Há momentos que mesmo quando duas pessoas se dão muito bem, brigam demais. Todo mundo já passou por isso em algum momento, seja com os pais, com algum amigo ou amiga, com o namorado ou namorada, com o marido, com um familiar. Há um momento que qualquer coisa que se fale corre o risco de ser só para magoar um ao outro. É preciso dar um tempo para que os dois lados reflitam. Parece ser o caso de David Luiz e a Seleção brasileira neste momento.

David Luiz é um dos grandes zagueiros do mundo. Tem ótimas qualidades técnicas, sabe sair jogando e tratar bem a bola. É bom no jogo aéreo também, tanto ofensivo quanto defensivo. Os problemas de excesso de confiança na saída de bola e de abandonar a defesa pareciam controlados, mas sob pressão, ele voltou a apresentar problemas graves que podem comprometer o time. José Mourinho, no Chelsea, preferiu algumas vezes na temporada, em jogos duros, escalar Gary Cahill em vez de David Luiz. Tecnicamente, Cahill é bastante inferior a David Luiz. Só que Cahill não errará na saída de bola, não abandonará a sua posição, não cabeceia uma bola para a marca do pênalti. Por isso, mesmo sendo um grande jogador, ele precisa dar um tempo da Seleção depois da Copa.

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Os primeiros jogos de David Luiz na Copa mostraram a capacidade como defensor. Ao final da primeira fase, era um dos melhores jogadores da posição, se não o melhor. Contra a Colômbia, foi o melhor da Seleção em campo com uma atuação excelente, na defesa e no ataque, marcando o gol que acabou por ser o da vitória. Daí em diante, a sua participação na Copa entrou em um buraco. Contra Alemanha e Holanda, atuações desastrosas de alguém que tinha que ser referência do time, não um dos que capitula quando há problemas.

Contra a Alemanha, ele era o capitão do time, na ausência de Thiago Silva. Tinha o papel de exercer a liderança. De tranquilizar o time quando o desespero batesse, como bateu. Não só não teve essa calma, como ainda se mandou para o ataque e abandonou a sua posição e ajudou, assim, a Alemanha a construir a vitória por goleada. Porque ninguém mantinha a sua posição e ele, como líder, tinha que corrigir isso. Fez o contrário: foi o primeiro a abandonar a sua própria função.

Contra a Holanda, falhas técnicas graves. Além de posicionamento errado, teve o corte errado no segundo gol, quando o zagueiro jogou a bola para o meio da área, onde Blind, sozinho, mandou para a rede. Não foi a única vez. David errou várias interceptações, deu botes errados, foi afobado. Thiago Silva tinha que se matar de gritar para tentar manter a sua defesa posicionada. Não conseguiu.

Talvez David Luiz aprenda a se controlar mais atuando mais vezes ao lado de Thiago Silva, uma vez que serão companheiros de Paris Saint-Germain. Mas será importante que ele fique afastado da Seleção nos próximos jogos, não por falta de capacidade, ao contrário. Ele é um dos melhores da posição no mundo, mas não pode ter tantos erros técnicos, que parecem mais uma questão de preparo emocional, do que de falta de qualidade. Será preciso ter cabeça no lugar. Controlando esses seus instintos de ir ao ataque abandonando a defesa, se posicionando melhor. Não errar em lances cruciais é essencial para um zagueiro.

David Luiz tem idade para estar na seleção até a próxima Copa do Mundo, em 2018. Tem 27 anos, terá 31 no Mundial da Rússia. Precisa aprender, até lá, que não adianta ter muita técnica e ser um poço de carisma. Todo mundo gosta do zagueiro, que é capaz de uma cena tão linda como essa com James Rodríguez. É importante ter um jogador que se torna tão amado como David Luiz conseguiu. É tão ídolo que virou o rei das meninas nerds na internet. Mas é preciso saber lidar com os problemas em campo também. O jogador ainda precisa melhorar nisso.

David Luiz tem tudo para ser um craque da zaga e der um líder. Mas precisa, urgentemente, corrigir seu posicionamento e aprender a lidar com pressão forte. Há tempo para isso e qualidade ele tem de sobra. Fica a dica ao próximo técnico da Seleção: dê um tempo ao David Luiz. Deixe que ele esfrie a cabeça nos próximos amistosos depois da Copa. E que volte um jogador ainda mais completo do que já é, capaz de liderar os jovens brasileiros. Potencial para tudo isso ele tem.

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