A Olla Azulgrana havia se transformado na embaixada santafesina em plena Assunção. A final única da Copa Sul-Americana, na verdade, aconteceu em um estádio transfigurado como casa do Colón por esta noite. E os 40 mil torcedores sabaleros presentes no Paraguai, alguns milhares deles contentes apenas em circular nas ruas ao redor da cancha, tomaram um banho. O temporal que caía na cidade esfriou o ânimo dos argentinos e lavou a alma do Independiente del Valle. Se a massa pendia apenas a um lado, os equatorianos preponderaram no futebol – algo notado durante toda a campanha. Jogaram melhor ao longo dos 90 minutos e garantiram o título inédito, com a vitória por 3 a 1. Com muitíssimos méritos, a taça vai para a pequenina Sangolquí, de 75 mil habitantes.

Bola por bola, o Independiente del Valle carregava o favoritismo nesta decisão da Copa Sul-Americana. Os rayados fizeram uma campanha muito mais consistente e deram uma prova cabal de sua força na semifinal contra o Corinthians, sobretudo em Itaquera. Porém, o Colón tinha as suas armas. É um clube com mais tradição e com jogadores mais tarimbados. E que, além do mais, possuía uma torcida sedenta pelo primeiro título de sua história. Os sabaleros abarrotaram as ruas de Assunção e fizeram uma festa imensurável na Olla Azulgrana. Até compensaram a escolha bem contestável da Conmebol em realizar a final única.

Em nenhum momento, porém, o Del Valle se incomodou com o ambiente hostil. A quem já chegou a uma final de Copa Libertadores eliminando River Plate e Boca Juniors, esta não era exatamente uma novidade. O novo aos equatorianos seria buscar a taça continental, após a derrota para o Atlético Nacional em 2016. Foi isso o que fizeram. Tiveram controle da partida e derrotaram o Colón.

Desde o primeiro tempo, o duelo se desenrolou de uma maneira que deixou o Independiente del Valle à vontade. A equipe de Miguel Ramírez tocava bem a bola, mesmo sob uma chuva torrencial em Assunção, e não passava muitos sustos na defesa. Aos 24 minutos, os rayados abriram o placar. Após uma cobrança de falta de Cristian Pellerano, Luis Fernando León completou de cabeça, por entre as pernas do goleiro Leonardo Burián. O VAR levou certo tempo para revisar, mas confirmou o tento do capitão. León é justamente o único remanescente do vice de 2016 na Libertadores.

A partida não andaria muito depois disso. O temporal provocava enormes poças de água no gramado e a bola rolava cada vez menos. O árbitro Raphael Claus, numa decisão pertinente, preferiu interromper a final e aguardar que a chuva abrandasse. A paralisação, que deveria durar meia hora, chegou aos 55 minutos. Ao menos, o campo estava em condições novamente, por mais que a água continuasse malhando nos céus. Wilson Morelo até tentou o empate neste momento, mas o goleiro Jorge Pinos salvou. E o segundo gol do Del Valle saiu pouco depois, quando o relógio marcava 38. Jhon Jairo Sánchez arrancou pela esquerda, invadiu a área sozinho e bateu na saída do goleiro, antes de correr para o abraço.

O Colón voltou ao segundo tempo focado na reação e teria sua chance de ouro logo nos primeiros minutos. Morelo caiu na área e o árbitro confirmou o pênalti, inclusive com demorada revisão. Pulga Rodríguez, herói nas semifinais, partiu para a cobrança. Parou no goleiro Pinos, que acertou o canto e espalmou o chute. Depois disso, o moral dos sabaleros parecia moído. O Independiente del Valle fazia muito bem seu papel para cozinhar o jogo, aguardando o tempo passar. Os argentinos mal conseguiam finalizar.

Somente nos últimos minutos é que o Colón ressuscitou. Os santafesinos acharam um gol aos 43. Após cobrança de escanteio, a bola escorada sobrou para Emanuel Olivera completar quase em cima da linha. E se os seis minutos de acréscimos garantiam uma sobrevida, o nervosismo pesou contra os sabaleros. O time partiu para o abafa, mas sem conseguir romper a zaga do Independiente del Valle. Pior, concedeu o terceiro gol aos 50. Alejandro Cabeza puxou o contragolpe dos rayados e, quando o goleiro saía da área, passou a Cristian Dájome mandar às redes vazias. Um dos destaques da campanha, o colombiano fechou a contagem.

O Independiente del Valle se torna o segundo clube equatoriano a conquistar um título continental, repetindo o feito antes restrito à LDU Quito, que faturou tanto a Sul-Americana quanto a Libertadores. E premia o excelente trabalho realizado em Sangolquí, especialmente na formação de jogadores. Mesclando veteranos com jovens talentos, os rayados outra vez chegaram a uma final sul-americana, agora para não deixar escapar. São muitos jogadores que podem ascender na carreira, com menção a Cabeza e Sánchez, dois valores locais. Além do mais, é preciso elogiar também o trabalho do espanhol Miguel Ramírez. Com apenas 35 anos, chegou ao Equador para coordenar a base, mas assumiu a equipe principal na fogueira e apresentou um estilo de jogo de muita qualidade.

Além do troféu, a conquista da Copa Sul-Americana confirmou a presença do Independiente del Valle na Libertadores de 2020. E vale lembrar que os equatorianos também poderão representar o continente na ampliação do Mundial de Clubes, em 2021. Com a expansão do torneio promovida pela Fifa, a Conmebol projeta entregar duas vagas aos vencedores da Sul-Americana. Os rayados seriam um desses, aguardando a confirmação do conselho da entidade.

As autoridades do Paraguai registraram que pouco mais de 500 torcedores equatorianos entraram no país durante as últimas horas. Era apenas um agrupamento engolido pela multidão do Colón. No entanto, a grande festa do Independiente del Valle deve acontecer na volta para casa. Como se notou nas arquibancadas do Estádio Olímpico Atahualpa em outros momentos, as demais torcidas locais abraçaram a causa dos rayados. Neste sábado, eles jogavam pelo orgulho do futebol equatoriano. E certamente valorizaram este sentimento, com o feito histórico registrado pela taça faturada de maneira categórica.