A passagem de Daniele De Rossi pelo Boca Juniors não será lembrada além de uma grande aventura. Apesar das altíssimas expectativas que o casamento gerou e da comoção dos xeneizes ao redor do novo contratado, o volante não jogou mais do que um punhado de minutos com a camisa azul y oro. Já nesta segunda-feira, De Rossi não apenas encerrou sua trajetória na Bombonera, como também colocou um ponto final em sua carreira profissional. Aos 36 anos, o veterano preferiu não renovar seu contrato e voltará à Itália para viver com sua família, preparando-se às próximas etapas da sua história no futebol.

A permanência de De Rossi no Boca Juniors era colocada em dúvida após a troca de comando no clube. A oposição ganhou as eleições e a renovação do suntuoso contrato com o meio-campista permanecia em aberto. Até houve um bom contato com os novos dirigentes, apesar do enxugamento das contas na Bombonera. Entretanto, segundo o italiano, pesou muito mais a saudade que tinha da filha mais velha, de 14 anos, a única que ficou em Roma.

“Não tenho um problema sério de lesão ou qualquer outro entrave importante, na verdade. Eu simplesmente sinto a necessidade de voltar à minha família. Sinto falta da minha filha e ela também sente a minha falta. Não há problemas de saúde ou nada mais grave. Eu tomei essa decisão, é definitiva. Todo mundo tentou me convencer do contrário, a nova diretoria demonstrou carinho e pediu alguns dias, mas a decisão foi tomada e não há nada de estranho nisso”, comentou De Rossi, durante coletiva de imprensa nesta segunda. “Assim como o clube, também deixo minha carreira como jogador. Certamente continuarei trabalhando no futebol”.

“Deixo um pedaço do meu coração aqui no Boca Juniors, porque poucos sabem exatamente o que significa jogar na Bombonera e estar nos vestiários do clube. Foi uma experiência única. Vocês me receberam como um irmão aqui e eu nunca me esquecerei. Seguirei assistindo aos jogos do Boca e estou certo que voltarei no futuro, para estar nas arquibancadas. Tomei minha decisão ainda em outubro, mas pensei que o certo era voltar aqui e conversar com as pessoas olho no olho, como sinal de respeito”, complementou.

De Rossi falou sobre as dificuldades que teve para definir sua aposentadoria: “Nos últimos meses, minha mulher despertava durante a noite e me via olhando o teto. Eu não podia dormir, me custou muito deixar o futebol, e ainda mais a Argentina, que tem um povo com coração mágico. Mas não posso jogar até os 50 anos e já tive a sorte de enfrentar os melhores do mundo. Sou feliz, joguei em duas equipes que amo. Tudo fica no coração. Vou sofrer quando assistir aos jogos, mas assim é a vida do futebolista: um dia termina”.

Contratado em julho, De Rossi disputou apenas sete partidas com a camisa do Boca Juniors. O meio-campista estreou em agosto, pela Copa Argentina. Chegou a anotar um gol contra o Almagro, seu único nesta empreitada, embora não tenha evitado a eliminação diante do adversário da segundona. Também disputou cinco rodadas do Campeonato Argentino, quatro como titular, e entrou nos minutos finais do empate contra a LDU Quito, nas quartas de final da Copa Libertadores. Todavia, uma lesão na coxa atrapalhou sua sequência e o afastou do time por quase dois meses.

“Foi a única aventura distinta de tudo o que fiz na minha carreira. Não pensava em amar tanto uma equipe que não fosse a Roma, além de tudo o que sinto por aquele clube. Parte do meu coração fica aqui. As pessoas do Boca me deram muito mais do que eu os deixei. Espero ter sido importante. Se algum europeu precisar de um conselho sobre o que é o Boca, tem que saber que é algo que não viverão do outro lado do Atlântico. Meus companheiros, como Tevez, me disseram coisas muito lindas. Todos me ajudaram e terão um irmão na Itália”, exaltou De Rossi.

Até mesmo a queda para o River Plate nas semifinais da Copa Libertadores, dentro da Bombonera, deixou uma memória especial e positiva a De Rossi: “A imagem mais significativa, mais importante, foi depois de ter vencido o River Plate, apesar da eliminação. As pessoas cantavam que ‘o Boca levo no sangue, no coração’, com lágrimas nos olhos e com orgulho. Não é fácil ver isso em qualquer parte do mundo. São quatro ou cinco minutos que nunca mais me esquecerei na vida”.

De Rossi deverá manter seu vínculo com o Boca Juniors de outras formas. Jorge Ameal, atual presidente xeneize, ofereceu ao meio-campista um posto como embaixador do clube na Itália. Em sua transferência à Bombonera e mesmo nesta despedida, o veterano reafirmou como tinha o sonho de defender o clube argentino. Conforme o novo presidente, haverá um contato permanente com o ex-jogador.

“Daniele nos deixa uma grande lembrança por um curto período e servirá para que outros europeus possam vir a nosso clube. Eu me surpreendi gratamente com De Rossi. Em pouco tempo, conheci um grande ser humano. Tudo o que ele disse é o que pensa e sente. Só ao olhar, você percebe a honestidade dele”, declarou Ameal. O volante também rechaçou qualquer desentendimento com Juan Román Riquelme, novo diretor de futebol xeneize, apesar dos rumores levantados pela imprensa local.

De Rossi afirmou que deseja seguir no futebol. Quer estudar e seu plano é se tornar treinador. O mais provável é que retorne à Roma dentro de algum tempo, para trabalhar com as categorias de base. Seu pai é o atual treinador da equipe primavera dos giallorossi, após comandar diferentes categorias desde a década de 1990. Daniele, entretanto, deve aguardar a provável venda do clube nas próximas semanas. Vale lembrar que o volante deixou os romanistas em litígio com a atual diretoria, que preferiu não renovar o contrato de seu capitão.

Em suas redes sociais, ainda assim, a Roma publicou um vídeo de despedida para De Rossi. O meio-campista disputou 616 partidas oficiais pelo clube e marcou 63 gols, com dois títulos na Copa da Itália. Além do mais, foram 117 partidas pela seleção italiana, com o ápice da carreira atingido durante a conquista da Copa do Mundo de 2006. Apesar do adeus sem as merecidas homenagens, De Rossi sempre será saudado por muita gente, diante daquilo que construiu no futebol. Seu apego à camisa e sua dedicação em campo foram exemplares.

* Nesta terça, teremos um especial relembrando a carreira de De Rossi.