A seleção espanhola passou por mudanças pontuais, mas importantes, em sua caminhada transformadora entre 2006 e 2008. Raúl se tornou a principal ausência em relação ao time que terminou engolido pela França nas oitavas de final da Copa de 2006. Além disso, aconteceram acréscimos notáveis na escalação rumo ao triunfo na Eurocopa. Andrés Iniesta e Marcos Senna, por exemplo, ajudaram a acertar o meio-campo. E pela ponta esquerda, houve uma novidade um tanto quanto silenciosa, embora bastante eficaz. David Silva parecia um veterano, ao tomar conta do setor com poucos meses de convocações. Virou um homem de confiança de Luis Aragonés, intocável no 11 inicial. Aos 22 anos, iniciava uma trajetória vitoriosa pela Roja. História que durou uma década, rendeu ainda outras duas taças de primeira grandeza e o incluiu entre os maiores que os espanhóis já aplaudiram. Nesta segunda, o camisa 21 anunciou sua aposentadoria da seleção.

Desde a eliminação dolorosa contra a Rússia nas oitavas de final da Copa de 2018, já discutia-se a possibilidade de David Silva encerrar a carreira com a equipe nacional. Andrés Iniesta se tornou o primeiro a cortar um dos laços com a geração vitoriosa da virada da década. Gerard Piqué também preferiu dizer adeus, em uma relação de bons momentos, mas outros tantos conturbados. Já David Silva seguiu os passos dos companheiros nesta semana, não com um emblema para ser sempre lembrado como o gol de Don Andrés, mas essencial aos troféus que se acumularam sob as ordens de Aragonés e Vicente del Bosque. O estilo de jogo que caracterizou aquelas seleções passa bastante pelo camisa 21, em seu talento refinado para armar, driblar e antever o jogo.

David Silva passou por todas as categorias formativas nas seleções de base. Defendeu a Espanha do sub-16 ao sub-21, até receber sua primeira chance com Aragonés em novembro de 2006. Naquele momento, também ganhava moral no Valencia, após empréstimos seguidos a Eibar e Celta. Demonstrou maturidade e talento para logo virar titular da Roja na caminhada rumo à conquista da Eurocopa. Para permanecer como uma das referências. Já na Copa de 2010, com o encaixe de David Villa como ponta esquerda, o camisa 21 permaneceu no banco durante a maioria das partidas. Não teve a mesma influência de dois anos antes, mas seguia como um dos jogadores mais respeitados do grupo. Até que a redenção viesse novamente na Euro 2012.

No 4-6-0 de Vicente Del Bosque, David Silva jogou pela direita ao longo daquela Eurocopa. Tinha um papel importante para dar profundidade ao ataque e acabou sendo um dos destaques da equipe. Na fase de grupos, foram três assistências e um gol. Já o melhor viria mesmo nos mata-matas, contribuindo bastante na goleada avassaladora sobre a Itália na decisão. O primeiro tento na final foi do camisa 21, o que abriu o caminho ao tricampeonato continental. Se não exibiu o brilhantismo de Andrés Iniesta ao longo do torneio, Silva permaneceu como um dos melhores do time por sua capacidade de desequilibrar. A grande consagração com a Roja.

Depois disso, a maestria de David Silva não conseguiu causar tantos impactos à seleção espanhola. Ainda faria grandes atuações, sobretudo em Eliminatórias, mas nada suficiente para mudar a sorte da equipe nacional nas grandes competições. De certa forma, as campanhas modestas contrastavam com o sucesso do meia no Manchester City. E a atual temporada serve como símbolo. Enfrentando uma situação delicada em sua família, com o nascimento prematuro de seu filho, o veterano continuou fazendo grandes aparições pela equipe de Pep Guardiola. Contudo, o desgaste físico e mental de meses tão intensos acabaram influenciando suas exibições no Mundial da Rússia. Teve os seus lampejos, mas aquém do que se esperava e do que poderia. Titular em todas as partidas, botou um ponto final de sua história com a Roja de maneira frustrante. Ele e Iniesta, sobretudo, mereciam mais.

“Não é fácil, depois de tudo o que vivi, sentar para escrever estas linhas. Foram dias e semanas de reflexão para tomar a decisão de terminar minha etapa na seleção. Sem dúvidas, é uma das escolhas mais difíceis da minha carreira, que comunico com agradecimento e humildade. A seleção me deu tudo e me permitiu crescer como jogador e pessoa, desde as categorias de base. Saio orgulhoso. Vou feliz por tudo o que consegui, vivi e sonhei com uma equipe que será lembrada sempre. Ponho fim em uma etapa, carregado de emoção por todos os momentos que me vêm à memória – como a figura de Luis Aragonés, um professor de quem nunca esqueceremos”, escreveu David Silva, em carta publicada nesta segunda.

“Não posso ir sem ter algumas palavras de gratidão aos meus companheiros, aos técnicos que confiaram em mim e aos funcionários da federação, que se desdobram para fazer nossa vida mais fácil. Quero agradecer também toda a minha família pelo apoio nestes anos, sem a ajuda deles nunca teria sido possível formar parte de tão grande história da seleção. E, logicamente, aos torcedores que sempre me brindaram com seu apoio e seu respeito a cada vez que vesti a camisa da Espanha. Obrigado, sorte e até sempre!”, concluiu.

David Silva se despede da seleção com 125 jogos e 35 gols. É o sexto que mais vezes entrou em campo pela Espanha e o quarto que mais balançou as redes. Aos 32 anos, promete cumprir o seu contrato com o Manchester City até 2020, quando atinge também uma década no clube. Marcas de um grande jogador, cujos feitos falam por si. Deixará saudades entre os torcedores da seleção espanhola pela maneira como honrou a camisa e pelos ótimos momentos que viveu com ela.