante, com a invasão da torcida rubro-negra. Esta é a terceira conquista do Águia Negra no campeonato estadual, a primeira desde 2012, e permite ao clube se igualar ao Ubiratan como maior vencedor do interior sul-mato-grossense. E um personagem simbólico no feito é o atacante Careca. Revelado pelo clube, conquistou o estadual em 2007, quando tinha 18 anos. Passou pelo Corinthians nos tempos de Série B e rodou por diversos clubes do país, sobretudo do Mato Grosso do Sul. Não à toa, também levantou o caneco estadual por Cene, Sete de Dourados e Corumbaense. Em 2018, ajudou o Aquidanauense a subir à elite local. Trocou de camisa e, de volta a Rio Brilhante, anotou o gol da vitória no primeiro jogo da finalíssima.