Em um universo predominantemente masculino (e tradicionalmente machista), as mulheres ainda lutam para ocupar cargos executivos no futebol. Aqui no Brasil tivemos um exemplo recente (e desastroso) de Patrícia Amorim na presidência do Flamengo, tal como encontramos meia dúzia de casos no futebol europeu, como o período em que Rosella Sensi presidiu a Roma. Na África, por sua vez, as mulheres começam a ganhar cada vez mais preponderância. Em Serra Leoa, Isha Johansen está muito próxima de ser a primeira mulher a presidir a federação do país.

Ainda que não seja comum, este não seria um caso inédito no futebol africano. A “precursora” nesse sentido foi Izetta Wesley, que assumiu o comando da Associação de Futebol da Libéria em 2004 e permaneceu até 2010. Ela inspirou mulheres como Lydia Nsekera, que atualmente preside a Federação de Futebol do Burundi e também se tornou na primeira mulher a integrar o Comitê Executivo da Fifa.

Pois Isha Johansen também se espelha nestas mulheres para ser bem sucedida em suas pretensões. Ela é a prova de que, apesar da desconfiança, as mulheres também podem trazer boas perspectivas ao futebol como líderes. Capacidade ela tem de sobra. Socialite, empresária e fanática por esportes, Johansen começou a se envolver com o futebol em 2004, período em que Serra Leoa ainda se recuperava social e economicamente da guerra civil que assolou o país por mais de uma década. Foi quando ela fundou o FC Johansen, notavelmente reconhecido pelo ótimo trabalho com jovens.

Isha foi a responsável por tirar diversos meninos da rua e dar-lhes a oportunidade de ingressar no mundo do futebol. Por conta deste trabalho, o seu clube se estabeleceu como um exemplo de formação de jogadores, inclusive disputando torneios fora de Serra Leoa na base, em países como Estados Unidos, Espanha, Noruega, Suécia e outros. Em 2011, inclusive, o FC Johansen conquistou um torneio sub-16 em cima do Liverpool. O clube também se notabiliza pela organização de um torneio anual que reúne equipes de base de várias partes do mundo.

Conhecida como a “dama de ferro” de Serra Leoa, Johansen também se destaca em outras áreas. Em meados da década de 90, ela se tornou na primeira mulher a assumir um cargo de editora, mais precisamente na revista Rapture Magazine. Ela também é uma ativista contra o câncer de mama, possuindo inclusive uma ONG centrada nesta causa. Johansen ainda fundou o “Women of Excellence Awards”, premiação que perdurou entre 2003 e 2006 e tinha como objetivo destacar a contribuição de mulheres para o desenvolvimento de Serra Leoa.

Em que pese seu envolvimento com o futebol, uma questão em sua candidatura para a presidência da Associação de Futebol de Serra Leoa (SLFA) é preocupante: ela conta com o apoio do Ministro do Esporte, Paul Kamara, o que pode significar um não rompimento com a atual gestão do futebol do país – ainda que ela pregue o contrário. Kamara tem articulado o possível para que sua candidata seja eleita, inclusive encontrando brechas para desqualificar a candidatura de todos os seus adversários na corrida presidencial. Com isso, Johansen será eleita sem qualquer oposição.

O ex-craque da seleção de Serra Leoa, Mohamed Kallon, era um dos opositores. Sua candidatura foi cancelada pela violação de um dos artigos do estatuto da federação, que diz que um postulante a qualquer cargo precisa ter residido no país nos cinco anos anteriores à sua candidatura. Este não teria sido o caso de Kallon, que supostamente viveu em outro país entre 2008 e 2011. O envolvimento de Kamara na desqualificação da candidatura de Kallon e de outros opositores não é comprovada, mas está escancarada. Vale lembrar que a Fifa não permite interferência política no futebol, mas esta infelizmente é uma prática comum na África e que precisa ser combatida.

Alheia a essa polêmica, Johansen possui todas as credenciais para marcar uma nova era no futebol de Serra Leoa. Mais do que isso, ela é mais um exemplo de que as mulheres podem assumir um papel mais representativo no futebol, desde que trabalhem pra isso. “Existem dois tipos de pessoas no mundo – as que fazem história e as que fazem parte de fazer história”, diz ela. Johansen, definitivamente, é das que fazem história. E que ela deixe seu legado tanto no aspecto administrativo quanto no combate ao machismo que impera no futebol.

Curtas

– Mais um escândalo de corrupção no futebol africano: a Federação de Futebol do Quênia (FKF) está sendo investigada pela agência anticorrupção do país por conta do desaparecimento de centenas de dólares recebidos da Fifa e de outros doadores. Estima-se que o montante supostamente desviado é de 410 mil dólares. O futebol queniano coleciona uma série de casos de má gestão na última década.

– E a Fifa parece mesmo disposta a combater a interferência política no futebol africano. A Federação Marroquina de Futebol (FRMF) recebeu uma notificação oficial da entidade máxima do futebol por conta da sua cumplicidade com o Ministério da Juventude e dos Esportes do país. A carta soa como um “alerta” para os dirigentes, já que a Fifa pode acenar inclusive com uma possibilidade de suspensão.

– A Federação Egípcia de Futebol (EFA) anunciou que a próxima temporada do Campeonato Egípcio reunirá 22 equipes divididas em dois grupos. A entidade, no entanto, recusou-se a declarar a data de início da temporada por motivos de segurança. Vale lembrar que as duas últimas edições da competição foram canceladas justamente por essa razão.

– Falando em egípcios, os maiores rivais do país, Al Ahly e Zamalek, se enfrentaram pela Liga dos Campeões Africana e empataram em 1 a 1. O jogo, que a princípio teria portões fechados, contou com a presença de torcedores que lotaram o estádio da cidade de El-Gouna, ignorando as ordens da CAF. Apesar da preocupação, nenhum incidente foi registrado.

– O Zamalek, aliás, sofreu uma grande perda nesta semana. O artilheiro do time, Abdoulaye Cissé, rescindiu unilateralmente o seu contrato e assinou com o Al-Ittihad, da Líbia. O atacante de Burkina Faso, assim como outros companheiros de clube, não recebia salários há meses. Por conta da crise financeira do Zamalek, jogadores como Ibrahim Salah e Alexis Mendomo também já deixaram o clube.

– A seleção camaronesa realizará um período de treinamentos em Paris entre os dias 10 e 14 de agosto. O técnico Volker Finke anunciou a lista dos 28 chamados e a grande novidade é a primeira convocação de Jean Marie Dongou, atacante de apenas 18 anos do Barcelona. O jovem recentemente se destacou ao balançar as redes duas vezes em um amistoso do clube catalão.

– Atual campeão sul-africano, o Kaizer Chiefs faturou mais um título: com um gol de Lehlohonolo Majoro, a equipe venceu o arquirrival Orlando Pirates por 1 a 0 e conquistou a Carling Cup. O Pirates defendia o bicampeonato do torneio.

– Líder invicto do Campeonato Angolano, o Kabuscorp derrotou o Onze Bravos por 1 a 0 e pulou para 44 pontos. O segundo colocado, Primeiro de Agosto, sapecou 5 a 0 no Atlético do Namibe e segue na caça ao líder, com 39 pontos.