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As redes sociais não são um termômetro completamente fiel do sentimento de toda a torcida de um time de futebol e, para falar a verdade, não existe nenhum que consegue captar com 100% de certeza o que milhões de pessoas estão pensando, mas não foi nenhuma surpresa que as respostas ao tuíte em que o Arsenal anunciou a renovação de contrato de David Luiz por mais uma temporada tenham sido majoritariamente negativas.

A mensagem também anunciava a extensão do empréstimo de Dani Ceballos e as contratações em definitivo de Pablo Marí e Cédric e, considerando que o primeiro ainda é um jovem com potencial e os outros dois mal jogaram, não é um salto tão grande imaginar que as lamentações tenham sido motivadas pelo jogador que, uma semana atrás, cometeu uma falha crucial, um pênalti e foi expulso em meia hora.

A mensagem mais repercutida foi uma manchete de um site satírico que dizia que o homem que pensava que havia perdido toda a esperança perdeu mais um pouquinho de esperança que ele nem sabia que ainda tinha e, embora possa ser um pouco exagerado, como tudo costuma ser na internet, é possível compreender por que muitos torcedores do Arsenal estão apavorados com a perspectiva de mais um ano de David Luiz.

Quando o zagueiro brasileiro foi contratado, há cerca de um ano, a análise majoritária, incluindo a minha, era que Luiz poderia ser um bom negócio para o Arsenal. Não exigia uma alta taxa de transferência e oferecia experiência a uma defesa que precisava dela. Não resolveria os problemas do time naquele setor, mas seria um quebra-galho de bom custo benefício por um certo período.

Certo. Erramos. Primeiro porque, no final de maio, o The Athletic fez as contas e descobriu que David Luiz custou £ 24 milhões ao Arsenal, entre as £ 8 milhões pagas ao Chelsea, £ 6 milhões em comissões e £ 10 milhões em salários. Não é tanto, mas barato também não é. Segundo, e principalmente, porque o que ele vem entregando ao time não tem compensado os erros cruciais que estão custando pontos que afastam o clube da briga por Champions League.

Bom deixar claro desde já que, se o Arsenal não ficar entre os quatro primeiros, e antes das partidas desta quinta-feira estava a dez pontos do Chelsea, não será culpa apenas de David Luiz. Conseguiu perder do Brighton, que não havia ganhado em 2020, sem ele. Há outros problemas, graves e profundos problemas. Os outros zagueiros do elenco não são muito melhores. Talvez nem melhores sejam. Jogadores contratados não corresponderam, houvelesões infelizes e um trabalho técnico interrompido no meio da temporada. Mikel Arteta tem dado bons sinais, mas, em seu primeiro trabalho como treinador principal, ainda é impossível saber se ele é o cara certo.

Mas David Luiz tem colecionado alguns feitos incômodos. Mesmo com a regra que dificulta a tripla punição em lances de pênalti, ele conseguiu ser expulso ao cometer falta dentro da área duas vezes na mesma temporada. Concedeu duas penalidades máximas em seus quatro primeiros jogos pelo Arsenal e quatro no total ao longo de toda esta edição da Premier League – igualando recordes. E em jogos grandes.

Há algo em comum entre os pênaltis que Luiz cometeu contra Liverpool, Chelsea e Manchester City: em todos o adversário estava à sua frente e ele tentou alguma ação desesperada para evitar o gol (contra os Blues, foi mais justificável porque ficou em situação precária após um recuo ruim de Mustafi). Um microcosmo, guardadas as devidas proporções, do pior jogo de sua vida, aquele contra a Alemanha, quando era possível encontrá-lo em qualquer lugar menos na defesa porque, à medida em que os gols foram saindo, esqueceu que sua missão era evitá-los e não tentar marcá-los no outro lado do gramado.

O jornalista especializado em tática Michael Cox escreveu uma boa análise para o The Athletic sobre alguns motivos que levam David Luiz a essas atuações desastrosas. Basicamente, ele consegue bons rendimentos quando atua em uma defesa protegida – como, não por coincidência, as de Roberto Di Matteo no título europeu ou de Antonio Conte -, mas tem sérios problemas quando precisa sair da sua posição para caçar atacantes na intermediária ou nas laterais da área.

Luiz, acho que isso já ficou claro para todo mundo, é estabanado e tem uma necessidade descalibrada de mostrar serviço o tempo inteiro que muitas vezes se transforma em ações impetuosas. Ficando mais velho, a tendência é o problema piorar porque o natural seria chegar cada vez mais atrasado na dividida e nada indica, nem histórico, nem personalidade, que ele consiga se adaptar a uma nova maneira de jogar. Não é uma questão de admitir os erros. Ele o fez com muita hombridade após o jogo contra o Manchester City. É de aprender com eles.

Esses pontos formam um paradoxo. As qualidades mais elogiadas em David Luiz são o seu bom passe, o que leva muitos a considerar que ele seria melhor como volante, porque seus erros não seriam tão fatais assim, e a capacidade de comunicação em campo com os colegas. Foram as justificativas dadas pelo diretor-técnico do Arsenal, Edu Gaspar, no anúncio da renovação. Isso o tornaria perfeito para um time que busca jogar com a posse de bola como o de Mikel Arteta.

Por outro lado, esse mesmo estilo de jogo, por simples probabilidade matemática, expõe os times a mais contra-ataques. Os marcadores precisam ser rápidos, ter bom tempo de bola e conseguir acompanhar as arrancadas dos adversários. Precisam ser bons em perseguição, mas ficou claro nesta temporada que, nessa situação, o recurso favorito de David Luiz é puxar a camisa de quem está à sua frente.

O futebol é um jogo complexo demais para fazer uma relação direta entre os erros de um único e os resultados de um time. O Arsenal provavelmente perderia do Liverpool de outra maneira, não fossem o pênalti em Salah e, depois, a facilidade com que permitiu que o egípcio arrancasse. Provavelmente perderia de outra maneira do Manchester City, embora ter concedido dois gols e a vantagem numérica em um intervalo tão curto de tempo tenha facilitado bastante o trabalho de Pep Guardiola.

O erro de Mustafi colocaria o Chelsea em vantagem de qualquer maneira, mas o Arsenal não teria que jogar mais de uma hora com um jogador a menos se Luiz tivesse simplesmente permitido que Tammy Abraham abrisse o placar. Os Gunners ainda conseguiram empatar aquele jogo e não seria absurdo imaginar que teriam boas chances de vencer sem a inferioridade numérica. Há menos ponderações a serem feitas no jogo do Watford porque o Arsenal vencia por 2 a 1 e faltavam menos dez minutos quando Roberto Pereyra foi derrubado pelo brasileiro na entrada da área.

E esses são apenas os pênaltis, os lances mais escandalosos em que David Luiz se mostrou um ponto fraco. Difícil calcular com exatidão quantos pontos a aparente pechincha acabou custando ao Arsenal. Mas talvez aquela diferença de dez para o quarto colocado fosse menor e, talvez, neste momento houvesse esperanças mais reais de disputar a Champions League na próxima temporada.

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