Disputar uma semifinal de competição oficial no Mineirão não traz bons presságios, cinco anos depois do maior trauma da Seleção. No entanto, se há uma adversária para expurgar este pessimismo, a Argentina parece mesmo a ideal. Há um notável histórico de confrontos entre os rivais em Belo Horizonte. Desde setembro de 1965, quando o Gigante da Pampulha foi inaugurado, esta será a sexta vez em que as duas equipes se enfrentarão por lá. O Maracanã só recebeu um clássico a mais durante o mesmo período, enquanto foram somente dois em São Paulo e Porto Alegre. O Mineirão, de certa forma, é um trevo de quatro folhas à Canarinho contra a Albiceleste. São quatro vitórias e um empate no cartel diante dos vizinhos.

Essa relação começa lá em 1968. E a vitória do Brasil por 3 a 2 naquele 11 de agosto causa controvérsias. Aquele foi o primeiro compromisso da Seleção no estádio inaugurado quase três anos antes. Mas era um time especial, composto apenas por jogadores dos clubes mineiros. O esquadrão do Cruzeiro, campeão da Taça Brasil dois anos antes, servia de base. Nove jogadores celestes começaram entre os titulares, incluindo ídolos como Tostão, Dirceu Lopes, Raul, Zé Carlos e Natal. O Atlético contribuiu com dois atletas, Djalma Dias e Oldair. Ainda houve o representante do América, Dirceu Alves, entrando durante o segundo tempo. Até mesmo os treinadores eram locais, em triunvirato de jornalistas mineiros formado por Biju, Carlyle e Jota Júnior.

A Argentina de José María Minella tinha em campo nomes como Roberto Perfumo, Alfio Basile, Héctor Yazalde e Rodolfo Fischer. Quatro dias antes, enfrentara um outro Brasil no Maracanã, este treinado excepcionalmente por Zagallo e composto apenas por jogadores dos clubes cariocas. Por conta disso, a AFA contesta a oficialidade de ambos os compromissos e aponta que encarou combinados regionais, que não servem para as estatísticas do Superclássico. A CBF continua respaldando os times estaduais que vestiram a camisa amarela e fizeram sua parte contra os rivais.

“Esta seleção mineira também é muito boa e todos os seus jogadores têm condições técnicas para formarem uma seleção nacional. Ninguém pode discutir os valores individuais destes jogadores”, declarou Tostão, ao Jornal do Brasil, na época. “Acredito na vitória, independentemente do resultado do primeiro jogo no Maracanã. Isso não diminuiu e nem aumentou a nossa responsabilidade. A obrigação de ganhar é a mesma”.

Em campo, o Brasil repetiu a formação que Orlando Fantoni aplicava em seu Cruzeiro. E o entrosamento da Seleção fez toda a diferença. Azeitado, o ataque cruzeirense garantiu dois gols em 20 minutos. Tostão serviu Evaldo no primeiro e, com a porteira aberta, os mineiros envolveram os argentinos com suas jogadas rápidas. Evaldo também teria participação fundamental no segundo tento, fingindo o chute para que Rodrigues arrematasse. Os gritos de olé já ecoavam, quando a Argentina resolveu abrir a caixa de ferramentas e apelar para a violência. Aos 32, os visitantes descontaram graças a um erro da defesa, que permitiu a Alberto Rendo vencer Raul.

A Argentina chegou a acertar uma bola na trave durante o início do segundo tempo. A tranquilidade do Brasil só foi garantida aos 12 minutos, com Dirceu Lopes. O craque deu um corte seco em Perfumo (seu futuro companheiro de Cruzeiro) e chutou com potência para balançar as redes. Após mais um erro defensivo, Ángel Silva permitiu que os albicelestes voltassem a encostar no placar aos 31 minutos. Mas os mineiros conseguiriam segurar o resultado, mesmo sem repetir o futebol exuberante da primeira etapa. O triunfo por 3 a 2 já garantia a alegria dos 49 mil presentes no Mineirão.

Não demorou tanto para que o Brasil voltasse a BH e encarasse a Argentina. Depois de clássicos no Beira-Rio e no Maracanã durante a preparação à Copa de 1970, o reencontro com a Albiceleste aconteceu em caráter oficial, pela Copa América de 1975. Naquela edição do torneio, a primeira organizada sem sede fixa, o Brasil escolheu o Mineirão como sua casa. O embate com os argentinos valia pela fase de grupos, em chave na qual também figurava a Venezuela. E também foi na capital mineira que o time de Oswaldo Brandão encararia o Peru, em semifinal decidida na moedinha a favor dos andinos.

Antes de saber o seu triste destino na competição, porém, a Seleção cumpriu a sua parte contra a Argentina. César Luis Menotti já estava à frente da Albiceleste, com um time que tinha traços que se consagrariam no Mundial de 1978. Mario Kempes, Leopoldo Luque, Osvaldo Ardiles, Américo Gallego e Daniel Killer atuaram no Mineirão, três anos antes de faturarem a Copa. Além disso, outros nomes célebres compunham aquela escalação da Albiceleste, incluindo Hugo Gatti e um jovem Jorge Valdano. Cabe dizer que aquele elenco não incluía jogadores dos “cinco grandes”. Baseava-se principalmente nos clubes de Rosário, Córdoba e Santa Fé, enquanto alguns atletas também haviam integrado a seleção de juniores em torneios disputados na França. O time do interior seria importante para moldar o futuro da equipe nacional sob as ordens de Menotti.

O Brasil, por sua vez, também contava com um grupo formado longe de Rio de Janeiro e São Paulo. O Mineirão era uma escolha óbvia, em time que novamente se valia do sucesso dos clubes mineiros. Em uma década de conquistas importantíssimas, Cruzeiro e Atlético Mineiro forneciam seus talentos a Brandão, regionalizando o plantel para a Copa América – como foi praxe em outros momentos no torneio a partir da década de 1950. Raul, Nelinho, Piazza, Roberto Batata e Dirceu Lopes eram alguns dos craques celestes, enquanto dos alvinegros cediam nomes como Marcelo Oliveira, Getúlio e Vanderlei. O zagueiro Amaral, do Guarani, seria o único intruso naquele duelo de 6 de agosto de 1975.

Diante de 71 mil pessoas no Mineirão, o Brasil fez sua parte contra a Argentina e venceu por 2 a 1. Mas não seria uma partida fácil, com a Seleção precisando buscar a virada. O gol albiceleste saiu aos dez minutos, em uma cobrança de falta ensaiada, na qual Kempes rolou para Julio Asad arrematar. Pois a bola parada também seria o caminho do empate, aos 31. Piazza enganou a barreira e Nelinho fez o que sabia de melhor, balançando as redes de Gatti. Já no segundo tempo, a entrada de Palhinha ajudou o time. O cruzeirense sofreu um pênalti aos nove minutos, que o próprio Nelinho converteu, decretando a vitória. No restante do tempo, coube aos brasileiros segurarem o placar, neutralizando os rivais. Duas semanas depois, Danival garantiu nova vitória do Brasil contra a equipe de Menotti, agora no Gigante de Arroyito.

Depois disso, o Brasil demoraria quase 30 anos para enfrentar novamente a Argentina no Mineirão, até junho de 2004. Se nas Eliminatórias para a Copa de 2002 a CBF concentrou os jogos inicialmente em Rio e São Paulo (mudando de ideia após as marcantes revoltas dos torcedores diante das más atuações), a campanha de qualificação ao Mundial seguinte se diversificou pelo país. O time de Carlos Alberto Parreira começou atuando em Manaus e em Curitiba, até receber a Albiceleste em Belo Horizonte. A escolha da cidade não era ao acaso. A capital mineira não era palco de uma partida da Canarinho desde o empate com a Romênia em 1995. Mas havia um pano de fundo político por trás da opção: então governador de Minas Gerais, Aécio Neves fez o lobby e contou com o aceno de Ricardo Teixeira.

Por conta do jogo, o governo de Minas realizou uma reforma no Mineirão, com a instalação de cadeiras nas arquibancadas e de câmeras de segurança. Além disso, apenas para a ocasião, foram armados 52 camarotes na área das cadeiras inferiores. Os preços variavam entre R$30 mil e R$50 mil, abrigando até 100 pessoas. Também criou-se uma área VIP em que mulheres pagavam R$150 e homens, R$200. De certa forma, este jogo antecipou o conceito de “arenização” no futebol brasileiro. Joseph Blatter foi um dos convidados de honra, recebido até mesmo no Palácio da Liberdade por Aécio Neves. Antes que a bola rolasse, Milton Nascimento e o então ministro Gilberto Gil cantaram o hino nacional.

A festa pomposa teria várias celebridades e políticos nos camarotes – o que rendeu críticas ácidas de Jorge Kajuru na televisão e motivou sua demissão, ao se recusar a pedir desculpas, conforme a imposição da direção da TV Bandeirantes. E o evento esteve distante de ser um sucesso. Torcedores invadiram a zona de imprensa, a divisão entre os setores não estava clara e os cambistas abusaram dos preços. Além disso, policiais civis e militares realizaram um protesto contra Aécio Neves na entrada do Mineirão, reclamando dos salários de ambas as corporações em Minas. Blatter, na saída do estádio, diria que o Brasil necessitava de “muito investimento” se quisesse receber a Copa de 2014.

Em campo, a Argentina de Marcelo Bielsa vinha de uma sequência de 17 jogos sem perder nas Eliminatórias. O time contava com estrelas do calibre de Hernán Crespo, Javier Zanetti, Juan Pablo Sorín e Walter Samuel, mas também bombas como Facundo Quiroga e César Delgado. Já o Brasil de Carlos Alberto Parreira exibia praticamente força máxima, com o desenho da equipe que atuaria na Copa de 2006. Dida, Cafu, Juan, Roberto Carlos, Zé Roberto e Kaká apareciam no 11 inicial. Já o ataque era composto por Ronaldo e Luis Fabiano – este, na vaga do lesionado Ronaldinho Gaúcho. Seria uma das atuações mais célebres do Fenômeno com a amarelinha.

O Brasil não faria uma boa atuação, cabe dizer. A Argentina incomodou. Todavia, os pênaltis pavimentaram o caminho do triunfo por 3 a 1. O primeiro gol saiu aos 17 minutos, em penalidade que Ronaldo sofreu e cobrou – duas vezes, até, por conta de uma invasão. A Albiceleste dava calor e criava suas chances, mas o Fenômeno ampliou aos 23 do segundo tempo. Sofreu novo pênalti, de Javier Mascherano, e mandou para dentro. Os visitantes descontaram aos 35, com Juan Pablo Sorín. Já nos acréscimos, a terceira penalidade que Ronaldo sofreu e cobrou, fechando a contagem. Depois disso, os argentinos foram reclamar ao árbitro Óscar Ruiz, mas os três pontos eram dos brasileiros, em campanha tranquila até a Copa de 2006.

Assim como em 1968 e 1975, o clássico no Mineirão teve as crias locais brilhando. Ronaldo não jogava no estádio desde sua despedida do Cruzeiro, dez anos antes. Diante da boa atuação, afirmou que aquela era “sua casa”. Alex, por sua vez, estava de saída do Cruzeiro após arrebentar nos meses anteriores. Teve seu nome pedido pela torcida quando a Seleção não estava bem, saiu do banco no segundo tempo e criou a jogada que resultou no terceiro gol. E, mesmo do lado adversário, Sorín não foi esquecido. Defendendo o Paris Saint-Germain na época, recebeu os aplausos dos cruzeirenses, embora suas reclamações no final também tenham gerado vaias nas tribunas.

A partir da vitória de 2004, o Mineirão se tornou a casa dos jogos do Brasil contra a Argentina nas Eliminatórias. A tripleta de Ronaldo e o triunfo seguro poderiam indicar as “boas vibrações” garantidas por Belo Horizonte. Mas não foi só isso que influenciou na escolha da cidade para ser palco do clássico em junho de 2008. Novamente Ricardo Teixeira atendeu os pedidos de Aécio Neves. E, de novo, a partida da Seleção acabou transformada em evento para celebridades. A organização realizou uma festa para 800 convidados no estádio, que incluía atores, políticos e outras personalidades. Com isso, o governador esperava ganhar força para receber a abertura da Copa de 2014. O vice-presidente José Alencar também estava presente.

Em campo, a situação era bem mais crítica. O Brasil não fazia bom começo nas Eliminatórias e sequer aparecia na zona de classificação. Dunga não sustentava muito respaldo à frente do time, embora tenha escalado vários medalhões para a ocasião. Júlio César, Maicon, Lúcio, Juan, Gilberto Silva e Robinho continuariam entre os titulares rumo à Copa de 2010. Existia ainda um interesse em Adriano, que voltara a ser convocado por causa do bom momento no São Paulo. Técnico da Internazionale na época, José Mourinho estava presente para analisar o centroavante. Já a Argentina de Alfio Basile se via rodeada por desconfianças. Juan Román Riquelme era o craque daquela equipe, enquanto Lionel Messi sustentava sua reputação. Sergio Agüero ainda entrou no segundo tempo.

O clássico apresentou um futebol pobre naquela noite, encerrado com o empate por 0 a 0. Em primeiro tempo de raras emoções, a Argentina tinha a iniciativa, enquanto o Brasil criou a melhor chance. Já no segundo tempo, a Albiceleste esteve mais próxima da vitória, com boas chances desperdiçadas por seus atacantes. A Seleção terminou vaiada e, ao longo da noite, Dunga recebeu diversas “homenagens” da torcida. Balançando no cargo, o comandante foi chamado de “burro” assim que seu nome apareceu no telão e precisou ouvir o tradicional “Adeus, Dunga” entoado pelos mineiros. Aplausos apenas para Adriano, que não fez boa atuação, e para o próprio Messi – o que gerou revolta dos jogadores brasileiros. O momento de maior empolgação, de qualquer forma, aconteceu quando o Skank apareceu no gramado para um breve show durante o intervalo. De resto, uma decepção só.

Sem que o Brasil jogasse as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, o retorno da partida contra a Argentina no Mineirão aconteceu rumo a 2018. Os personagens políticos já haviam mudado, mas continuava sendo uma festa cara, que resultou na segunda maior renda da história do futebol brasileiro até então – R$12,7 milhões, com ingresso médio equivalente a quase R$240. Ainda assim, a mística do estádio se consolidou. E seria interessante aproveitá-la, diante do início do trabalho de Tite. O treinador estava em sua quinta partida à frente da Seleção. Havia batido Equador, Colômbia, Bolívia e Venezuela nos compromissos anteriores, até o teste de fogo contra a Albiceleste. Era novembro de 2016 e a lua de mel com o comandante chegaria ao ápice com a vitória por 3 a 0.

A Argentina experimentava a sua crise ampla, seja nos meandros políticos da AFA, seja pelo comando técnico de Edgardo Bauza. O treinador permanecia com a base que acumulara vice-campeonatos nos três anos anteriores, incluindo Lionel Messi, Ángel Di María, Gonzalo Higuaín, Javier Mascherano e Nicolás Otamendi. Já o Brasil vinha com praticamente o mesmo time que seria utilizado na Copa de 2018, incluindo a presença de Neymar, Gabriel Jesus, Philippe Coutinho, Paulinho, Miranda, Marcelo, Daniel Alves e Alisson. Foi, talvez, a melhor exibição sob as ordens de Tite.

Antes que a bola rolasse, a torcida no Mineirão realizou uma bonita homenagem a Carlos Alberto Torres, falecido semanas antes. Os gritos de “Capita” tomaram a atmosfera. Já depois, o que se viu foi um início de jogo equilibrado, até que a Seleção começasse a esmerilhar os visitantes. O primeiro gol saiu aos 25 minutos, com um chutaço de Coutinho, no seu tradicional ajeita e bate. Antes do intervalo, Neymar ampliou, aproveitando a linda enfiada de Gabriel Jesus. Já no segundo tempo, Paulinho se sobressaiu por seu apoio e fechou a contagem. Seria uma ótima exibição dos brasileiros, que poderiam ter marcado até mais. Enquanto isso, Messi até aplicou um chapéu em Fernandinho no início da noite, mas terminaria anulado pelo volante. No final, os torcedores ainda ensaiaram um“Olê, olê, olê, olê, Tite, Tite” para o aclamado treinador – que protagonizara uma entusiasmada comemoração após o tento de Paulinho, saindo em disparada para abraçar os jogadores.

Quase três anos depois, as impressões são bastantes distintas. Tite está distante daquela exaltação pública, da mesma maneira que os heróis daquela vitória hoje são execrados na Seleção. Não que a Argentina tenha melhorado, em um momento que consegue ser mais errante. Porém, este sexto clássico no Mineirão será o mais importante nesta história de cinco décadas. Aquele com capacidade de eternizar com mais força seus heróis e seus personagens. O Mineirão terá mais uma oportunidade de se provar como a estrela da sorte à Seleção.