Quanto vale um gol? Ao Cruzeiro, R$60 mil se multiplicaram 833 vezes, se convertendo nos R$50 milhões recebidos com a premiação da Copa do Brasil. Isso sem contar a participação na Libertadores, que renderá mais. Isso sem contar, sobretudo, a importância de um hexacampeonato inédito, que o dinheiro não paga. De Arrascaeta, por sua vez, também investiu. Investiu seu empenho, ao suportar uma viagem de 25 horas para contornar o planeta e estar presente no gramado da Arena Corinthians. Tudo isso para que 15 minutos bastassem, de sua entrada em campo ao gol que determinou o título celeste. Não houve jet lag ou qualquer desgaste que atrapalhasse sua cavadinha sublime. Em compensação, ganhará horas e mais horas de comemoração por um título que é muito seu. E, melhor ainda, ganhará a lembrança eterna da torcida cruzeirense.

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A ausência de Arrascaeta nas finais da Copa do Brasil mostrava o lado mais vil da desorganização do futebol brasileiro. Alguns reclamavam da seleção uruguaia, que não demonstrou qualquer compreensão e se recusou a liberar o meia para a decisão. Tinham sua parcela de razão. Mas muito mais culpada era a CBF, que agendou o momento principal do seu torneio justamente na Data Fifa. Desvaloriza o produto e deixa qualquer clube vulnerável a jogar desfalcado. Ainda assim, era possível um esforço, seja financeiro ou de energias, que tanto o Cruzeiro quanto Arrascaeta resolveram abraçar.

Como se as coisas já não fossem complicadas o suficiente, o Uruguai disputou amistosos no Extremo Oriente, encarando o Japão na (conforme o Horário de Brasília) manhã desta terça-feira. Arrascaeta participou de 45 minutos na derrota por 4 a 3 para os Samurais Azuis. Direto de Saitama, o meia partiu a Tóquio. Fez uma escala em Dubai, até chegar a São Paulo. O trajeto durou aproximadamente 25 horas e custou R$60 mil ao Cruzeiro, que bancou um assento na primeira classe para o seu craque. Além disso, o clube orientou a dieta do atleta no voo, para que se alimentasse no horário dos demais jogadores. Durante a tarde desta quarta, ele desembarcou em São Paulo e seguiu diretamente à concentração da Raposa. Pronto para jogar. Pronto para resolver.

Mano Menezes, obviamente, sabia dos riscos e havia confirmado que Arrascaeta não seria titular. De qualquer maneira, a utilidade do uruguaio poderia ser grande a partir do banco. Entrou no jogo em um momento difícil ao Cruzeiro, no qual o Corinthians tentava reagir. Seu primeiro arremate não teve muita direção, longe do gol. Todavia, quando os alvinegros ainda alimentavam suas esperanças, seria ele o responsável por assegurar a comemoração celeste. No momento em que Raniel partiu com a bola dominada, o meia disparou pela esquerda. Aproveitou a defesa corintiana totalmente aberta para avançar e invadir a área. Requinte de crueldade: com Cássio a seus pés, a sutileza de toda a história ficou para o toque malicioso por cima do goleiro. Uma cavadinha simples e bela, certeira. A viagem valeu a pena, coroando o esforço do herói.

O reconhecimento a Arrascaeta na Arena Corinthians era óbvio. Durante a comemoração do título, os torcedores do Cruzeiro gritavam o seu nome no setor visitante. E da mesma maneira, não eram poucos os que bendiziam o uruguaio. Na realidade, eram milhões. Uma multidão de celestes que aprendeu a apreciar o talento do meia incisivo e tantas vezes decisivo, de jogos grandes. Xodó da torcida, independentemente das teimosias de Mano Menezes. Agora, o camisa 10 dá motivos para arrancar mais aplausos.

Depois de estourar com o Defensor na Libertadores, Arrascaeta levou certo tempo até deslanchar no Cruzeiro. Porém, já são três temporadas atuando em ótimo nível. Na atual, em altíssimo nível, para permitir que a Raposa cumpra os seus objetivos. Em uma equipe pouco vistosa, o uruguaio providencia o toque de inventividade. É o cara que faz diferente. E se nem sempre conseguiu ser efetivo nos mata-matas recentes, a consideração dos cruzeirenses não se abala por isso. A cavadinha fica gravada na memória. É a prova cabal que toda a confiança se pagou, em um lance, depois de horas e dinheiro gastos – não só por ele, não só pelo clube.

Arrascaeta, além do mais, é um extraclasse no futebol brasileiro. Pouquíssimos clubes contam com um meia direto e habilidoso em seus elencos. Mais raros ainda aqueles que podem resolver em um lance, como o uruguaio. Aos 24 anos, ressalta como a aposta do Cruzeiro ao buscá-lo em Montevidéu valeu, dois títulos nacionais na bagagem. Há tempo para mais, enquanto outros cantos do mundo não descobrem a qualidade desequilibrante do camisa 10. Os torcedores celestes agradecem por poderem idolatrá-lo.

A ironia de rodar o mundo, aliás, se torna ainda maior a Arrascaeta. O uruguaio nasceu em Nuevo Berlín, um povoado de 2,5 mil habitantes às margens do Rio Uruguai. Durante a infância, jogava em uma equipe ligada a pescadores, enquanto ajudava o pai na padaria do vilarejo. Nesta época, ouviu a promessa do progenitor que receberia cinco pesos a cada gol que marcasse e logo passou a custar uma boa grana ao velho. Tudo para que, aos 15 anos, graças à indicação do amigo de um amigo, pudesse se testar no Defensor e, aprovado, se mudasse a Montevidéu. Menos de uma década depois, o mundo de Arrascaeta é bem maior que Nuevo Berlín, da Copa do Mundo na Rússia à volta ao mundo a partir do Japão. Menos de uma década depois, os cinco pesos renderam muito mais. Não há dinheiro que pague o êxtase incontável e imensurável por ser campeão.