Kevin de Bruyne se tornou um dos grandes jogadores do mundo desde que se transferiu para o Manchester City, em 2015. Não que antes já não jogasse para isso, mas atuar pelo Genk, na Bélgica, e depois, Werder Bremen e Wolfsburg, na Alemanha, ainda suscitava alguma dúvida. Pelo Manchester City, com o time disputando os maiores campeonatos com condições de levantar o caneco, ele se tornou protagonista.

Na sua primeira temporada, inclusive, foi quando o Manchester City fez sua melhor campanha na história da Champions League, ao chegar à semifinal contra o Real Madrid, em 2015/16. Em um depoimento ao Players’ Tribune, o jogador contou um pouco sobre a sua carreira, desde curiosidades até histórias sobre a sua passagem sem sucesso pelo Chelsea, as conversas com José Mourinho, como conheceu a sua esposa (no Twitter!) e os elogios a Pep Guardiola. Um bom depoimento do jogador.

A impressão errada sobre Sterling

Eu sou uma pessoa brutalmente honesta. Então eu vou deixar que vocês saibam um pequeno segredo. Antes de vir para o Manchester City, eu realmente não sabia o que pensar desse cara, Raheem Sterling. Eu nunca o tinha encontrado e do que eu lia na imprensa inglesa, eu pensei que ele teria uma personalidade muito diferente. Eu pensei… Bem… Eu não achava que ele era um cara mau, realmente. Mas os tabloides estavam sempre alegando que ele era arrogante. Então eu pensei que ele seria… Como os ingleses dizem? Um pouco idiota, talvez?

Raheem e eu temos uma conexão forte, porque nós chegamos ao City mais ou menos na mesma época e havia muita negatividade sobre nós na imprensa. Eles diziam que eu era ‘rejeitado pelo Chelsea’. Eles diziam que Raheem era um cara chamativo que deixou Liverpool por dinheiro. Eles diziam que nós éramos personalidades difíceis.

É claro, quando você lê algo assim sobre você mesmo, você pensa: ‘Eu? Eu não sou difícil. Isso é ridículo. Essas pessoas nem me conhecem!’. Mas, honestamente, quando você lê sobre outros jogadores, isso influencia o modo como você pensa. Você não pode evitar.

Então eu fui para o City e eu realmente conheci Raheem e nós conversávamos um pouco depois dos treinamentos e eu pensei: ‘Espere, esse cara parece realmente legal? Qual é a história aqui?’.

Verdadeiramente, eu não tenho muitos amigos próximos – dentro ou fora do futebol. Demora um tempo realmente longo para me abrir para as pessoas. Mas com o passar do tempo, eu fiquei mais próximo de Raheem, porque nossos filhos nasceram mais ou menos na mesma época, então eles sempre brincavam juntos. Eu passei a realmente conhecer Raheem e eu percebi que pessoa genuína e inteligente que ele é. Ele não poderia ser mais diferente do que os tabloides estavam dizendo. A verdade real é: Raheem é um dos caras mais legais e humildes que conheci no futebol.

(…)

Desde que eu era um garoto, eu sempre fui extremamente quieto, extremamente tímido. Eu não tinha um PlayStation. Eu não tinha muitos amigos próximos. O modo como eu me expressava era pelo futebol e eu estava muito contente com isso. Fora de campo, eu era muito introvertido. Eu não diria uma palavra para você. Mas, em campo, eu era muito inflamável. Eu sei que todo mundo riu com o vídeo meu gritando com David Silva ‘ME DEIXE FALAR!’ e tudo isso. Mas isso é provavelmente bem tranquilo comparado a quando eu era criança.

Chelsea

É verdade que eu posso explodir às vezes, especialmente em campo. Eu tendo a segurar as coisas internamente e então BANG – eu perco a cabeça. Normalmente, cinco segundos depois eu estou calmo novamente. Mas eu me sinto um pouco mal interpretado. Tudo que eu sempre fiz no futebol tem a ver com uma coisa – eu quero jogar.

Quando eu estava no Chelsea, havia muita coisa na imprensa sobre o meu relacionamento com José Mourinho. Mas a verdade é que eu só falei com ele duas vezes. O plano sempre foi que eu saísse por empréstimo um pouco. Então eu fui para o Werder Bremen em 2012 e a temporada foi ótima. Quando eu voltei para o Chelsea na temporada seguinte, alguns clubes alemães queriam me contratar. Klopp queria que eu fosse para o Borussia Dortmund e eles jogavam o tipo de futebol que eu gostava. Então eu pensei que o Chelsea talvez me deixasse ir.

Mas Mourinho me mandou uma mensagem: ‘Você fica. Eu quero que você seja parte deste time’. Então eu pensei, ok, ótimo. Estou nos planos.

Quando eu cheguei para a pré-temporada, o clima era bom. Eu comecei dois dos primeiros quatro jogos da temporada e eu achei que joguei ok. Não brilhante, mas bom. Depois do quarto jogo, foi isso. Eu estava no banco e nunca tive chance novamente. Não recebi nenhuma explicação. Eu estava fora dos planos por alguma razão.

E, é claro, eu cometi alguns erros. Eu fui um pouco inocente no modo como eu tive que lidar comigo mesmo como jogador da Premier League. O que acho que a maioria dos torcedores não percebem é que quando você está fora dos planos em um clube, você não chega nem perto de ganhar a mesma atenção no treinamento.  Em alguns clubes, é como se você não existisse mais.

Se isso acontecesse comigo agora, não seria um problema. Eu sei o suficiente para treinar sozinho e me cuidar. Mas quando você tem 21 anos, você não entende isso. Quando eu ganhei outra chance de jogar, contra o Swindon Twon na Copa, eu não estava em boa forma física. E isso foi basicamente tudo que eu tive.

José me chamou em seu escritório em dezembro e foi provavelmente o segundo momento que mudou a minha vida. Ele tinha alguns papéis na sua frente e ele disse: ‘Uma assistência. Nenhum gol. 10 recuperações’. Levou um minuto para eu entender o que ele estava fazendo. Então ele começou a ler as estatísticas de outros jogadores de ataque – Willian, Oscar, Mata, Schürrle. E era algo como cinco gols, 10 assistências ou o que fosse.

José parecia estar esperando que eu dissesse algo e eu finalmente disse: ‘Mas alguns desses caras jogaram 15, 20 jogos. Eu só joguei três. Então será diferente, não?’. Aquilo foi estranho. Nós tivemos um pouco de conversa sobre eu voltar a ser emprestado. E Mata também estava fora dos planos na época, então José disse: ‘Bem, você sabe, se Mata sair, então você será a quinta opção, em vez da sexta’. Eu fui completamente honesto. Eu disse: ‘Eu sinto que o clube não me quer realmente aqui. Eu quero jogar futebol. Eu preferia que você me vendesse’.

Eu acho que José ficou um pouco decepcionado, mas para ser justo com ele, eu acho que ele também entendeu que eu realmente precisava jogar. Então, o clube acabou me vendendo e não foi um grande problema de modo algum. O Chelsea recebeu mais do que o dobro do que pagou por mim e eu fui para uma situação muito melhor no Wolfsburg.

A esposa que conheceu no Twitter

Tudo mudou então. Não apenas por causa de futebol. Também foi porque eu tive a minha (futura) esposa ao meu lado. Ela me ajudou a crescer de modo que eu nunca expressei em voz alta – mesmo para ela. Esta é uma história tão embaraçosa que eu hesito em contar. Mas já que eu prometi honestidade, então acho que tenho que fazer isso. E é divertida, de qualquer forma.

Começou com um tuíte. Eu tinha apenas alguns milhares de seguidores na época, porque eu ainda estava emprestado no Werder Bremen. Então eu tuitei alguma coisa sobre um jogo ou qualquer coisa assim e esta linda garota favoritou. Eu estava solteiro na época e meu amigo percebeu. Então ele disse: ‘Ela parece uma boa garota, não? Você deveria mandar uma mensagem para ela’. E eu literalmente disse a ele: ‘Não, não, não. Que isso. As pessoas não gostam de mim. Elas não me entendem. Ela não irá responder’.

Então ele pegou meu telefone e começou a digitar uma mensagem. Ele me mostrou no telefone e disse: ‘Vamos lá, posso apertar enviar?’. Eu provavelmente estava no chão, me encolhendo, mas por alguma razão eu disse: ‘Ok, mande’. Isso diz tudo, não é mesmo? Eu deveria ser esse grande jogador e eu sequer tive coragem de mandar uma DM para a minha futura esposa! Eu não ousava!

Mas, ainda bem, ele mandou a mensagem para mim e ela respondeu. Nós nos conhecemos por mensagens nos meses seguintes. É muito mais fácil para mim uma vez que eu conheço alguém, então depois disso, foi bom. Foi realmente algo bonito. Ela mudou a minha vida em tantos jeitos diferentes. Honestamente, eu não sei o que faria sem ela.

As pessoas ficam colocando o rótulo de ‘WAGs’ [sigla em inglês para Wifes and Girlfriends, usada para pessoas famosas] e eu acho que é uma vergonha. Porque minha esposa é a pessoa mais importante da minha vida. Ela sacrificou tudo para se mudar comigo quando ela tinha 19 anos, para me ajudar a seguir o meu sonho. Nós estamos nessa jornada juntos. Eu cuido dela, de certa forma. Ela me faz muito sair da minha concha com as pessoas e o modo como ela lidou com tudo é notável, de verdade.

Nós tínhamos acabado de descobrir que ela estava grávida do nosso primeiro filho durante a janela de transferências de 2015. Manchester City, PSG e Bayern estavam todos interessados em mim. Foi um período muito estressante. Nós estávamos começando a nossa família e não tínhamos ideia se a transferência iria avançar ou onde estaríamos vivendo.

Pessoalmente, eu queria vir para o City. Eu tinha Vinny Kompany me mandando mensagens, me dizendo sobre o projeto, dizendo que eu iria amar. E eu me senti bem sobre o clube. Mas eu também não queria ser desrespeitoso com o Wolfsburg porque eu genuinamente amei o meu período lá. Então eu tratei de fechar a minha boca e esperar. Fácil para mim!

Todo dia, literalmente, por três semanas, meu agente estava me dizendo: ‘Vai acontecer. Espere, não vai mais. Vai acontecer. Espere, não vai mais’. O estresse realmente teve um efeito na minha esposa. Uma manhã nós acordamos e ela estava muito, muito doente. Nós não sabíamos o que faríamos. Nós ficamos preocupados que talvez houvesse algo errado com a criança.

Ela estava cheia de dor e ela estava sangrando. Nós não tínhamos ideia do que estava acontecendo, então corremos para o hospital. Nós estamos preocupados que ela talvez tivesse perdido a criança. Foi o pior momento da minha vida, sem dúvida. Você está apenas sentado ali, desamparado. Em um minuto, tudo que você está pensando é sobre uma transferência no futebol. Então, de repente, seu mundo vira de cabeça para baixo. Graça a Deus, no final, tudo estava bem com o nosso filho.

Eu não sei o que teria feito sem ele na minha vida. Tudo de bom que já aconteceu comigo no futebol não é nada comparado à vida dos meus filhos. Foi o terceiro momento que mudou a minha vida, porque me fez perceber que o futebol não é vida ou morte. Eu acho que estava provavelmente muito consumido pelo futebol nos primeiros 23 anos da minha vida. Mas quando eu conheci minha esposa e especialmente depois que o nosso primeiro filho nasceu, eu não estava mais fazendo as coisas sozinho. Quando nós começamos a nossa família e eu vim para o Manchester City, tudo decolou. Especialmente quando Pep chegou na segunda temporada.

Pep Guardiola

Pep e eu compartilhamos uma mentalidade similar. Para ser justo, ele é ainda mais intenso em relação ao futebol do que eu. Ele é muito, muito estressado, o tempo todo. Contudo, muito do estresse mental que nós temos como jogadores, acho que ele tem duas vezes mais. Porque ele não está interessado em vencer. Ele quer a perfeição.

A primeira reunião que eu tive com Pep, ele me falou para sentar e me disse: ‘Kevin, escute. Você pode ser, facilmente, um dos cinco melhores jogadores do mundo. Um dos cinco melhores. Facilmente’. Eu estava em choque. Mas quando Pep diz isso com tanta confiança, isso mudou a minha mentalidade inteira. Foi algo de gênio, eu acho. Porque eu senti que eu tinha que provar que ele estava certo, em vez de provar que ele estava errado.

Na maior parte do tempo, o futebol é negatividade e medo. Mas com Pep, é sobre extrema positividade. Ele coloca objetivos que são tão altos que são quase impossíveis de alcançar. Ele é um mestre da tática, sim. Não há dúvida sobre isso. Mas o que as pessoas de fora não sabem é que a pressão que ele coloca nele mesmo para tentar atingir a perfeição.

A dor da lesão

Esta temporada não tem sido fácil para mim. As lesões e as partidas que eu perdi foram extremamente difíceis para mim, mentalmente. Sentar e assistir a uma partida das arquibancadas é basicamente pior que tortura para mim. Eu não consigo lidar.

Na verdade, minha esposa diz que há algo errado comigo. Nós estamos juntos há quase sete anos e ela nunca me viu chorar. Mesmo em funerais, eu não choro. Mas então, no início desta temporada, eu machuquei o meu joelho contra o Fulham e foi algo sobre lesão de ligamento. Os médicos me disseram que eu teria que ficar de braços cruzados por um tempo. Isso é sempre um pesadelo quando você não pode nem colocar uma cueca sem ajuda. Mas isso foi realmente um momento terrível, porque minha esposa tinha acabado de dar à luz nosso segundo filho no dia anterior.

Na verdade, ela tinha acabado de chegar em casa do hospital quando eu liguei para ela com o FaceTime para dar a notícia. Eu disse: ‘Como está o bebê?’. Ela disse: ‘Tudo está bem. Você está chorando?’. Eu tinha uma pequena lágrima no meu olho, acho. Eu disse: ‘Bem, eu tenho más notícias. É meu joelho de novo. Eu terei que ficar de braços cruzados por um tempo. Então eu acho que você terá que tomar conta de três bebês agora’.

E então, literalmente, eu caí no choro. Eu não consegui evitar. Eu não sei se foi a emoção do nosso filho nascendo, ou saber que eu perderia mais partidas, talvez ambos. Mas eu estou no FaceTime, naquela câmera frontal estúpida, parecendo ridículo, soluçando. Minha esposa não acreditava. Ela disse: ‘Você não chorou no nosso casamento! Você não chorou mesmo quando nossos filhos nasceram! Um nasceu literalmente ontem!”.

Eu acho que isso diz tudo, de verdade. Casamentos, funerais, nascimentos? Não é nada, eu sou uma rocha. Mas se você tira o futebol de mim? Esqueça. Eu não consigo lidar.

No fim, esse projeto no City é mais do que vencer. Se trata de um certo modo de jogar e uma filosofia geral. É por isso que nós acordamos a cada manhã, por que nós somos obcecados em tantos detalhes no nosso trabalho, por que nós tentamos nos forçar aos nossos limites. Jogar um futebol simples é na verdade a coisa mais difícil do mundo. Mas quando está acontecendo? Para mim, é a maior alegria que eu tenho na vida.

Então, se alcançarmos ou não o impossível, esta onda que estamos, isso deveria ser apreciado por qualquer um que verdadeiramente ama futebol, eu acho. Quando nós jogamos o nosso melhor no City, quando nós somos fluidos é como… Qual é a palavra para isso? Sabe, quando você medita?

Nirvana. É como nirvana para mim. E eu acho que eu sou um tipo um pouco diferente de pessoa, nesse sentido, me expressando pelo futebol. Mas essa é a minha história.

Obrigado por me deixar conta-la. Obrigado por me deixar falar.